Servidores de Divinópolis aprovam greve contra reforma da Previdência e cobram retirada do PLC 008/2026

Categoria aprovou paralisação contra o PLC 008/2026; Educação deve parar a partir de sexta-feira, e demais setores do quadro geral a partir de segunda, enquanto sindicatos cobram estudos atuariais, retirada do projeto e negociação real.

Publicado por: Cassia Misael

A crise em torno da reforma da Previdência municipal de Divinópolis subiu de patamar. Após dias de reuniões técnicas, cobranças por estudos atuariais, mobilizações nas redes sociais, pressão sobre vereadores e tentativa de negociação com o Executivo, os servidores municipais aprovaram greve contra o Projeto de Lei Complementar nº 008/2026, que altera regras do regime previdenciário dos servidores vinculados ao DIVIPREV.

 

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A decisão foi tomada em assembleia da categoria, realizada após a segunda rodada de discussões técnicas conduzida pelo SINTRAM e pelo SINTEMD. O movimento sindical avaliou que, apesar de pequenos avanços redacionais e de um recuo pontual da Prefeitura no chamado “pedágio”, os pontos considerados mais graves da reforma seguiram sem solução. Entre eles estão idade mínima, contribuição previdenciária, cálculo de benefícios, pensão por morte e regras de transição para quem está próximo da aposentadoria.

 

Na prática, os servidores entenderam que a reforma continua sem a transparência necessária. O principal questionamento permanece: reforma previdenciária não se aprova no escuro. Quem pretende mudar a vida de milhares de trabalhadores, aposentados e pensionistas precisa apresentar os estudos técnicos e atuariais que justificam a proposta, demonstrar os impactos financeiros, explicar as consequências individuais e permitir análise com tempo adequado.

 

Segundo o informativo técnico do SINTRAM e do SINTEMD, a segunda rodada de discussões, realizada na sede do SINTRAM, concluiu a leitura das 27 propostas de aperfeiçoamento apresentadas pelas entidades sindicais. No entanto, os consensos ficaram restritos a pontos de redação, sem repercussão financeira ou atuarial. Já os temas estruturantes, justamente aqueles que mais pesam na vida dos servidores, não avançaram por falta dos estudos técnicos que deveriam fundamentar o projeto.

 

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O PLC 008/2026 foi enviado à Câmara Municipal sem que os sindicatos tivessem acesso ao estudo atuarial completo. As entidades afirmam que solicitaram formalmente esses documentos desde 11 de junho. Mesmo assim, até a conclusão das rodadas técnicas, os cálculos ainda não haviam sido entregues para exame adequado da categoria e de seus assessores jurídicos.

 

Esse ponto tornou-se o coração da crise. Em uma reforma previdenciária, o estudo atuarial não é um detalhe burocrático. Ele mede a sustentabilidade do regime, projeta receitas e despesas futuras, calcula impactos sobre aposentadorias e pensões e permite avaliar se as regras propostas realmente resolvem o problema alegado pelo governo. Sem esses dados, qualquer votação se transforma em aposta política sobre a vida de pessoas reais.

 

Os sindicatos adotaram uma posição firme, mas não fecharam a porta ao diálogo. O SINTRAM e o SINTEMD afirmam que não são contra discutir a sustentabilidade do regime previdenciário. A crítica é contra a tentativa de decidir sem dados, sem tempo suficiente e sem que os servidores compreendam os efeitos concretos da reforma sobre suas vidas.

 

A Prefeitura, diante da pressão, acolheu o pedido de ampliação do prazo e remarcou a reunião final entre as partes para 2 de julho, às 11h, no gabinete da prefeita Janete Aparecida. O ofício do Executivo reconheceu que os estudos atuariais ainda seriam encaminhados às entidades e indicou previsão de entrega até 29 de junho. Também estabeleceu que, se os estudos não fossem entregues dentro do prazo, uma nova data para a reunião final deveria ser definida.

 

Embora a dilação do prazo tenha sido vista como avanço, ela não foi suficiente para conter a insatisfação da categoria. Na avaliação dos servidores, o problema não se resume à data da reunião. O centro da discussão está no conteúdo da proposta, na ausência de informações completas e na postura considerada irredutível da Administração em relação a vários pontos apresentados pelas entidades.

 

Durante a reunião ordinária da Câmara Municipal desta terça-feira (30), o tema também movimentou o Legislativo. O presidente da Câmara, Israel da Farmácia, interrompeu a reunião e convocou vereadores da base do governo para um encontro reservado no plenarinho. Após retornar ao plenário, tornou pública a informação de que o Executivo havia decidido ceder em um dos pontos mais criticados: o percentual do pedágio cairia de 100% para 50%.

 

O vereador Vitor Costa, que não integra a base governista, também confirmou a mesma informação ao Divinews. O recuo, embora relevante, foi recebido com cautela pelos sindicatos e servidores. Isso porque, até aquele momento, a mudança ainda precisava ser formalizada em texto oficial. Além disso, a redução do pedágio não respondia a todos os pontos levantados pela categoria.

 

Outro tema citado foi o chamado “pé-na-cova”, expressão usada por servidores para se referir às regras de transição aplicadas a quem está próximo da aposentadoria. A informação repassada na Câmara foi de que o Executivo estuda uma nova redação para evitar perdas que vinham sendo apontadas pelos sindicatos. Porém, assim como no caso do pedágio, a categoria aguarda a apresentação formal do texto.

 

Na assembleia, representantes sindicais deixaram claro que a proposta apresentada pela Câmara e pelo Executivo não atendeu ao conjunto das reivindicações. Segundo avaliação feita durante a reunião, a única concessão concreta teria sido a redução do pedágio para 50%, além da promessa de nova redação sobre o “pé-na-cova”. Nos demais pontos, conforme manifestação dos dirigentes, não houve consenso com a Administração.

 

A fala registrada durante a assembleia foi direta: as propostas encaminhadas pelos servidores foram, em sua maioria, rejeitadas. A categoria avaliou que apresentou alternativas razoáveis, buscou o diálogo, participou das reuniões e tentou construir um texto equilibrado. Contudo, diante da falta de avanços nos temas centrais, a greve acabou sendo aprovada.

 

Pela deliberação, a Educação entra em greve a partir de sexta-feira. Os demais setores do quadro geral iniciam paralisação a partir de segunda-feira. A diferenciação ocorre por causa dos prazos legais de comunicação: a Educação observará 48 horas, enquanto outros setores, incluindo áreas essenciais, devem seguir prazo de 72 horas. Durante a assembleia, dirigentes reforçaram a necessidade de cumprir a legalidade “à risca” para evitar questionamentos futuros.

 

A votação confirmou greve do quadro geral até a retirada do projeto. Em seguida, o quadro da Educação também aprovou a greve, sem votos contrários registrados na transcrição da assembleia. A decisão marcou uma virada no movimento, que deixa de ser apenas uma mobilização de pressão e passa a entrar em fase paredista.

 

Também ficou definido que os servidores farão novas mobilizações. Na quinta-feira, a categoria pretende se concentrar na Câmara Municipal, a partir das 14h, para acompanhar os desdobramentos políticos e pressionar vereadores. Na sexta-feira, trabalhadores da Educação devem se reunir em manifestação na porta da SEMED, a partir das 7h. Na segunda-feira, com a adesão dos demais setores, a mobilização deve se concentrar na porta da Prefeitura, com nova assembleia após o ato.

 

Durante a assembleia, servidores também discutiram a situação de contratados e possíveis ameaças de retaliação. A orientação repassada foi de que contratos vigentes não podem ser encerrados em razão da participação na greve. Também foi dito que eventual corte salarial será questionado judicialmente, caso ocorra fora dos parâmetros legais. A preocupação mostra que, além da pauta previdenciária, a categoria tenta se proteger contra pressões administrativas durante o movimento.

 

A greve aprovada pelos servidores tem caráter político, jurídico e social. Político, porque pressiona Prefeitura e Câmara a retirarem ou reformularem o PLC 008/2026. Jurídico, porque a categoria questiona a ausência de base técnica e cobra estudos atuariais antes de qualquer votação. Social, porque envolve milhares de famílias que dependem da remuneração futura, da aposentadoria e da segurança previdenciária para organizar suas vidas.

 

Os dirigentes sindicais também chamaram atenção para a responsabilidade dos vereadores. Segundo avaliação feita na assembleia, parte do Legislativo ainda não demonstrou compreensão suficiente sobre os impactos do projeto. A categoria defende que os parlamentares deixem discursos genéricos e expliquem, ponto por ponto, por que apoiam ou rejeitam as propostas apresentadas pelos servidores.

 

Esse ponto é especialmente sensível porque a Câmara será responsável por votar o PLC. Os vereadores podem aprovar, rejeitar, emendar ou pressionar pela retirada do projeto. Por isso, os servidores pretendem intensificar a presença no Legislativo e cobrar posicionamento individual dos parlamentares.

 

A reforma da Previdência municipal não é um tema simples. Ela envolve equilíbrio financeiro do regime, proteção de direitos, adequação às regras nacionais, impacto sobre aposentados e pensionistas e sustentabilidade futura do DIVIPREV. Porém, justamente por ser complexa, não pode ser votada com pressa nem sem documentação completa.

 

O discurso dos sindicatos é que a melhor reforma é aquela construída com responsabilidade, técnica e participação. Para isso, defendem a apresentação completa dos estudos atuariais, prazo adequado para análise, negociação real sobre os pontos estruturantes e retirada do projeto caso o texto atual não contemple as garantias mínimas exigidas pela categoria.

 

Do lado do Executivo, o recuo no pedágio mostra que a pressão já produziu efeito. Reduzir de 100% para 50% representa uma mudança importante para servidores próximos da aposentadoria. No entanto, a categoria considera que isso não basta, porque a reforma continua atingindo vários outros aspectos da vida previdenciária.

 

Além disso, o próprio recuo precisa ser calculado. Se uma regra muda, o impacto atuarial também muda. Portanto, a Prefeitura precisa mostrar como o novo percentual afeta as contas do regime. O mesmo raciocínio vale para eventual alteração no “pé-na-cova”. Sem estudo atualizado, a mudança pode parecer avanço político, mas continuar sem sustentação técnica pública.

 

A greve, portanto, nasce de uma combinação de fatores: ausência de estudos apresentados em tempo hábil, rejeição de propostas sindicais, desconfiança em relação ao texto, pressão sobre servidores próximos da aposentadoria, temor de perdas para aposentados e pensionistas e cobrança por maior responsabilidade da Câmara.

 

A partir de agora, o município entra em um período decisivo. Se o Executivo retirar o projeto ou apresentar uma nova proposta com base técnica, a greve poderá ser reavaliada em assembleia. Caso contrário, os servidores indicaram que manterão a paralisação por tempo indeterminado, conforme as deliberações de cada setor.

 

Na Educação, a paralisação tende a produzir impacto imediato nas escolas municipais. No quadro geral, a adesão prevista para segunda-feira poderá afetar outros serviços públicos. Setores essenciais deverão observar regras específicas, mas a mobilização geral tende a ampliar a pressão sobre o governo.

 

A população também entra no centro do debate. Toda greve no serviço público provoca impacto na rotina da cidade. Por isso, os sindicatos procuram justificar que a paralisação não ocorre por capricho, mas por defesa do futuro previdenciário da categoria. A mensagem repetida durante a assembleia foi que o futuro dos servidores está em jogo.

 

O desafio, agora, será manter o diálogo aberto sem ignorar a decisão soberana da assembleia. A reunião marcada para 2 de julho, no gabinete da prefeita, passa a ter peso ainda maior. Ela poderá indicar se haverá espaço para reconstrução do texto ou se o conflito seguirá para um embate prolongado entre servidores, Executivo e Legislativo.

 

O Divinews seguirá acompanhando os desdobramentos da greve, a posição da Prefeitura, a movimentação da Câmara e as próximas decisões da categoria. O fato concreto, até aqui, é que o PLC 008/2026 deixou de ser apenas um projeto de reforma previdenciária e se transformou em uma das maiores crises recentes entre o governo municipal e os servidores de Divinópolis.

 

A pergunta que permanece é simples e decisiva: a Prefeitura vai insistir em votar a reforma sob forte resistência ou vai retirar o projeto para reconstruir a proposta com estudos, transparência e participação?

 

Até que essa resposta venha, a categoria já deu seu recado: sem dados, sem retirada do projeto e sem garantia de direitos, haverá greve.

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