Em Divinópolis, virou rotina. E, com ela, nasceu um fenômeno político que intriga até quem acompanha bastidores há décadas: a culpa nunca aterrissa no gabinete do prefeito. A cidade assiste a confusão, desgaste, investigação, denúncia, operação policial, troca de gestão, e no fim Gleidson aparece como o homem que “descobriu”, “cobrou”, “denunciou”, “não tolerou”. Como se a prefeitura fosse um terceiro, olhando de fora para dentro. Como se o gestor não fosse o gestor, fosse apenas expectador.
O mecanismo é simples, mas eficiente. A bomba começa a estufar, surge o rumor, a rede social esquenta, e antes que o estrago vire irreversível, o prefeito se antecipa. Ele grava, vai ao local, dá bronca em alguém, cria um vilão do dia e, quando convém, transforma o caso em notícia de fato no Ministério Público. A narrativa fica pronta. A culpa ganha endereço fora do gabinete. E, enquanto as instituições caminham, ele segue no papel de paladino.
Não se trata de dizer que denunciar é errado. Denunciar é dever. O problema é o padrão. Quando a denúncia vira método recorrente para “tirar o corpo fora”, a cidade precisa perguntar: quem administra? Quem escolhe contratos? Quem fiscaliza? Quem tem poder de corrigir antes de virar escândalo? Quem nomeia ? Quem exonera ? Quem assina ?
Transporte urbano: “tolerância zero” no discurso, milhões no repasse
O transporte coletivo é o exemplo mais didático desse roteiro. O prefeito, em diferentes momentos, fez discursos duros sobre prestadores e sobre a qualidade do serviço. Só que a prefeitura é a permissionária. Ela organiza o sistema, contrata, fiscaliza e paga a conta política do colapso.
Na prática, o que o cidadão viu foi o congelamento do preço da passagem virar uma bomba-relógio fiscal, que vai explodir no colo da vice-prefeita Janete Aparecida, quando assumir o cargo. A imprensa local registrou que a prefeitura repassou valores milionários ao Consórcio Transoeste para segurar reajuste. Em 2025, um decreto apontou subsídio de R$ 11,5 milhões. Em 2026, a administração voltou a tratar do tema com repasse de R$ 8 milhões, enquanto a tarifa continuou represada, entre outros repasses, que passa dos R$ 35 milhões.
Ao mesmo tempo, existe um dado que mostra o tamanho do risco futuro. Em notícia oficial, o Comutran chegou a aprovar valor tarifário de R$ 6,09 após análise de planilha. Ou seja, a diferença entre o preço “político” e o preço “técnico” não desaparece. Ela só muda de endereço. E, quando o prefeito empurra o reajuste com subsídio, alguém paga depois, com tarifa maior, com mais subsídio, ou com colapso de frota, com ônibus velhos e sem acessibilidade.
Saúde: o caos só termina quando muda comando e muda gestão
Na saúde, a cidade viveu reclamações recorrentes, pressão por atendimento e desgaste na ponta. Em crise de saúde, o prefeito costuma operar no modo “fiscalização de vídeo”. Ele apareceu na unidade, cobrou, constrangeu servidores e ainda tenta vender a imagem do gestor que “não passa a mão na cabeça”.
Só que o problema estrutural não se resolve no grito. Ele se resolve com gestão, contrato, equipe, fluxo e controle. O caso mais simbólico foi a UPA. A prefeitura iniciou tratativas para o CIS-URG Oeste assumir a administração após problemas com a gestão anterior. A transição caminhou e o CIS-URG assumiu a UPA, com a mudança repercutida amplamente.
A pergunta que fica é inevitável. Se a solução existia, por que a cidade precisou atravessar o desgaste, a pressão pública e o caos para chegar nela? O prefeito colhe o bônus da “solução”, mas a prefeitura carrega o ônus do tempo perdido.
Playballs: R$ 10 mil por brinquedo e a conta que virou “culpa de terceiros”
O primeiro escândalo que marcou o imaginário coletivo foi a compra dos playballs. O caso virou CPI e ganhou repercussão porque a prefeitura comprou 129 unidades de brinquedos por valor próximo de R$ 10 mil cada, com custo total acima de R$ 1,12 milhão.
A discussão não ficou só no preço. Reportagens trataram de adesão a atas e questionamentos sobre o processo de compra.
Na prática, o município se viu obrigado a explicar por que pagou tão caro e por que fez daquela forma. No discurso político, a culpa virou elástica: ora foi da “ata”, ora foi de “técnicos”, ora foi de “herança”, ora foi de “processo”. Mas o comando era do governo.
E, no fim, a sensação popular não foi apenas de desperdício. Foi de impotência: brinquedo caro, crise instalada, investigação em curso, e o prefeito sempre fora do raio de responsabilidade direta. A prefeitura vira “sistema”. O prefeito vira “fiscal do sistema”.
PF dentro da Prefeitura: extorsão e o reflexo institucional
Quando a Polícia Federal prendeu quatro pessoas em flagrante por tentativa de extorsão dentro da Prefeitura, envolvendo verbas destinadas a secretaria de cultura. Fato esse que foi grave por si e simbólico pelo cenário: o crime ocorreu no coração do poder administrativo. A PF informou que houve tentativa de extorsão contra Fernando Henrique, assessor do prefeito, em razão de propina de percentual sobre verba federal que foi destinada ao município.
Detalhe que solta aos olhos: A Policia Federal partiu do pressuposto da verossimilidade da narrativa do denunciante ameaçado, Fernando Henrique, e não apreendeu seu telefone. Fato até os dias de hoje não entendido por alguns dos advogados dos quatro presos acusados de tentativa de extorsão. Fato é que os quatro já estão todos soltos, no sistema domiciliar.
Esse tipo de episódio exige postura institucional firme. Só que, novamente, a narrativa tende a correr para a mesma saída: “não é comigo, é com eles”. A prefeitura aparece sempre como vítima. O prefeito aparece como o homem que “não aceita”. E a cidade fica com a pergunta incômoda: por que isso aconteceu dentro da máquina?
Ghost Machine: a denúncia que “salva” e o roteiro que se repete
O capítulo mais recente reforça o padrão. Na Operação Ghost Machine, a própria prefeitura divulgou que a apuração começou após suspeitas identificadas pela administração e que documentos foram encaminhados ao Ministério Público. Veículos noticiaram que o prefeito relatou ter ouvido “rádio peão” sobre fatos estranhos na SEMSUR, e que formalizou a notícia de fato.
Aqui mora o ponto central desta matéria. Denunciar pode ser correto. Mas denunciar também pode virar escudo. Quando o prefeito vira o primeiro a “contar” o problema, ele tenta tomar posse do lado bom da história antes que o lado ruim chegue. E isso tem funcionado politicamente: o escândalo explode, mas ele já está do lado de fora, apontando o dedo.
Observações importantes: A denúncia de Gleidson remetida ao MP e propalada populistamente como origem da ação do Gaeco, que prendeu servidores públicos, é uma. Porém as investigações do gaeco e suas consequencias, foram outras totalmente diferente. Gleidson denunciou ao MP e até griffou que no final de 2024, não precisou exatamente o mês, que havia “MURMURINHO NOS CORREDORES”, a “RADIO PEÃO” de irregularidade, ilegalidade na SEMSUR, mas somente em 10 fevereiro do ano seguinte foi que ele tomou a decisão de exonerar o titular da SEMSUR, e pasmem, só em 13 de março é que ele foi ao Ministério Público fazer a denúncia, em que ele, em tese, estava envolvido. Pois é o chefe do Executivo.
Um outro detalhe que chama a atenção é que, a denuncia de Gleidson mirou a usina de asfalto, pessagem de caminhões. Todavia, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado – GAECO, sequer citou, até então, na ocasião da entrevista coletiva, qualquer irregularidade em tal setor, mas sim, em locação de máquinas e licitações fraudulentas.
Esquadrilha da Fumaça: o populismo como salvo-conduto para desobedecer norma
Como se não bastasse, o episódio do aeroporto escancarou outra característica que aparece com frequência: o populismo como justificativa para atropelar regra. Em evento lotado, houve repercussão de vídeo em que o prefeito mexe em divisórias e confronta militares do Tiro de Guerra, sob a frase “a autoridade aqui é o povo”.
O problema não é defender acesso popular. O problema é fazer isso afrontando hierarquia e, principalmente, abrindo brecha para risco. Em local de controle, regra existe para conter fluxo, evitar tumulto e proteger pessoas. A frase “o povo manda” não substitui protocolo. E, se algo desse errado, o povo pagaria a conta.
O padrão que Divinópolis precisa encarar
Somando os casos, o retrato fica evidente: o prefeito domina a narrativa da crise. Ele se adianta, cria um vilão fora do gabinete e reforça a imagem do gestor indignado. A prefeitura, porém, não é um ser autônomo. Gleidson tem comando, caneta, fiscalização e responsabilidade, que ele terceiriza para o MP com o objetivo de sair como herói: “EU DENUNCIEI”.
A crítica que emerge não precisa de ofensa pessoal. Ela precisa de lógica administrativa. Quem governa precisa responder por tudo que acontece sob sua gestão, inclusive pelo que não viu, pelo que negligenciou e pelo que deixou estourar. Denunciar depois que o dano aconteceu não apaga o dever de prevenir.
E o mais grave: quando a política premia esse roteiro, ela incentiva a gestão por crise. A crise vira combustível. O vídeo vira ferramenta. O MP vira saída honrosa. E o cidadão, no fim, paga duas vezes: paga com serviço ruim e paga com a normalização do absurdo.






