Durante 6 anos, o congelamento da tarifa do transporte coletivo em Divinópolis foi vendido como gesto de proteção ao povo. Na propaganda política, parecia medida popular. Na prática, porém, o maior beneficiado não foi o trabalhador que depende do ônibus para sair cedo de casa, enfrentar superlotação e aguentar frota envelhecida. Quem ganhou com a conta represada foi, sobretudo, o empresário, o empregador.
A conclusão salta da planilha montada por especialista para o Divinews com base na evolução salarial do comércio varejista de Divinópolis e no valor congelado da tarifa urbana. Com auxílio técnico de área área contábil, o levantamento mostra uma lógica simples e cruel: quando a tarifa fica parada e o salário sobe, a parcela de 6% descontada do trabalhador cresce junto com o salário, enquanto o valor efetivamente complementado pela empresa diminui.
Ou seja, o discurso do congelamento teve cara de benefício social, mas ajudou a aliviar o caixa patronal. E o trabalhador, que continuou pagando sua parte sobre um salário corrigido, não recebeu em troca um sistema melhor. Pelo contrário. Viu a frota envelhecer, testemunhou ônibus caindo aos pedaços e acompanhou até mesmo a redução de veículos em circulação.
Os números da planilha são eloquentes. Entre janeiro de 2020 e março de 2023, a média de complemento das empresas para custear o transporte de quem pega 2 passagens por dia ficou em R$ 109,46. De abril de 2023 a março de 2026, essa média caiu para R$ 88,76. A diferença não é detalhe técnico. É a prova material de que, ao longo do tempo, a participação do empregador no custeio do vale-transporte foi encolhendo.
O recorte anual mostra a mesma tendência. Em 2020, a média do complemento patronal foi de R$ 115,63. Em 2021, R$ 110,16. Em 2022, R$ 103,70. Em 2023, R$ 95,76. Em 2024, R$ 91,42. Em 2025, R$ 85,17. Em 2026, até março, o valor médio já estava em R$ 80,81.
A curva fala por si. Ano após ano, o patrão foi colocando menos. Ano após ano, o trabalhador foi ficando mais espremido dentro de um sistema pior. E é aqui que a propaganda desaba. O congelamento da tarifa não significou proteção real ao passageiro. Significou, isso sim, um arranjo politicamente rentável para o discurso e economicamente confortável para setores empresariais.
A conta era simples: Quanto maior o salário, maior o desconto dos 6%; Quanto maior o desconto dos 6% menor o custo do empregador, uma vez que a tarifa congelou
O próprio Divinews guarda na memória dos bastidores um episódio revelador. Ainda no início da gestão Gleidson Azevedo, o portal afirma ter recebido ligação de uma liderança empresarial pedindo que a cobertura não fosse crítica ao congelamento. O pedido não foi atendido. E o motivo é simples: desde aquela época já era possível enxergar quem realmente sairia ganhando com a conta parada artificialmente.
A equação explicada pelo especialista consultado é direta. Se a tarifa congela em R$ 3,65 e o salário continua sendo reajustado, o desconto de 6% aplicado sobre a remuneração sobe automaticamente. Com isso, cresce a parte suportada pelo trabalhador e diminui o esforço financeiro do empregador para completar o custo do deslocamento. Em outras palavras, a tarifa parada passa a funcionar como alívio indireto para as empresas.
Só que essa conta “bonita” no papel teve um preço alto na vida real. A cidade não viu ônibus melhores, não viu renovação compatível da frota, não viu conforto, não viu dignidade. O congelamento populista não trouxe modernização. Trouxe sucateamento. E agora, às vésperas de uma possível paralisação, a fatura chegou justamente para quem menos se beneficiou da farsa.
O problema não está apenas no que foi feito. Está também no que foi vendido. O ex-prefeito construiu narrativa de defensor do povo ao manter a tarifa travada. Mas o que se consolidou, no fim, foi um sistema em que o patrão desembolsou menos, o trabalhador carregou mais peso proporcional e a cidade afundou em um transporte cada vez mais frágil.
É por isso que o debate atual não pode ser tratado como simples discussão de reajuste salarial de motoristas. O que está em jogo é a correção de uma distorção acumulada. O Divinews defende que a prefeita Janete Aparecida conceda o reajuste necessário para recompor as perdas dos motoristas do transporte urbano. Não como favor. Como medida de justiça diante de um ciclo em que o trabalhador foi empurrado para o prejuízo, enquanto outros colheram o bônus político e econômico do congelamento.
O terremoto que agora ameaça a cidade, com risco de paralisação, não nasceu do nada. Ele foi preparado ao longo dos anos por uma escolha que parecia simpática ao ouvido popular, mas que corroeu por dentro o equilíbrio do sistema. Congelar tarifa sem reequilibrar frota, serviço e remuneração não foi política pública séria. Foi engodo.
No fim das contas, o trabalhador foi vítima de um populismo barato. Ficou com o ônibus velho, com menos frota, com pior serviço e, agora, com a insegurança de ver o sistema à beira de uma crise maior. O patrão, ao contrário, viu sua participação no custeio diminuir gradualmente. E a cidade inteira paga, agora, a conta de uma ilusão que se sustentou por tempo demais.
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Ah tá, se não tivesse congelado, a crítica ia ser que beneficiaram as empresas de transporte coletivo. Tudo para criticar o ex prefeito….
Pergunta ao trabalhador que que ganhava 1k com a passagem a 3,65 e descontando da folha dele 60,,00 se ele não prefere que o salário passe a 1.200,00, deconte 72,00 e a passagem permaneça nos 3,65…
Tendenciosa a matéria.