O caso de um paciente com câncer policitemia vera, internado e com indicação médica para sangria terapêutica, escancarou uma contradição difícil de engolir na rede pública de hematologia em Minas. De um lado, a Fundação Hemominas aparece com frequência convocando a população para doar sangue e reforçando seu papel estratégico na assistência. Do outro, quando um paciente precisa do próprio serviço em tempo sensível, o que aparece é uma engrenagem curta, burocrática e incapaz de responder com a urgência que o quadro exige.
Segundo o relato do próprio paciente e seus parentes ao Divinews, a médica particular do paciente indicou o procedimento ainda na tarde de quarta-feira (28). Como ele estava internado no Hospital Santa Mônica, da Hapvida NotreDame Intermédica, a solicitação precisaria ser formalizada pela equipe da própria unidade. Porém em tal dia, ou seja, naquela quarta-feira (28) não havia médico no hospital para fazer o pedido ao Hemominas. O que foi feito no dia seguinte, na manhã de quinta-feira (30).
Mas o procedimento não saiu. A justificativa recebida pelo hemominas foi a de que, o expediente em tal dia, ainda véspera de feriado, se encerraria às 12h. Na sexta-feira (1º), feriado, não houve atendimento. E, no sábado (2), o paciente também não foi atendido, e tão pouco no domingo, muito meno. Empurarão a gravidade do procedimento para segunda-feira.
A crítica ganha força porque o próprio site oficial informa que o Hemonúcleo de Divinópolis funciona de segunda a sexta, de 7h às 12h, e que o serviço de sangria terapêutica é organizado por agendamento, com pedido médico e avaliação da unidade. Em nota sobre o Dia do Trabalhador, a Fundação Hemominas também informou alteração no funcionamento das unidades por causa do feriado.
O problema é que o relógio administrativo não muda a fisiologia do paciente. Policitemia vera é uma neoplasia mieloproliferativa, um câncer do sangue em que a medula produz células em excesso, especialmente hemácias. Isso engrossa o sangue e eleva o risco de trombose, AVC, infarto e outras complicações vasculares. A flebotomia, ou sangria terapêutica, é um dos pilares do tratamento justamente para reduzir a viscosidade sanguínea e ajudar a manter o hematócrito abaixo de 45%, diminuindo o risco trombótico, explicou um médico ao Divinews, sob o manto do anonimato por questões éticas.
Em outras palavras, o paciente não precisava de boa vontade institucional. Precisava de resposta em tempo clínico.
É verdade que, sem o prontuário, os exames e a avaliação médica formal da urgência, não dá para cravar em abstrato que houve negligência já consumada. Mas o quadro descrito é, no mínimo, alarmante. Um paciente oncológico, com doença hematológica sabidamente associada a risco vascular, ficou sujeito a um vácuo assistencial atravessando véspera de feriado, feriado e fim de semana.
Em saúde, isso não pode ser tratado como mera questão de agenda. A Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde prevê atendimento adequado, no tempo certo, e com continuidade do tratamento.
Há ainda um aspecto institucional que torna tudo mais grave. A Fundação Hemominas é uma fundação pública estadual, vinculada à Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais. Ou seja, não se trata de um serviço periférico, improvisado ou sem responsabilidade de rede. Trata-se de uma estrutura oficial de referência em hemoterapia e hematologia no estado. Justamente por isso, espera-se dela mais do que horário enxuto e resposta burocrática quando surge demanda sensível.
O caso também expõe uma pergunta incômoda que o Hemominas terá de enfrentar: como ficam os pacientes que precisam de sangria terapêutica em caráter mais urgente quando o serviço fecha ao meio-dia, atravessa feriados e não apresenta alternativa clara de retaguarda? Essa pergunta não é retórica. Ela toca no coração da política pública. Porque serviço de saúde que funciona bem para campanha, mas falha para quem precisa do procedimento, entra em déficit de credibilidade.
É muito pouco pedir sangue da população e oferecer expediente curto ao paciente que precisa dele de volta em forma de cuidado.
A crítica, portanto, não é contra o Hemominas existir. É contra o modelo de resposta que, neste caso, parece ter tratado uma necessidade potencialmente grave como se fosse um detalhe administrativo. Uma fundação dessa natureza não pode parecer ágil apenas para captar doadores e lenta quando a urgência está do outro lado do balcão.
Há também responsabilidade assistencial do hospital onde o paciente estava internado. Uma vez internado, ele está sob responsabilidade da equipe médica da instituição, que deve documentar a urgência, acionar formalmente a rede e buscar continuidade do cuidado. Mas isso não elimina a cobrança ao Hemominas. Se o serviço é referência para sangria terapêutica, precisa ser capaz de responder a situações que não cabem confortavelmente dentro do expediente burocrático.
No fim, o caso revela algo maior que um atraso pontual. Revela um sistema que, diante de uma necessidade terapêutica séria, parece incapaz de sair do piloto automático do meio expediente. E isso, para um paciente com câncer do sangue, não é detalhe. É risco.
Risco real
“Sobre os riscos do atraso, depende do estado real do paciente”, afirmou o médico ouvido. E continuou; “Se ele estiver com hematócrito muito elevado, sintomas de hiperviscosidade, dor no peito, falta de ar, alteração neurológica, piora visual, dor/edema em membro ou outro sinal de trombose, o retardamento da flebotomia pode ser potencialmente perigoso”, disse ele, ainda no último sábado. E completou: “As principais complicações associadas ao sangue espesso na policitemia vera são coágulos arteriais e venosos, que podem levar a AVC, infarto, embolia pulmonar e outras emergências vasculares”.
O próprio editor do Divinews esteve com o paciente que ainda está internado no hospital Santa Mônica, e ouviu diretamente dele e de sua familia todo o relato, assim como pode presenciar o seu pedido de atendimento urgente de um médico, pois estava com dor de cabeça, dor no peito e nas pernas.
Grifo Divinews: Diante da gravidade do caso, a burocracia deveria ter sido atropelada pela urgência clínica. O atendimento precisava ter sido realizado assim que o pedido médico chegou, ainda na quinta-feira, véspera do feriado, mesmo que isso exigisse estender o expediente em vez de encerrar, friamente, ao meio-dia em ponto para o esticadão do fim de semana. A impressão que fica é devastadora: o Hemominas não tratou como prioridade a vida do paciente, mas o conforto da própria rotina administrativa. Já no caso do Hospital Santa Mônica, também soa no mínimo estranho que não tenha sido mobilizado um profissional apto a pressionar, articular ou escalar a situação, independentemente de haver ou não hematologista de plantão. Ainda assim, paira a sensação amarga de que pouco adiantaria, porque, do outro lado, a engrenagem burocrática do Hemominas já havia baixado as portas para a urgência.






