A última quarta-feira na Assembleia Legislativa de Minas Gerais rendeu mais do que cobertura jornalistica para o Divinews, e alguns bastidores de plenário. Após a reunião ordinária, o tabuleiro da sucessão estadual foi resumido de forma cortante no gabinete da deputada Bella Gonçalves. Para a parlamentar, a direita mineira não apresenta projeto, não se move por ideologia e hoje vive uma guerra de interesses em torno do espólio político de Romeu Zema. No retrato traçado, o campo adversário se divide, tropeça e se expõe, enquanto do outro lado sobra espaço até para “comprar um balde de pipoca” para assistir ao desmanche político deles.
A imagem que emerge da leitura da deputada, é a de uma direita em processo de corrosão interna. Não por divergência de ideias, mas por disputa de ambição. O raciocínio é simples: se não existe projeto sólido para Minas nem para o Brasil, o que sobra é briga por herança, controle de máquina, narrativa eleitoral e sobrevivência política. É nesse ambiente que Bella enquadra a sucessão mineira, como uma arena de vaidades em que cada nome corre por si e o interesse público fica pelo caminho.
No centro desse espólio aparece Zema. O governo que vendeu imagem de outsider e prometeu redução de privilégios, na avaliação lançada no debate, terminou associado ao movimento inverso. A conta apresentada é pesada: aumento do salário do governador, isenções fiscais bilionárias sem transparência, contratação de carros de luxo por uma década, explosão da dívida pública e servidores empurrados para baixo. A moldura é a de um Estado que, em vez de servir ao povo mineiro, teria sido empurrado para fortalecer bancos e setores do capital privado, com destaque para a mineração.
É justamente desse desgaste que nasceria a guerra atual. O “zemanismo”, longe de sair como força coesa, deixa fragmentos. E cada personagem tenta recolher o que pode. Bella enquadrou esse cenário como a disputa por um legado problemático, em que ninguém consegue unificar o campo porque cada grupo quer puxar para si o pouco capital político ainda disponível. Nesse ponto, a fala não foi apenas crítica. Foi também irônica e cruel, porque transforma a divisão adversária em espetáculo.
Cleitinho entrou nesse diagnóstico como uma figura que tenta manter a fantasia de outsider. O problema, no recorte feito por Bella, é que essa fantasia já não para em pé com a mesma facilidade. O senador de Divinópolis pode até se vender como alguém de fora, mas já conhece há muito tempo o jogo da política institucional. E não só conhece. Joga duro. A leitura implícita é que o personagem que posa de antissistema se move há anos dentro do próprio sistema, com experiência suficiente para saber exatamente onde pisa e como disputa espaço.
Mateus Simões recebeu tratamento ainda mais corrosivo. O vice-governador foi empurrado para o canto da irrelevância política. A crítica não ficou só na falta de empolgação eleitoral. Ela veio acompanhada da ideia de que sua estratégia aposta em agressividade bolsonarista, mas sem força real para decolar. O retrato é o de um nome que tenta aparecer pela via do confronto, sem conseguir converter isso em densidade política. E a crueldade maior está no detalhe: repercutir seu nome, nesse raciocínio, seria até uma forma de ajudá-lo a existir politicamente.
Esse conjunto de ataques não surge solto. Ele serve para montar uma narrativa maior: a de que a direita mineira entrou em 2026 sem eixo, sem cola e sem capacidade de apresentar rumo consistente ao eleitor. A sucessão, portanto, deixaria de ser uma disputa de visões de Estado para se tornar uma batalha desorganizada entre interesses pessoais, candidaturas infladas e estratégias que se atropelam mutuamente.
Mas o ataque ao campo adversário não ocupou sozinho a mesa. No outro lado do tabuleiro, Bella desenhou a necessidade de um palanque unificado do progressismo democrático em Minas Gerais. A expressão vem carregada de intenção. Não se trata apenas de lançar nomes, mas de montar um bloco que tente ocupar o vazio deixado pela fragmentação adversária. Nesse projeto entram soberania, debate sério sobre terras raras, enfrentamento ao feminicídio, defesa da democracia, proteção de direitos e reação a privatizações como a da Copasa.
O argumento, no fundo, tenta inverter o peso da disputa. Enquanto a direita aparece como agrupamento rachado e sem norte, o campo progressista busca se vender como espaço de unidade, responsabilidade e formulação. Não por acaso, a discussão sobre quem encabeçará essa frente ficou em segundo plano diante da defesa de um palanque único. Rodrigo Pacheco e Alexandre Kalil aparecem como possibilidades, mas o foco principal está menos no nome e mais na necessidade de impedir dispersão. O recado interno é tão forte quanto o recado externo: sem convergência, a chance se perde.
Nesse desenho, Marília Campos recebeu tratamento oposto ao dado aos nomes da direita. Em vez de deboche, veio elogio explícito. Bella a tratou como amiga e projetou nela o perfil de uma senadora brilhante, no mesmo nível da prefeita que teria sido ao longo dos anos. O gesto tem peso político. Não é só afago. É sinalização de alinhamento e construção de campo, especialmente num momento em que o progressismo tenta organizar suas peças antes da largada definitiva.
A fala também deixou claro que a disputa em Minas não está sendo enxergada apenas como questão regional. O pano de fundo é nacional. A reorganização da esquerda, a necessidade de enfrentamento à extrema direita e a tentativa de construir uma nova bancada com musculatura entram no mesmo pacote. Na leitura já externada por Bella em outro momento da conversa, a migração para o PT e a pré-candidatura a deputada federal se encaixam justamente nesse esforço de ampliar alcance político em um partido visto por ela como mais capaz de enfrentar o bolsonarismo e dar sustentação a um projeto nacional.
No fim das contas, o que saiu da Assembleia na última quarta-feira não foi uma fala burocrática sobre conjuntura. Foi munição política. Zema apareceu como símbolo de um legado que, para Bella, aprofundou privilégios e serviu ao capital. Cleitinho foi reposicionado como veterano do jogo travestido de novidade. Mateus Simões foi achatado como nome sem tração. E a direita mineira inteira foi colocada num balcão de liquidação, descrita como um ajuntamento que se move por interesse, não por projeto.
A frase do “balde de pipoca” resume tudo porque concentra a essência do ataque: deboche, desprezo, cálculo eleitoral e leitura de oportunidade. Ao transformar o racha da direita em espetáculo, Bella tenta passar ao leitor e ao eleitor a sensação de que o adversário já entrou em campo se ferindo sozinho. E, no jogo político, poucas mensagens são mais ácidas do que essa.






