O vereador Flávio Marra atravessou um fim de semana marcado por dois episódios distintos, ambos com forte repercussão pública em Divinópolis. De um lado, uma ocorrência de lesão corporal registrada pela Polícia Militar em uma boate localizada no terraço do Shopping Pátio Divinópolis. De outro, uma averiguação envolvendo a caminhonete do parlamentar após denúncia que tentou associar o veículo ao atropelamento fatal de um ciclista na BR-494.
As duas situações, embora tenham ocorrido no mesmo fim de semana e envolvam o nome do vereador no debate público, precisam ser separadas com clareza. A segunda nota da Polícia Militar informou que não foram encontrados elementos que permitissem vincular o veículo indicado na denúncia ao atropelamento com vítima fatal. No entanto, esse esclarecimento sobre a caminhonete não encerra o ponto mais delicado da crise política: a ocorrência de agressão em uma boate, fato que permanece como o centro da controvérsia.
A primeira nota encaminhada pela Polícia Militar à imprensa confirmou o registro de uma ocorrência de lesão corporal na madrugada de sábado, 20 de junho, em um estabelecimento localizado no Shopping Pátio Divinópolis. Conforme apurado pelos militares, após um desentendimento no interior do local, um homem de 45 anos foi atingido por golpes desferidos com uma garrafa de vidro por outro homem, de 39 anos.
A vítima sofreu ferimentos na mão e no rosto, foi socorrida e encaminhada para atendimento médico, permanecendo em observação. Os fatos foram registrados e encaminhados à Polícia Civil para as providências de polícia judiciária. Ainda conforme a PM, até o encerramento da ocorrência, o suspeito havia sido identificado, porém não tinha sido localizado.
A nota oficial da PM não citou o nome do vereador. Porém, o registro inicial da ocorrência, já conhecido pela reportagem, apontava Nilton Flávio de Oliveira Marra como o envolvido no desentendimento relatado pela vítima. Segundo a versão apresentada à equipe policial, o conflito teria começado após uma discussão sobre consumo de bebida alcoólica no interior do estabelecimento. Ainda de acordo com o relato da vítima, em determinado momento, o autor teria se apoderado de uma garrafa e a utilizado para agredi-la.
A vítima foi identificada como Rogério. Conforme o registro policial, ele sofreu corte no dedo médio da mão esquerda e corte na face, do lado esquerdo. As lesões foram constatadas visualmente pela equipe policial. Posteriormente, a vítima foi encaminhada ao Hospital Santa Mônica, onde recebeu atendimento médico, foi medicada e permaneceu em observação.
Esse é o fato central
A eventual não participação do veículo do vereador no atropelamento fatal do ciclista não apaga a ocorrência da boate. Uma coisa não absolve automaticamente a outra. Uma explicação sobre a caminhonete não pode funcionar como nuvem de fumaça sobre a agressão narrada no boletim e confirmada, em seus elementos gerais, pela nota oficial da Polícia Militar.
No domingo, 21 de junho, a Polícia Militar divulgou uma segunda nota à imprensa, desta vez sobre uma ocorrência de averiguação relacionada a informações que associavam um veículo a um atropelamento com vítima fatal ocorrido na BR-494, em Divinópolis.
Após diligências, os militares localizaram o veículo indicado na denúncia e realizaram inspeção visual. Foram constatados pequenos arranhões, uma avaria em uma seta traseira e manchas avermelhadas. A Perícia Técnica da Polícia Civil foi acionada e realizou os trabalhos periciais no automóvel.
Após a averiguação e os levantamentos realizados no local, a PM informou que não foram identificados elementos que permitissem vincular o veículo ao atropelamento objeto da denúncia. A ocorrência foi registrada e encaminhada às autoridades para conhecimento e demais providências.
Em vídeo gravado no fim da tarde de domingo, o próprio vereador Flávio Marra comentou o episódio relacionado à caminhonete. Ele afirmou que não estava em casa quando policiais militares e civis foram ao local, disse que o chefe de gabinete apresentou o veículo às autoridades e mostrou a caminhonete para sustentar que ela não apresentava estragos compatíveis com o atropelamento. No mesmo vídeo, Marra negou envolvimento no acidente e criticou o que chamou de “podridão da política”, citando a presença do vereador Vitor Costa, de pessoas ligadas a gabinete e da imprensa em frente à sua residência.
A manifestação do parlamentar, no entanto, tratou do segundo episódio: a suspeita envolvendo o veículo e o atropelamento do ciclista. Sobre esse ponto, a nota da PM também informou que não havia elementos para vincular o automóvel à morte ocorrida na BR-494.
Mas a crise não começou e nem termina aí
O ponto que exige explicação pública direta é a agressão em uma boate. A pergunta que permanece é simples: o que levou um vereador, representante eleito da população, a ser citado em uma ocorrência de lesão corporal em um estabelecimento noturno?
Representantes do povo precisam compreender que a liturgia do cargo não existe apenas no plenário da Câmara Municipal de Divinópolis. Ela acompanha o mandato na rua, nos eventos, nos bares, nas redes sociais, nos espaços públicos e privados, nas relações pessoais e em qualquer ambiente onde a conduta de um agente político se projeta sobre a imagem da instituição que ele representa.
Um parlamentar não deixa de ser parlamentar quando sai da Câmara. A vida privada existe, os direitos individuais também, e ninguém deve ser condenado antes da apuração. Mas quando uma ocorrência policial aponta agressão com garrafa, vítima ferida, atendimento médico e encaminhamento à Polícia Civil, o episódio deixa de ser apenas uma briga de madrugada e passa a ter impacto público.
A população tem direito de cobrar postura, equilíbrio e responsabilidade de quem ocupa mandato eletivo. O cargo exige mais do que discurso inflamado, presença em sessão ou posicionamento político. Exige autocontrole. Exige compostura. Exige discernimento. Exige respeito ao peso da representação popular.
Por isso, a tentativa de concentrar o debate apenas na caminhonete cria uma inversão perigosa. A Polícia Militar já informou que não encontrou elementos para relacionar o veículo ao atropelamento fatal. Esse ponto, evidentemente, precisa ser registrado com o mesmo destaque e a mesma responsabilidade. Mas ele não pode servir para retirar do centro da discussão a ocorrência anterior, registrada na boate, na qual houve lesão corporal e encaminhamento da vítima ao hospital.
Em outras palavras: o segundo episódio não isenta o primeiro
A morte do ciclista na BR-494 é uma tragédia que exige apuração séria, técnica e respeito à família da vítima. Qualquer denúncia precisa ser investigada com responsabilidade, sem precipitação, sem exploração política e sem condenação pública sem prova. Nesse caso específico, a PM informou que não houve elementos para vincular o veículo do vereador ao atropelamento.
Já a agressão na boate segue como fato registrado, com vítima identificada, ferimentos constatados e investigação encaminhada à Polícia Civil. É sobre esse episódio que o vereador ainda precisa se explicar de forma objetiva, sem deslocar o debate para outro caso.
A Polícia Civil deverá analisar a ocorrência, colher depoimentos, verificar eventuais imagens de câmeras de segurança, ouvir envolvidos e testemunhas, além de definir as providências legais cabíveis. Até a conclusão da apuração, prevalece o princípio da presunção de inocência, mas também permanece o direito da sociedade de ser informada sobre fatos que envolvem agentes públicos.
O fim de semana expôs, portanto, duas frentes distintas. Na primeira, a Polícia Militar confirmou uma ocorrência de lesão corporal em estabelecimento do Shopping Pátio Divinópolis, com vítima ferida por garrafa de vidro e suspeito identificado, mas não localizado até o encerramento do registro. Na segunda, a PM informou que a caminhonete averiguada não apresentou elementos que permitissem vinculá-la ao atropelamento fatal do ciclista.
A diferença entre as duas notas precisa ser compreendida. Uma afasta, naquele momento, a vinculação do veículo com um crime gravíssimo. A outra confirma a existência de uma agressão em ambiente noturno, com ferimentos e encaminhamento hospitalar.
É justamente essa distinção que não pode ser embaralhada
Para Flávio Marra, o episódio exige mais que defesa pública sobre a caminhonete. Exige esclarecimento sobre a conduta atribuída a ele na boate. Exige resposta sobre a agressão. Exige postura compatível com o mandato. Exige respeito à população que acompanha, cobra e julga politicamente seus representantes.
A política não pode ser usada apenas como escudo quando convém. Quem disputa voto, ocupa mandato e fala em nome da população precisa aceitar que sua conduta também será observada fora dos microfones oficiais.
O vereador tem direito à defesa, ao contraditório e à versão completa dos fatos. Mas a sociedade também tem direito de não assistir a um episódio ser usado para encobrir outro. A caminhonete não ter sido vinculada ao atropelamento não transforma a ocorrência da boate em detalhe menor.
No fim, o caso deixa uma lição dura para a vida pública local: mandato exige liturgia. E liturgia não é pose. É comportamento.






