A rejeição do pedido de cassação do mandato do vereador Flávio Marra, durante a sessão desta terça-feira (23) na Câmara Municipal de Divinópolis, abriu um novo capítulo na crise política que tomou conta da cidade desde o último fim de semana. Logo após a decisão do plenário, Flávio se pronunciou, agradeceu aos 11 vereadores que votaram contra o avanço da representação e afirmou que o resultado mostrou que a denúncia apresentada contra ele teve motivação política, e não fundamento jurídico ou administrativo.
Em uma fala marcada por desabafo, recados a adversários e forte carga emocional, o vereador afirmou que sai do episódio com o “sentimento de justiça”, negou que a Câmara tivesse competência para julgá-lo pelos fatos ocorridos fora do ambiente legislativo e sustentou que o caso se transformou em instrumento de perseguição política. Além disso, ele relatou o impacto da repercussão sobre a própria família, citou o filho de seis anos e disse que viveu dias de forte pressão desde a denúncia.
A manifestação de Flávio ocorreu depois de a Câmara rejeitar o pedido de cassação protocolado por Arthur Saturnino, que pedia a abertura de uma comissão processante contra o vereador após a repercussão de uma denúncia de suposta agressão a um homem em uma boate de Divinópolis. Com a maioria dos parlamentares votando contra o prosseguimento da representação, o caso travou ainda na fase inicial, sem abertura de processo político-administrativo.
Vereador diz que denúncia virou arma política e fala em perseguição
Além de comemorar o resultado da votação, Flávio endureceu o tom ao falar sobre a origem da denúncia e afirmou que o pedido de cassação nasceu de interesses políticos. Segundo ele, o caso serviu para tentar desgastar sua imagem pública em um momento de crescimento político e de projeção de seu nome na cidade.
Na entrevista, o vereador afirmou que a politização do episódio ficou evidente ao longo dos últimos dias e sustentou que a representação não partiu da vítima ou de alguém diretamente envolvido na ocorrência, mas sim de um nome que, segundo ele, já atua politicamente nos bastidores de Divinópolis.
“Eu vejo que as pessoas, não só em Divinópolis, mas no Brasil todo, estão cada vez mais politizadas e vendo os acontecimentos. Tudo isso não passou por uma questão política. A gente sabe quem estava por trás disso”, disse.
A fala deixa claro que Flávio pretende deslocar o centro da narrativa. Em vez de manter o foco apenas na denúncia que motivou o pedido de cassação, ele tenta transformar o episódio em exemplo de perseguição e uso político de uma crise pessoal.
Flávio agradece vereadores e diz que Câmara entendeu que caso não cabia ao Legislativo
Ao comentar o resultado da votação, Flávio Marra fez questão de agradecer aos parlamentares que votaram pela rejeição do pedido. Na avaliação dele, a decisão da Câmara reconheceu que o caso não deveria ser julgado politicamente dentro do Legislativo, sobretudo porque, segundo afirmou, os fatos ainda não passaram por apuração judicial completa.
Durante a fala, o vereador disse que saiu da sessão com o sentimento de que a “justiça foi feita” e sustentou que os próprios colegas deixaram claro que a Câmara não poderia assumir o papel de juiz em um episódio ocorrido fora do exercício do mandato.
Segundo ele, a interpretação da maioria foi a de que caberia ao Judiciário analisar o que de fato aconteceu, e não à Câmara transformar a denúncia em um julgamento político antes mesmo da apuração completa.
“Sentimento de gratidão e de justiça, porque a justiça foi feita. Todos falaram comigo: ‘olha, eu não sou juiz, a gente não está aqui para julgar o que você fez lá ou deixou de fazer’. Não cabe à Câmara, à Casa Legislativa, tomar essa decisão”, afirmou Flávio Marra.
A declaração reforça a principal linha de defesa adotada pelo vereador desde o início da crise: a de que o episódio ocorrido no fim de semana pertence ao campo pessoal e judicial, e não ao campo político-administrativo da Câmara.
Flávio relata impacto na família e diz que viveu dias difíceis desde domingo
Ao longo da manifestação, Flávio também adotou um tom pessoal e afirmou que os últimos dias foram marcados por desgaste emocional dentro de casa. Segundo ele, a repercussão do caso ultrapassou o campo político e atingiu diretamente a família, especialmente o filho de seis anos.
Na fala, o vereador afirmou que o menino passou a questioná-lo sobre notícias e acusações que circularam nos últimos dias. Para Flávio, esse impacto familiar mostra o tamanho da exposição pública provocada pelo episódio e ajuda a explicar o tom emocional adotado após a votação na Câmara.
“De domingo para cá não tem sido fácil. Meu filho, menino de seis anos, questionando se eu realmente matei o ciclista, se fui eu e por que eu fugi. Todo mundo viu o que aconteceu na porta da minha casa, com vereador, imprensa, Polícia Militar e Polícia Civil”, relatou.
A declaração mistura a crise atual com outro episódio recente que também colocou o nome do vereador no centro do noticiário e mostra como Flávio tenta evidenciar que a pressão sobre sua imagem extrapolou o campo institucional e passou a atingir sua vida privada.
Vereador diz que caso na boate pertence ao Judiciário e não à Câmara
Ao ser questionado especificamente sobre o episódio ocorrido na boate, Flávio Marra afirmou que houve um desentendimento em um momento de lazer, mas voltou a sustentar que a Câmara não deveria tratar o caso como matéria para cassação. Segundo ele, a análise dos fatos deve ocorrer no âmbito judicial, depois da devida apuração.
Na fala, o vereador insistiu que os acontecimentos ainda não foram esclarecidos de forma completa e, por isso, qualquer tentativa de punição política dentro da Câmara seria precipitada.
“Foi um momento em que eu estava no meu lazer, com a minha namorada, e acabou que houve ali um desentendimento. Cabe ao Poder Judiciário resolver. Não cabe à Câmara, nem a vereador, decidir o que houve lá, porque nem os fatos foram apurados ainda”, afirmou.
A estratégia do parlamentar é clara: separar a função pública do episódio ocorrido fora do plenário e reforçar que eventual responsabilização, se houver, deve ocorrer em outra esfera.
Flávio ataca Arthur Saturnino e diz que autor do pedido quer “desconstruí-lo”
Um dos trechos mais duros da fala de Flávio foi direcionado a Arthur Saturnino, autor do pedido de cassação. O vereador acusou o denunciante de atuar com o objetivo de desconstruir sua imagem política e afirmou que a denúncia integra uma tentativa deliberada de enfraquecer sua atuação pública.
Segundo Flávio, Arthur já acumula histórico de vídeos tendenciosos, ações políticas nos bastidores e conflitos com outros parlamentares. O vereador citou, inclusive, a existência de processos por calúnia e difamação envolvendo o nome do denunciante.
“Arthur Saturnino já virou piada pronta. Ele está sempre fazendo vídeos tendenciosos. É bom lembrar que ele está sendo alvo de quatro processos de vereadores, inclusive um é meu, por calúnia e difamação”, afirmou.
Na sequência, Flávio voltou a defender que ninguém constrói trajetória política destruindo adversários e afirmou que esse tipo de movimento revela mais interesse eleitoral do que preocupação genuína com moralidade pública.
Vereador sugere disputa por espaço político e fala em adversários de olho em seu lugar
Em outro momento da entrevista, Flávio ampliou o tom político da resposta e sugeriu que a denúncia teria relação com a disputa por espaço no cenário eleitoral dos próximos anos. Sem citar nomes diretamente em todos os trechos, ele indicou que existe gente tentando “tomar o seu lugar” por meio da desconstrução pública.
Na leitura do vereador, a tentativa de levá-lo à cassação não se explica apenas pelo episódio da boate, mas por uma movimentação maior de adversários que o enxergam como obstáculo político e tentam enfraquecê-lo antes de disputas futuras.
“Tem gente, inclusive forte, gente que é pré-candidata a deputado estadual e veio como adversário forte, que quer tomar o meu lugar. Mas eu volto a dizer: é com construção e não destruição”, declarou.
A fala reforça que Flávio pretende tratar a crise não apenas como um episódio de defesa pessoal, mas como parte de um embate político mais amplo dentro de Divinópolis.
Flávio diz que pode errar na vida pessoal, mas separa isso do mandato
Ao defender a rejeição do pedido de cassação, Flávio também afirmou que eventuais erros da vida pessoal não podem se confundir automaticamente com a atuação parlamentar. Segundo ele, a Câmara deveria observar se houve falta político-administrativa ligada ao exercício do mandato e não um episódio ocorrido em sua vida privada.
Na avaliação do vereador, a votação deixou claro que a maioria dos parlamentares compreendeu essa diferença e, por isso, decidiu não transformar o caso em um processo de cassação.
“Ser humano todo mundo erra, todo mundo pode cometer algum erro pessoal, mas nada político, nada administrativo, nada como legislador e fiscalizador”, disse.
A declaração deve gerar repercussão justamente por admitir a possibilidade de erro pessoal e, ao mesmo tempo, tentar blindar o mandato de qualquer consequência política imediata.
Resultado fortalece discurso de Flávio, mas crise está longe de acabar
Embora a rejeição do pedido de cassação represente uma vitória política importante para Flávio Marra dentro da Câmara, o episódio está longe de terminar. Isso porque a fala do vereador, em vez de esfriar o ambiente, amplia o conflito com Arthur Saturnino, eleva o tom contra adversários e mantém o caso no centro do debate político da cidade.
Além disso, a própria decisão da Câmara continuará sob questionamento de quem defendia a abertura de investigação para apurar os fatos. De um lado, Flávio sustenta que a Casa agiu corretamente ao não transformar um episódio ainda não esclarecido em julgamento político. De outro, críticos da decisão afirmam que a Câmara bloqueou justamente a possibilidade de apuração institucional.
Na prática, o resultado da sessão desta terça-feira (23) produz dois efeitos simultâneos. O primeiro é a preservação imediata do mandato de Flávio Marra. O segundo é a ampliação da crise política, agora alimentada por duas narrativas em choque: a de perseguição política, defendida pelo vereador, e a de blindagem institucional, sustentada por quem cobrava investigação.
Flávio sai fortalecido entre aliados, mas caso ainda deve render novos desdobramentos
No campo político, a fala após a sessão também cumpre um papel estratégico. Ao agradecer os 11 vereadores que votaram contra o pedido de cassação, defender que a “justiça foi feita” e acusar adversários de exploração política, Flávio tenta consolidar uma imagem de resistência, transformar desgaste em mobilização e reorganizar sua base de apoio depois de dias de forte pressão.
Ao mesmo tempo, o caso continua sensível. Isso porque a crise já ultrapassou o plenário, atingiu a opinião pública e passou a envolver disputa de narrativas, moralidade política, vida privada de agentes públicos e os limites da atuação da Câmara em episódios de alta repercussão.
Por isso, mesmo com a cassação barrada, a crise não termina com a votação. Pelo contrário. A fala de Flávio Marra mostra que a disputa entrou em uma nova fase — agora menos concentrada apenas no pedido rejeitado e cada vez mais marcada pela guerra política que o caso escancarou em Divinópolis.


![“Se não fosse pelo seu irmão [Cleitinho] nem presidente de bairro você seria”; dispara o vereador Flávio Marra contra o prefeito de Divinópolis, Gleidson Flavio Marra](https://divinews.com/wp-content/uploads/2023/04/Flavio-Marra-1.jpg)



