Professor e proprietário de empresa de segurança em Divinópolis espera que morte de Edson Carlos não tenha sido em vão


Na tarde desta quarta-feira (14), Roberto Ribeiro dos Santos, professor e proprietário da Escola de Vigilantes Torre Norte – local onde o segurança Edson Carlos se capacitou, compareceu a Câmara de Divinópolis para pedir apoio dos vereadores a cerca da segurança dos trabalhadores e do público que comparece aos eventos na cidade. O instrutor fez relatos das situações que a classe passa no exercício das funções.

Segundo o tribuno, na maioria das vezes eles não são valorizados, dando até mesmo a própria vida em troca do complemento da renda mensal. Roberto mencionou o caso da morte do colega de profissão no último dia 25/09 em um evento no Parque de Exposições, e apelou no plenário que o óbito do amigo não tenha sido em vão. (Veja a fala do Roberto na íntegra ao fim da reportagem)

Presença dos seguranças ameniza crimes

No início de sua fala, Roberto aponta que em algumas situações, agressores e criminosos estudam o cenário antes de agirem. Ele exemplifica o espaço da Câmara. “Nós viemos tratar de um assunto bastante importante que é a segurança em todos os sentidos. Especialmente a segurança privada. Uma vez que o agente da segurança privada é o responsável direto pela vida de muitas pessoas. Eu costumo dizer que as vezes antes do policial militar quem vai estar presente diante do perigo é o vigilante. Veja nessa casa. A PM não está aqui, mas nós temos os nobres vigilantes aqui. Asseguro ao senhores que muitas ameaças de agressão e atentados contra os senhores são evitados simplesmente pela mera presença deles aqui.”, apontou.

Profissionais passam despercebidos pela população

O instrutor depõe que por várias vezes os vigilantes são “anjos invisíveis” aos olhos do público, no entanto mesmo passando despercebidos eles não deixam de garantir a segurança nos locais onde atuam. “Muitos agressores e criminosos muitas vezes antes de atentar contra alguém, um dos cálculos que eles fazem é com relação a segurança. Se vão conseguir transponder as barreiras da segurança contra o seu alvo. De forma que o agente de segurança, seja público ou privado, ele doa o seu maior bem que é a sua vida. Ele empresta a vida dele em detrimento da nossa vida. Ele garante o nosso sono para nós que moramos em condomínios. Pra nós que saímos a noite pras festas, é ele que está ali na portaria impedindo que pessoas entrem armadas ou que aja bruscamente contra aqueles que estão ali e muita das vezes passam despercebidos. As vezes passamos por ele como passamos por um poste mal sabendo que aquele anjo da guarda estava ali ao nosso favor.”, depôs.

Trabalho digno e com honra

O professor relata que quando as mortes acontecem de forma natural tem-se menos pesar do que quando são causadas por violência. “Eu ao longo da minha carreira como formador na segurança pública e segurança privada, convivi com centenas de vigilantes, policiais, alguns, não poucos ficaram pelo caminho. Alguns foram embora por doenças naturais. E isso nos conforta um pouco mais, quando um anjo desse calibre desce à sepultura. Mas quando desce à sepultura porque estava protegendo a vida, o peso é dobrado. Para mim o peso é dobrado porque nós somos a única instituição de formação da nossa região.”, relatou.

Instituto de segurança forma média de 140 pessoas por mês em Divinópolis e região

Roberto descreve que na Escola de Vigilantes Torre Norte, diversas pessoas se profissionalizam todo mês. “Na nossa instituição passam aproximadamente por mês 140 pessoas da região. São 140 vidas que depositam mensalmente que depositam no nosso trabalho a sua confiança, no que diz respeito a seu preparo e treinamento para que o pior não aconteça.”, descreveu.

Assistência legal para que novos casos sejam evitados

O instrutor de formação colocou-se a dispor da Câmara para discutir garantias para os trabalhadores e demais pessoas quem frequentarem eventos e festas em Divinópolis, a fim de poupar novos fatos no futuro. “Eu vim nessa tarde para oferecer para essa Casa Legislativa, para os nobres vereadores, a assistência necessária para que se cumpra o mínimo possível. E nós não venhamos a assistir novamente o que aconteceu no dia 26 do mês passado.”, prestou-se a disposição.

Pesar e arrependimento

Roberto relata que um dos patrões do segurança Edson Carlos lamentaram ter pago o curso profissionalizante ao trabalhador, uma vez ocorrida a morte dele no Parque de Exposições. “Um caso particular conosco, porque o vigilante que veio a óbito na ocasião esteve conosco desde a sua primeira formação. Estive eu conversando com o seu primeiro patrão o qual pagou pra ele o curso e ele já se dizia arrependido de porque pagou aquele curso. E é terrível para nós assistirmos tudo isso e observarmos que muitas coisas poderiam ter sido feitas.”, lamentou.

Ocorrências de violência de 2014 a 2021 contra seguranças em Divinópolis

O professor trouxe dados dos últimos anos e levanta ocorrências de violência contra os profissionais de segurança na cidade. “Divinópolis nós temos a estatística de que nós últimos sete anos, ‘baixaram’ (morreram) 10 vigilantes só na nossa cidade. Estou dizendo de 10 que ‘baixaram’ (morreram) trabalhando. Isso é um momento de alerta para nós. Não basta apenas dar um suporte para a família daquele que foi. Temos que pensar naqueles que aqui estão e naqueles que ainda vão ingressar. Por isso a minha presença nessa nobre Casa nessa tarde, oferecendo a nossa orientação e trazendo alguns pontos na área dos eventos.”, levantou.

Leis Federais dispõem que empresas de segurança estejam credenciadas no Ministério da Justiça

Roberto pontua a legislação federal a qual dispõem que as empresas responsáveis pelas seguranças nos eventos devem com a documentação regular junto aos órgãos competentes. “Existe uma Lei Federal de n° 7.102/83 e essa lei diz que a segurança privada tem que ser estabelecida através de empresas credenciadas ao Ministério da Justiça. Ou seja, não é qualquer empresa que pode efetuar o trabalho. Juntamente com a essa lei temos a Lei Federal 8.863, a Lei n° 9.017 e a Portaria n° 32 e n°33 da Polícia Federal de 2012. E essas leis trazem mais critério para a conclusão desse trabalho. Peço a essa Casa Legislativa que redobre as atenções, na medida em que anos vão se passando e reiteradamente os profissionais de segurança tem reclamado da ilegalidade de empresas que trabalham especialmente em Divinópolis.”, pontuou.

Famílias desamparadas

O formador pondera que muitas famílias de Divinópolis estão desamparadas por acontecimentos similares, que por uma razão ou por outra não tomaram tanta proporção quanto a morte do segurança Edson Carlos. “Para que os senhores tenham uma ideia, os vigilantes tem um seguro de vida que é obrigatório para a empresa credenciada junto a Polícia Federal. Nós participamos de todo esse processo depois do dia em que tivemos a notícia do óbito do Edson. Coisa que nós fizemos com todos que baixaram em combate na cidade. Talvez muitos não sabiam disso, mas são inúmeros vigilantes que baixaram em Divinópolis nos últimos sete anos. E em todos os casos nós estávamos acompanhando as famílias e casos que não tiveram tanta repercussão como esse caíram no esquecimento. As famílias estão desamparadas. Assim como corre o risco de acontecer com o nosso vigilante Edson.”, ponderou.

Seguranças protegem a todos, sem distinção

O professor destaca que os seguranças protegem a todas as pessoas que estão nos eventos, inclusive quem está trabalhando nos mesmos. “É salutar que nós passemos a ter uma atenção redobrada porque os eventos sempre trazem os seus riscos. Vimos no dia 26. É algo comum. Agressão a vigilantes, agressão entre pessoas é algo comum. E há de se pensar na estrutura do local. Segurança privada não se limita também ao agente. Mas ao ambiente, ao espaço. A segurança não só das pessoas que vão frequentar para aproveitar aquela festa, mas daqueles que estão trabalhando.”, destacou.

Estrutura mais ampla e qualificada poderia ter salvado a vida do Edson

O tribuno frisa que se houver uma estruturação médica e de segurança melhor nas festas, muitas vidas podem ser poupadas. “Nós precisamos analisar em quais circunstâncias esse evento aconteceu. Será que tinha uma ambulância, uma unidade móvel ali, uma UTI, que de repente poderia atendê-lo prontamente já que foi um mal súbito? Deveria ter equipamentos para uma primeira resposta, uma vez que nós não estamos falando de um evento com meia dúzia de pessoas, mas ali tinha um público maior.”, frisou.

Caso Edson não pode ter sido em vão

Roberto fez um apelo para que o que aconteceu com o segurança Edson Carlos não tenha sido em vão e que providências sejam tomadas de fato. “Nós agradecemos a Deus porque a pandemia está passando. Os eventos estão retornando. Os produtores de evento precisam recuperar o que perderam em 2020. Mas temos que assumir isso com responsabilidade, para que não tenhamos no dia de amanhã mais um caso Edson. Se não nós vamos chorar de novo e sempre a pergunta que nossos alunos nos fazem é: ‘Professor Roberto, vai ficar tudo do mesmo jeito de novo?’, apelou o instrutor de segurança.

Vida dos profissionais custam R$ 85 para comprar alimento ou inteirar o dinheiro da conta de luz

Na conclusão, o formador dos profissionais de segurança em Divinópolis fez um balanço do quanto ganham os vigilantes. Classe que trabalha muito e se coloca em situações de risco fatal a troco de uma quantia baixa em dinheiro. “Esses profissionais que saem para trabalhar a noite, as vezes por R$ 85 meus amigos. R$ 85 reais. 12 horas. 14 horas. É o frango que eles vão comprar as vezes no domingo. As vezes é o restante que eles vão inteirar para pagar uma conta de luz. E olha o valor que nós damos a eles. Nós que somos pais. Nossos filhos saem a noite para um evento. Nós sabemos que quem está guardando a vida deles são esses homens e mulheres que estão doando a vida para a proteção dos nossos filhos.”, propôs a reflexão e concluiu.

Confira o depoimento do professor e segurança Roberto Ribeiro

 

Por: Vinícius Xavier

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