Dois dias antes do anúncio em que o prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo, confirmou que deixará o cargo para disputar uma vaga de deputado federal em 2026, o Ministério Público registrou e autuou uma Notícia de Fato para apurar uma acusação grave: a prática, em tese, do crime de racismo em publicação nas redes sociais.
O registro aparece com o número 02.16.0024.0347054/2026-35, classe “Notícia de Fato”, situação “Aberto”, datado de terça-feira (24). O expediente está vinculado à Procuradoria de Justiça Especializada em Ações de Competência Originária Criminal, área que costuma concentrar apurações e medidas ligadas a autoridades com prerrogativa de foro perante o Tribunal de Justiça.
A descrição do procedimento aponta que a origem foi o recebimento do Ofício nº 06/2026, do Gabinete 233, encaminhado pela deputada federal Dandara Tonantzin (PT), acompanhado de mídia digital. Segundo o texto do registro, a parlamentar relata que o prefeito teria praticado, em tese, racismo em um vídeo destinado a anunciar a conclusão das obras do Hospital Regional, no qual, sob alegado tom humorístico, haveria aparente associação de um homem negro à figura de “macaco/gorila” em situação de confinamento.
Em linguagem jurídica, a Notícia de Fato é o ponto de entrada. Ela não é denúncia criminal e não equivale a acusação formal. Ela funciona como registro inicial, para triagem e avaliação do que foi informado, permitindo ao Ministério Público decidir quais providências adotar: pedir esclarecimentos, requisitar documentos, coletar depoimentos, solicitar perícias, requisitar informações a plataformas, ou até instaurar um procedimento investigatório, quando houver elementos mínimos para aprofundar a apuração.
Por isso, o fato de estar “Aberto” indica fase inicial. O sistema lista andamentos no próprio dia 24, com autuação, distribuição e juntadas. Em geral, isso significa que o material encaminhado, como mídia digital, ofício e anexos, foi formalmente inserido, registrado e encaminhado ao órgão responsável.
O eixo da apuração, neste caso, envolve o enquadramento penal. A acusação mencionada no registro fala em racismo. No Brasil, a legislação trata o tema com rigor, e a jurisprudência consolidou uma linha de proteção reforçada contra condutas racistas, inclusive no ambiente digital. Além disso, a injúria racial, quando direcionada a alguém por raça ou cor, passou a ser equiparada ao crime de racismo, com pena mais severa e consequências processuais relevantes, como a imprescritibilidade, tema já afirmado em decisões do Supremo e incorporado em alterações legislativas.
Na prática, o que o Ministério Público tende a avaliar na fase preliminar é o conteúdo exato do vídeo, o contexto, a intenção aparente, a forma como a mensagem foi construída, o alcance, a repercussão e, principalmente, se a publicação configura ofensa ou discriminação racial, ou se há outro enquadramento possível. O Ministério Público também costuma verificar autoria, cadeia de postagem, edição e participação de terceiros, inclusive para delimitar eventuais responsabilidades.
No campo político, o timing chama atenção. A autuação ocorreu na terça-feira (24). Na quinta-feira (26), Gleidson anunciou que deixará a Prefeitura para disputar vaga na Câmara dos Deputados. O anúncio, inclusive, encerrou especulações de bastidores que chegaram a sugerir uma composição como vice em chapa ao governo estadual, hipótese que circulou em momentos diferentes do tabuleiro mineiro.
Agora, com o registro do Ministério Público, a pré-candidatura passa a conviver com um novo fator de desgaste, a existência de um expediente criminal em fase preliminar, originado por denúncia de uma deputada federal. Isso não significa condenação, nem prova fechada, mas eleva a pressão pública por explicações e por transparência sobre o conteúdo publicado.
O ponto mais sensível, porém, não é eleitoral. É social. O Brasil convive com um histórico em que “humor” e “brincadeira” muitas vezes serviram de disfarce para estereótipos racistas. E a lei vem apertando esse cerco justamente para impedir que a violência simbólica seja normalizada. Quando a acusação envolve comparação de pessoa negra a “macaco” ou “gorila”, o debate público costuma ser imediato, porque remete a uma das expressões mais antigas e ofensivas do racismo estrutural.
Do lado jurídico, o caminho a partir daqui depende do que a Procuradoria concluir ao analisar a mídia digital e demais anexos. A Notícia de Fato pode ser arquivada, caso não se verifiquem elementos mínimos, pode gerar diligências complementares, ou pode evoluir para investigação formal, se houver indícios.
Em meio à polêmica sobre se o vídeo foi ou não racista, e se tratava ou não de uma trend, o prefeito e um assessor passaram a agir para minimizar o episódio que gerou reação na comunidade negra e, segundo interpretações de terceiros, tentar “fazer do limão uma limonada”: o grupo associou a repercussão a uma marca de roupas cujo personagem é um gorila e, na sequência, assessores mais próximos apareceram vestindo camisetas com essa estampa, promovendo a marca nas redes.
Neste cenário, o prefeito entra oficialmente no modo-campanha, com forte presença do irmão, o senador Cleitinho, que tende a liderar o palanque e o apoio político, em uma atuação alinhada ao campo da direita bolsonarista. O que se desenha é uma corrida com capital eleitoral alto, mas agora acompanhada de uma apuração que mexe com reputação, discurso e limites do que se aceita no espaço público.







