Administração transforma crise sanitária em apagão de governabilidade (vídeo análise – professor Márcio Almeida)


O que até agora tem sido uma crise sanitária de proporções inéditas em Divinópolis caminha para se transformar também em uma crise de governança – O modo como a administração municipal está lidando com a política de combate à pandemia de coronavírus está fragilizando o governo ao invés de fortalecer sua posição junto aos munícipes. Um dos problemas está na indefinição do prefeito Gleidson Azevedo entre atender os interesses da saúde pública, como a recomendação de onda vermelha feita pelos comitês regional e municipal de enfrentamento da pandemia, e os do setor de comércio, ao qual pertence o chefe do Executivo e que o pressiona para determinar a abertura das portas na onda amarela.

Em visíveis dificuldades de conduzir interesses contraditórios, o prefeito recém-empossado disse à mídia local que só tomaria decisões após a divulgação dos números do programa Minas Consciente e da sua avaliação pelo comitê municipal por ele nomeado. No mesmo dia, porém, afirmou a um outro veículo de comunicação, que iria antecipar a onda amarela independentemente dos números de classificação que viessem do Estado.

Quando eles efetivamente vieram, mostrando situação de gravidade inédita em Divinópolis desde o início da pandemia, o prefeito, contradizendo a si mesmo, abriu mão de antecipar a onda amarela e manteve a vermelha. Na porta da prefeitura, porém, depois de reconhecer que a situação é grave e que os indicadores colocam o município à beira da onda vermelha (em uma situação em que ainda não chegaram dados de todos os impactos das aglomerações de fim de ano), o prefeito anunciou para a próxima segunda-feira o retorno da cidade à onda amarela, independentemente do parecer dos comitês e dos índices de vigilância epidemiológica que vierem.

Claramente desconfortável com a pressão sofrida à porta da prefeitura, onde se aglomeravam algumas dezenas de comerciantes em protesto pela reabertura das portas, Gleidson também afirmou, na contramão do Minas Consciente e de todas as recomendações feitas por técnicos no Brasil e no mundo, estar seguro de que a abertura do comércio não tem responsabilidade pela piora dos números, embora o funcionamento de quaisquer estabelecimentos  aumente o fluxo de pessoas, fluxo este que o mandatário disse na ocasião ser preciso diminuir.

Entre idas e vindas e declarações na contramão dos protocolos técnicos estaduais aos quais o município aderiu por decreto, o prefeito também disparou contra o modo de funcionamento de bancos, aos quais atribuiu, sem entretanto mostrar dados, responsabilidade pela crise, o que gerou reação indignada de representantes do sindicato dos funcionários da Caixa em nota divulgada à mídia pela entidade.

Se não fosse o bastante, Gleidson ainda enfrenta desobediência civil vinda de comerciantes que, afrontando a determinação do prefeito, foram flagrados pela mídia mantendo lojas total ou parcialmente abertas desde o dia 2 de janeiro. Aparentemente fiando-se em que não serão autuados por fiscalização, vários deles têm trabalhado ostensivamente como se não houvesse proibição.

Outra frente de problemas vem de manifestações de ex e atuais membros do Legislativo Municipal, que defendem a abertura de academias com base em uma lei contrária ao Minas Consciente, votada no ano passado, que considera essenciais os serviços de academias, e de templos religiosos, também na contramão do programa e das indicações científicas hoje acatadas no mundo inteiro.

Enquanto hesita na implementação de medidas da política municipal de enfrentamento da pandemia, tendo como secretário de saúde um servidor que recomendou ele próprio o fechamento na onda vermelha enquanto presidente do comitê macrorregional, e como secretário de Desenvolvimento Econômico um empresário que tem advogado a abertura em uma espécie de sistema próprio de comunicação que cria fatos políticos por meio de declarações feitas independentemente do  próprio sistema oficial de divulgação de informações, Gleidson vai administrando uma cidade cada vez mais doente de Covid-19.

Na Divinópolis que o prefeito diz amar, havia 85 mortos contabilizados oficialmente até 21 de dezembro. Desde então, em apenas duas semanas, morreram 26 pessoas, várias delas sob a gestão do novo mandatário. Para o jornalista Márcio Almeida, que inicia sua colaboração com o Divinews comentando o caso, já é evidente uma crise de governança. “Infelizmente, há na nova gestão, apesar do marketing em contrário, uma mistura explosiva de hesitação, pressão e pouca clareza quanto aos rumos necessários”, diz Márcio, que gravou um vídeo especial para o jornal. Para o jornalista, com a piora dos números, que está desenhada no horizonte, a situação tende a agravar-se por decisões e atos administrativos que fogem à lógica da administração pública. “Visivelmente, ele precisa de ajuda”, comentou o jornalista, que tem duas décadas de experiência na cobertura de políticas públicas.

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