A população de São Sebastião do Oeste tem intensificado as críticas em relação aos atendimentos dos médicos prestados no Pronto Atendimento Municipal. Diversos relatos apontam para a falta de comprometimento de médicos que atuam na unidade, além de problemas estruturais relacionados à forma como a gestão municipal organiza as escalas dos plantões.
É importante ressaltar que as queixas da comunidade são direcionadas exclusivamente aos atendimentos prestados pelos médicos, relatando que não são todos, mas a maioria deles.
Relatos de descaso no atendimento
Segundo usuários do serviço, alguns médicos não realizam sequer o exame clínico básico durante as consultas. “A gente entra, eles perguntam o que temos, prescrevem o medicamento e liberam. Tem casos em que nem sentamos na cadeira”, relatou um morador.
Pacientes também se queixam da demora no início dos atendimentos no período da manhã, entre 5hs e 7hs da manhã, quando, apesar de não haver fila, médicos permanecem sem chamar para consulta. Em outro ponto crítico, durante a madrugada, a percepção é de que profissionais chegam a atender visivelmente sonolentos e com mau humor, prejudicando a qualidade do serviço.
Escalas de 24 horas sob questionamento
Parte da comunidade atribui a responsabilidade desses problemas à administração municipal, que adota escalas de 24 horas seguidas para os médicos. Essa prática, segundo moradores, favorece exclusivamente a empresa terceirizada que contrata os profissionais, simplificando sua logística de deslocamento e economizando despesas, mas, em contrapartida, submetendo a população a atendimentos realizados por médicos exaustos.
“É evidente que um profissional cansado não tem condições físicas nem psicológicas de oferecer um serviço de qualidade. O município está colocando os interesses da empresa acima da vida da população”, afirmou um morador ouvido pela reportagem.
Histórico de casos graves
A unidade já foi alvo de diversas denúncias e acusações de falhas médicas. Entre os casos mais graves estão.
Morte por dengue: uma mulher da comunidade de Serra Negra buscou atendimento três vezes em dez dias, com exames indicando plaquetas baixas, mas foi liberada em todas as ocasiões. Dois dias depois, voltou à unidade e faleceu dentro do pronto atendimento, antes mesmo de receber cuidados.
Um morador emocionado destacou a dor da família. “Vá até a casa da mulher da Serra Negra e veja a tristeza dos filhos dela. Será que se o médico estivesse descansado não teria percebido que as plaquetas estavam baixas? Ele poderia ter encaminhado ela para Divinópolis, e talvez hoje ela ainda estivesse aqui.”
Raio-X ignorado: em outro caso, um paciente realizou um exame de raio-x no pronto atendimento que apontava fratura no dedo. O médico, no entanto, não constatou o problema e liberou o paciente. Horas depois, já em Divinópolis, outro profissional analisou a mesma imagem e confirmou a fratura.
Transporte irregular: Em 2024, outra paciente foi transferida para Divinópolis em ambulância do município sem acompanhamento de enfermeiro, apenas com motorista. Chegou à UPA de Divinópolis em estado crítico e não resistiu.
Médico com histórico comprometedor: um profissional que atuava na cidade foi denunciado por usar o carimbo de outro médico em São Paulo e acusado pela morte de um paciente. Inicialmente, a administração local o defendeu, mas após a repercussão, optou pela sua demissão.
Pressão da população sobre o prefeito
Moradores reforçam que a solução do problema depende exclusivamente da gestão municipal. Em apelo direto ao prefeito, afirmam. “Prefeito, nossas vidas estão em suas mãos. O município paga por plantões de 12 horas, mas aqui os médicos cumprem 24 horas seguidas e recebem como dois plantões. O resultado é atendimento por profissionais exaustos, o que coloca em risco toda a população. Em outros municípios a escala é de 12 horas, os gestores se preocupam com os atendimentos da população. Por que aqui em São Sebastião tem que ser 24? Para atender interesses da empresa terceirizada?”
Eles destacam ainda que São Sebastião do Oeste paga o plantão médico mais caro da região, o que elimina a justificativa de falta de profissionais. “O problema não é falta de médicos, é atender interesses de empresários. Isso é uma questão de gestão”, reforçou um morador. “Amanhã pode ser um parente seu, prefeito, precisando de atendimento. Você gostaria que fosse atendido por alguém descansado ou cansado?”
O recado é direto e contundente.
“Não deixe que se percam mais vidas. Não carregue nas suas costas a culpa ou o sangue de pessoas. Mude essa escala para o bem da população de São Sebastião do Oeste ou convoque uma audiência pública em horário oportuno, onde a comunidade tenha condições reais de participar. Ouça a população que precisa do atendimento, e não apenas trabalhadores ou gestores que têm interesse em defender o que é melhor para a administração. O senhor foi eleito pelo povo e tem obrigação de defender os interesses do povo, e não de empresas.”
População acionara Câmara Municipal e Ministério Público
Além das denúncias públicas, moradores informaram que irão encaminhar representações à Câmara Municipal e ao Ministério Público solicitando esclarecimentos ao responsável técnico (RT) pelos médicos da unidade. Entre os questionamentos, a comunidade exige respostas sobre:
Se o responsável técnico (RT) acompanha realmente os atendimentos realizados pelos médicos;
Qual a frequência do responsável técnico (RT) na unidade e se permanece presente durante os plantões;
Como é feito o acompanhamento e fiscalização do trabalho dos médicos;
Se o RT exerce o cargo conforme a lei que criou o cargo de RT no Pronto Atendimento Municipal?
Se o RT tem conhecimento dos casos relatados pela população, como mortes, falhas em diagnósticos e erros em exames e, em caso positivo, quais providências foram tomadas;
Se foi instaurado procedimento administrativo para apuração dos fatos?
Qual o valor pago ao RT para exercer essa função;
E, por fim, se o pagamento é feito pela prefeitura ou pela empresa terceirizada.
A cobrança da população é clara: transparência, fiscalização efetiva e compromisso com a saúde pública.
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