O ex-prefeito de Divinópolis e deputado federal eleito Gleidson Azevedo (Republicanos) parece ter transformado declarações desastrosas, repercussão negativa e pedidos de desculpas em uma sequência cada vez mais difícil de justificar. Depois do desatino de defender a extinção de todas as câmaras municipais do Brasil, desqualificar o trabalho dos vereadores e ainda errar uma conta matemática elementar durante entrevista à Rádio Itatiaia, Gleidson resolveu recuar. Mas nem mesmo na hora de pedir perdão conseguiu conter a grandiosidade do próprio discurso. Com uma dose considerável de soberba, anunciou que seu longo vídeo de retratação poderia mudar a história do país. A declaração chama a atenção pela falta de proporção: quem precisava explicar as próprias falas acabou apresentando o pedido de desculpas como se estivesse prestes a protagonizar um acontecimento histórico nacional.
O deputado federal eleito Gleidson Azevedo (Republicanos) voltou às redes sociais para pedir desculpas aos vereadores brasileiros depois de defender, em entrevista à Rádio Itatiaia, a extinção de todas as câmaras municipais do país. Irmão gêmeo do governador eleito Cleitinho Azevedo, Gleidson provocou forte reação de entidades representativas do Legislativo e precisou reconhecer que se expressou mal. Mas a retratação veio acompanhada de novas críticas, acusações e uma promessa grandiosa: a de que seu vídeo poderia mudar a história do Brasil. O episódio levanta dúvidas sobre a responsabilidade de suas declarações e os possíveis embaraços políticos que poderá criar ao irmão, prestes a assumir o governo de Minas Gerais.
Gleidson pediu o fim das câmaras e depois reconheceu que errou
A controvérsia começou quando Gleidson concedeu entrevista à Rádio Itatiaia e apresentou algumas das propostas que pretende defender na Câmara dos Deputados. Sem apresentar um modelo jurídico detalhado, anunciou a intenção de extinguir os legislativos municipais e, consequentemente, os mandatos dos vereadores.
“Eu tenho uma ideia lá dentro do Congresso que eu não sei que vai passar, que é acabar com as câmaras, acabar com a questão dos vereadores”, declarou. O ex-prefeito foi além. Questionado sobre o impacto das câmaras na vida da população, respondeu:
“Nenhum, não tem um projeto relevante nenhum, é aprovar nome de rua, é dar moção para a população.” A declaração desconsiderou atribuições constitucionais dos vereadores, como aprovar leis municipais, discutir o orçamento, fiscalizar o prefeito e exercer o controle político sobre a administração.
Gleidson também defendeu acabar com as emendas parlamentares e sugeriu substituir o trabalho fiscalizador das câmaras por estruturas semelhantes a pequenos tribunais de contas. A ideia atingiu diretamente as prerrogativas de milhares de vereadores e encontrou resistência entre entidades municipalistas.
A Associação das Câmaras Municipais de Minas Gerais (ACAM) divulgou uma nota de repúdio, enquanto representantes da União dos Vereadores de Minas Gerais passaram a cobrar um posicionamento da Associação Brasileira de Câmaras Municipais (ABRACAM). A reação institucional expôs a dimensão de uma proposta que Gleidson lançou durante a entrevista, sem apresentar as condições necessárias para sua implementação.
Pedido de desculpas começa com promessa de mudar a história do país
Depois da repercussão, Gleidson gravou um vídeo dirigido especialmente aos vereadores. Seria a oportunidade de reconhecer o alcance de suas declarações e esclarecer o que efetivamente pretende propor no Congresso.
Mas, antes mesmo de apresentar suas desculpas, preferiu anunciar a importância histórica que atribuía à própria gravação. “Eu peço que toda a população, especialmente você, vereador, fique até o final desse vídeo. Ele é longo, mas é um vídeo que a gente pode mudar a história desse país. Pode ser criado um maior movimento para a gente poder realmente mudar a vida das pessoas.”
A abertura chama a atenção pela desproporção entre o motivo da gravação e a expectativa anunciada pelo parlamentar. Afinal, o vídeo surgiu porque ele precisou se explicar após defender a extinção de uma instituição prevista na Constituição Federal. Em seguida, Gleidson admitiu o erro: “Eu me expressei muito mal na entrevista da Itatiaia.”
O deputado eleito também reconheceu a legitimidade da reação recebida. “Hoje eu recebi uma nota de repúdio da Associação Mineira de Vereadores e vocês estão certíssimos.”
Gleidson afirmou que foi orientado pelo pai a pedir perdão quando magoasse alguém com suas palavras e, então, dirigiu suas desculpas aos vereadores brasileiros. O reconhecimento é relevante. Mas não elimina a necessidade de explicar como uma proposta tão ampla foi apresentada publicamente sem considerar suas consequências constitucionais.
Desculpas vieram acompanhadas de comparação com corrupção
Ao justificar sua retratação, Gleidson fez questão de estabelecer uma comparação com crimes de corrupção. “Eu estou aqui humildemente pedindo perdão por uma fala. Não porque eu coloquei dinheiro na cueca, não por corrupção”, declarou.
O argumento desloca a discussão. A controvérsia não surgiu de uma acusação de que o ex-prefeito tivesse praticado corrupção. Surgiu de uma declaração política feita por ele próprio, durante uma entrevista, defendendo a eliminação dos legislativos municipais.
A ausência de uma acusação criminal não torna irrelevante a responsabilidade por declarações públicas. Quem pretende exercer um mandato no Congresso Nacional precisa responder pelo conteúdo de suas propostas, inclusive quando elas contrariam dispositivos constitucionais. Pedir desculpas é uma atitude legítima. Mas reconhecer o erro não deveria exigir a comparação com delitos que sequer estavam em discussão.
De onde surgiram os blogs na explicação de Gleidson
Outro trecho do vídeo merece atenção. Ao tentar justificar o que havia dito à Itatiaia, Gleidson introduziu uma referência a publicações digitais. “Porque tem alguns blogs torcendo aqui, como se eu fosse um cara antidemocrático que não gosta de fiscalização.”
A observação veio sem a identificação dos veículos ou das publicações que, segundo ele, teriam distorcido sua posição. A referência aos blogs chama a atenção porque a declaração original não surgiu de uma denúncia anônima, de uma postagem descontextualizada ou de uma informação publicada exclusivamente na internet.
Gleidson concedeu entrevista à Rádio Itatiaia, apresentou sua ideia e afirmou expressamente que pretendia acabar com as câmaras e com os cargos de vereadores. A repercussão nasceu de suas próprias palavras.
Ao mencionar blogs sem especificar quais informações considera incorretas, o deputado eleito introduziu um novo conflito, mas deixou sem resposta uma questão básica: qual trecho de sua declaração original foi reproduzido de maneira equivocada?
A cobertura crítica de uma entrevista não equivale, por si só, à distorção dos fatos. O direito de questionar a imprensa é legítimo. Assim como é legítimo exigir que um agente público explique suas próprias declarações, especialmente quando pretende transformá-las em propostas legislativas.
Erro de R$ 54 milhões também precisou ser corrigido
A entrevista também ficou marcada por um erro de matemática. Ao explicar os repasses financeiros às câmaras municipais, Gleidson utilizou o exemplo hipotético de uma prefeitura com arrecadação de R$ 100 milhões. Afirmou que 6% desse valor corresponderiam a R$ 60 milhões.
A conta correta é R$ 6 milhões, uma diferença de R$ 54 milhões. No pedido de desculpas, o ex-prefeito reconheceu o equívoco. “Não é, é R$ 6 milhões”, corrigiu.
Na sequência, procurou retomar o argumento sobre os custos do Legislativo, mencionando uma previsão orçamentária de R$ 1,8 bilhão para a Prefeitura de Divinópolis e um repasse próximo de R$ 40 milhões à Câmara no exercício seguinte.
Esses valores precisam ser examinados conforme a legislação orçamentária e os limites estabelecidos pela Constituição. O artigo 29-A define parâmetros específicos para as despesas dos legislativos municipais. O percentual máximo não significa que a Câmara receba automaticamente determinada parcela de toda a receita anual da Prefeitura.
O erro de cálculo, portanto, não foi o único problema da explicação. A discussão sobre os repasses também exige conhecimento da base constitucional utilizada para apurá-los.
Fonte relata bronca de Cleitinho e discussão com Eduardo Azevedo
Nos bastidores políticos, a repercussão teria alcançado diretamente a família Azevedo. Uma fonte ouvida pelo Divinews, que pediu para não ser identificada, relatou que Gleidson recebeu uma forte reprimenda dos irmãos Cleitinho Azevedo, governador eleito de Minas Gerais, e Eduardo Azevedo, deputado estadual.
Segundo essa fonte, Eduardo teria discutido duramente com Gleidson após a entrevista à Itatiaia, diante da dimensão que suas declarações alcançaram. O relato não foi confirmado de forma independente pelo Divinews e não permite afirmar que as supostas discussões tenham sido a causa direta da gravação do pedido de desculpas.
A informação, contudo, acrescenta um elemento importante à repercussão política do episódio. Cleitinho prepara a estrutura de seu futuro governo e dependerá de relações institucionais com prefeitos, deputados e vereadores dos 853 municípios mineiros.
Nesse contexto, declarações do irmão defendendo a extinção das câmaras podem produzir constrangimentos desnecessários, especialmente quando entidades representativas do Legislativo já manifestaram repúdio à proposta. Embora pertençam à mesma família, Gleidson, Eduardo e Cleitinho possuem mandatos, atribuições e responsabilidades políticas distintas. Cabe a cada um responder por suas posições.
Gleidson pode se transformar em problema político para o irmão governador
A possibilidade de Gleidson criar dificuldades para o futuro governo de Minas começou a ser comentada no meio político após a repercussão da entrevista. O deputado eleito mantém uma atuação pública marcada por declarações enfáticas, críticas diretas e conflitos com adversários.
Entretanto, a projeção nacional de um parlamentar federal amplia o alcance dessas manifestações. Uma proposta que atinge todas as câmaras municipais brasileiras não provoca apenas discussões nas redes sociais. Ela repercute entre vereadores, presidentes de legislativos, dirigentes partidários e lideranças que participam da articulação política dos governos.
A situação é particularmente sensível porque Cleitinho tem defendido o diálogo com diferentes setores e precisará construir uma base de sustentação na Assembleia Legislativa. O governador eleito já reconheceu publicamente, em entrevistas anteriores, a importância da participação de Gleidson em sua trajetória política.
Mas os compromissos familiares não substituem a necessidade de independência entre os mandatos. A proximidade dos irmãos não torna Cleitinho responsável automaticamente pelas declarações de Gleidson. Por outro lado, também não impede que as consequências políticas de tais manifestações alcancem o futuro governo.
Desculpas não podem se transformar em método de atuação política
Gleidson afirmou ter aprendido com o pai que deveria reconhecer quando magoasse alguém com suas palavras. O ensinamento merece respeito. O problema surge quando um agente político faz declarações de grande repercussão, provoca reações institucionais e somente depois procura esclarecer o alcance do que disse.
O deputado eleito tem o direito de mudar de posição, corrigir erros e pedir perdão. O que precisa ser esclarecido é se sua retratação representa uma revisão efetiva da proposta ou apenas uma tentativa de conter a repercussão negativa.
No vídeo, Gleidson admite que se expressou mal, mas mantém críticas à produtividade dos legislativos e volta a defender estruturas alternativas de fiscalização. Não anuncia de maneira inequívoca o abandono da ideia de extinguir as câmaras.
Ao contrário, transforma a gravação em um convite aos vereadores para participarem de um movimento nacional liderado por ele. A política institucional não funciona como uma conversa informal entre amigos ou familiares, na qual uma declaração precipitada pode ser encerrada simplesmente com um pedido de desculpas.
Um deputado federal terá responsabilidade sobre propostas que podem atingir milhões de brasileiros. Suas declarações exigem reflexão prévia, conhecimento das normas e capacidade de avaliar consequências.
O mesmo rigor deve existir quando a manifestação é apresentada em uma entrevista, em um vídeo ou na tribuna do Congresso.
Por que Gleidson demorou para pedir desculpas
A cronologia também merece explicações. A entrevista à Itatiaia ocorreu na quinta-feira (29). A repercussão avançou nos dias seguintes, com manifestações de entidades representativas e críticas às propostas apresentadas.
O pedido de desculpas veio depois dessa reação. A sequência permite questionar se Gleidson reconheceu espontaneamente os problemas de sua declaração ou se a dimensão da repercussão contribuiu para a decisão de gravar o vídeo.
Não há elementos suficientes para estabelecer sua motivação pessoal.
Mas permanece uma pergunta legítima: por que a necessidade de se desculpar não foi reconhecida logo após a entrevista, quando ele próprio havia defendido o fim das câmaras?
A explicação ganha importância porque o parlamentar não apenas cometeu um erro de cálculo ou utilizou uma expressão infeliz. Ele apresentou uma proposta de profunda consequência constitucional e questionou a utilidade de uma instituição democrática.
Pedido de perdão não substitui explicação sobre o futuro das câmaras
Mesmo depois do vídeo, algumas questões continuam sem resposta. Gleidson desistiu definitivamente da proposta de extinguir os legislativos municipais? Pretende apresentar alguma medida alternativa para reduzir seus custos? Como seriam exercidas a elaboração das leis, a discussão dos orçamentos e a fiscalização dos prefeitos?
E como pretende criar os chamados minitribunais de contas diante da vedação constitucional à criação de novos órgãos de contas municipais? A Constituição já estabelece que a fiscalização externa das prefeituras pertence ao Legislativo municipal, com auxílio dos órgãos de controle competentes.
As mudanças defendidas pelo deputado eleito exigiriam, portanto, muito mais do que uma declaração pública. O debate sobre despesas, privilégios e produtividade dos parlamentares deve continuar. Há espaço para discutir reformas, cobrar resultados e questionar gastos que não atendam ao interesse público.
Mas acabar com todas as câmaras municipais é uma proposta de outra dimensão.
O vídeo de Gleidson terminou com um convite para que vereadores fiscalizem contratos, obras e despesas públicas. É uma atribuição que eles já possuem. Depois de defender sua extinção, Gleidson agora pede que os próprios vereadores liderem com ele um movimento de fiscalização nacional.
Entre uma proposta e outra, houve críticas, repúdio institucional, correção matemática e pedido de perdão. O que ainda falta é uma explicação definitiva sobre qual projeto o deputado pretende realmente defender em Brasília.
Nota de transparência: Esta matéria contou com o auxílio de Inteligência Artificial na organização e estruturação do conteúdo, sob orientação e revisão editorial do editor do Divinews.






