O senador Cleitinho Azevedo voltou a subir o tom contra os privilégios do Judiciário e encontrou um novo alvo que caiu como gasolina em debate já inflamado. Desta vez, a reação veio após a desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará, afirmar, em sessão realizada em 9 de abril, que o corte de penduricalhos pode empurrar magistrados para uma espécie de “regime de escravidão” e até levar integrantes da carreira a dificuldades para pagar contas.
Cleitinho, que vem transformando o combate aos penduricalhos em uma de suas vitrines políticas, usou a declaração para apontar o que considera um retrato da desconexão entre parte da cúpula do serviço público e a vida real do trabalhador comum. Na reação, o senador provocou a magistrada a experimentar a rotina de quem enfrenta escala 6×1 e depende do SUS, reforçando a linha de discurso que já vinha adotando contra super salários e benefícios fora da curva.
A fala da desembargadora gerou ainda mais revolta quando vieram à tona os dados sobre sua remuneração. Reportagem publicada nesta semana informou que Eva do Amaral recebeu remuneração bruta de R$ 117,8 mil em março, justamente no momento em que criticava limites a verbas extras e vantagens agregadas ao contracheque.
O episódio deu novo fôlego a uma crítica que Cleitinho repete há meses, de que o Brasil pune com rigor quem está na base e trata com complacência quem ocupa os andares de cima do poder. No centro desse incômodo está a aposentadoria compulsória de magistrados, ainda vista por grande parte da população como um prêmio disfarçado de punição. O próprio CNJ explica que ela é a mais grave das penas disciplinares aplicáveis a juízes vitalícios, mas o magistrado afastado continua recebendo proventos proporcionais ao tempo de serviço.
É exatamente aí que a crítica política encontra terreno fértil. Quando um juiz é retirado da função, mas preserva renda pública, a sensação social não é de justiça exemplar, e sim de blindagem institucional. A legislação permite esse modelo disciplinar, mas o desgaste público cresce porque o cidadão comum enxerga distância entre a punição formal e a consequência real. Essa leitura é uma inferência jornalística baseada nas regras do sistema disciplinar e no teor das reações políticas recentes.
O momento também coincidiu com um ambiente de maior pressão sobre o sistema de Justiça. Nesta semana, ganhou destaque a proposta de reforma do Judiciário defendida pelo ministro Flávio Dino, com medidas para endurecer o tratamento de irregularidades envolvendo juízes, procuradores, advogados e outros integrantes do sistema. O debate, portanto, já não gira apenas em torno de salários altos. Passa também pela cobrança por freios mais duros, transparência e punições que não soem simbólicas.
Cleitinho percebeu esse humor social e decidiu explorá-lo sem anestesia. Ao mirar a magistrada, o senador não atacou só uma fala infeliz. Mirou um símbolo. Para muita gente, a comparação entre corte de penduricalhos e escravidão não foi apenas exagerada. Soou ofensiva num país em que milhões trabalham demais, ganham de menos e ainda bancam, com impostos, uma estrutura que insiste em chamar privilégio de direito adquirido.






