Adeus, guerra dos sexos

Publicado por: suporte

Depois de uma reunião estressante, em que não foi possível fechar aquele tão esperado negócio, não é difícil ver um homem dar um murro na mesa ou bater a porta com mais força do que o normal. Quando uma situação parecida acontece com uma mulher, os clichês são outros, e não raro resumem-se à angústia revelada por olhos marejados – isso quando elas não descambam de fato para o choro.

A causa para reações tão distintas não se encerra no fato de que as mulheres têm glândulas lacrimais 60% maiores que as dos homens. A comprovação científica de que a atividade cerebral de cada um dos sexos é diferente não é nenhuma novidade – o que não impede que os gêneros obtenham, no fim das contas, resultados semelhantes quando um determinado objetivo é traçado. Em suma, o destino é o mesmo e ambos chegam lá; a diferença está apenas no caminho a ser percorrido.

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Baseado em um sem-número de estudos científicos, o americano Michael Gurian uniu seu conhecimento ao de Barbara Annis, especialista em comportamento de gêneros no mundo empresarial, para escrever a quatro mãos Leadership and the Sexes (disponível apenas em inglês pela editora Jossey-Bass), lançado nos Estados Unidos. Recomendado para quem está disposto a experimentar meios inéditos de gerenciamento de equipes e aumento de performance individual, o livro não pode ser considerado um simples guia de estereótipos. Gurian e Barbara vão muito além da análise dos tradicionais conflitos entre homens e mulheres – especialmente no universo dos negócios.

De maneira didática, eles apontam características típicas de cada sexo e defendem a idéia de que explorar a ciência do gênero pode ser uma espécie de pulo-do-gato para o sucesso das organizações. Ou seja, os autores reconhecem a existência de uma série de diferenças neurológicas entre homens e mulheres e sugerem às empresas a estratégia de balancear seus quadros de liderança, explorando ao máximo as características que são intrínsecas a cada gênero.

Leadership and the Sexes apresenta uma série de explicações que comprovam que os cérebros de homens são diferentes dos cérebros das mulheres. Nem maiores, nem menores; nem melhores, nem piores. Apenas diferentes. E são essas diferenças anatômicas que, segundo o neurologista Paulo Caramelli, influenciam diretamente o desempenho das funções executivas, ou seja, as habilidades do cérebro para planejar ações e chegar a um melhor resultado. “Efetivamente, existem diferenças nos desempenhos de homens e mulheres.

As mulheres são melhores em tarefas verbais, por exemplo. Já os homens se saem muito bem em atividades de ordem visual e espacial, como num teste de labirinto; ou então em habilidades matemáticas”, explica Caramelli, que é membro do departamento de neurologia cognitiva da Associação Brasileira de Neurologia (ABN).

Ainda que os cérebros funcionem de maneiras diferentes para chegar a resultados praticamente iguais, o neurologista atenta para um outro elemento que também afeta os comportamentos dos homens e, especialmente, das mulheres: a questão hormonal, muito pouco debatida na obra de Gurian e Barbara. É justamente aí que o técnico da seleção feminina de vôlei, Zé Roberto Guimarães, diz que “a coisa fica mais delicada”. Segundo ele, as alterações de sensibilidade afetam bastante o comportamento das meninas do vôlei brasileiro.

“Elas ficam mais propensas ao choro, a gente não pode falar muito alto. Parecem bem mais carentes”, diz Zé Roberto, que carrega em seu currículo duas medalhas de ouro olímpicas: a primeira à frente da seleção masculina, em Barcelona, em 1992; e a segunda, com a seleção feminina, em Pequim, em 2008. Experiente, o treinador destaca que para liderar equipes vencedoras não basta apenas dominar técnica e tática: “É preciso conhecer pessoas, ser alguém que entenda a cabeça dos outros e deixe o ambiente harmônico mesmo que exista cobrança”, explica. A atual experiência com a equipe feminina, confessa Zé Roberto, já foi até motivo de elogios por parte de sua esposa.

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É mais ou menos esse tipo de postura destacada pelo treinador da seleção brasileira de vôlei feminino que os autores de Leadership and the Sexes recomendam para as empresas: é cada vez mais necessário ensinar gerentes e funcionários a conviver pacificamente com as diferenças. Para isso, é fundamental assumir que as diferenças existem – o que muitas vezes não acontece. Roberto Heloani, professor de Psicologia do Trabalho na Unicamp (Universidade de Campinas) e na FGV (Fundação Getúlio Vargas), lembra que no mundo corporativo a cultura machista ainda é imperativa. “É claro que existem diferenças orgânicas do cérebro, mas a grande questão ainda é a cultural”, relata Heloani. Essas diferenças se acentuam, segundo o professor, quando as mulheres assumem cargos de liderança.

Para Heloani, as principais dificuldades dos homens em relação a isso estão na inveja e na suposta “quebra de um mito” representada pela ascensão feminina. O rompimento do paradigma faz com que muitas delas tentem se prevenir adotando posturas masculinas. “É uma defesa, mas algumas vezes elas acabam agindo até mesmo de forma grosseira. Esse comportamento vai depender muito do meio no qual a mulher está inserida”, relata. Tal mudança é cunhada por Heloani como “darwinismo social” – nada mais do que uma adaptação ao meio. “Agindo assim, a mulher fustiga, afasta predadores, aqueles que podem achar que ela é fraca”, diz.

A opinião de Olga Colpo, líder da área de consultoria em gestão de pessoas da PricewaterhouseCoopers (PwC) para a América do Sul, é semelhante à de Heloani. Para ela, as mulheres foram moldadas para o mundo masculino e, muitas vezes, ao conquistarem uma posição de liderança, acabam se masculinizando porque se sentem inseguras e obrigadas a seguir um padrão. Mais uma vez volta à tona a questão cultural, evidenciada anteriormente por Heloani. “Muita gente pensa que isso [a questão cultural] não é importante, que é lero-lero, mas não é. Matrizes simbólicas não são construídas da noite para o dia”, salienta o professor da Unicamp. Prova disso está na folha de pagamento: no Brasil, segundo a Confederação Sindical Internacional (CSI), as mulheres recebem salários 34% inferiores aos dos homens.

Aproveitar as diferenças

Para romper com o paradigma, então, é necessária uma distribuição equilibrada de cargos de liderança nas organizações? “Bobagem”, assinala Heloani, rompendo com as ideias de Gurian e Barbara. “Não existe base histórica alguma nisso. Não se podem criar lideranças artificiais. Numa organização democrática, é preciso propiciar às pessoas a chance de se tornarem líderes”, argumenta o professor.
Olga, da PwC, concorda com a tese dos autores de que o ambiente de trabalho perfeito é formado tanto por homens com características próprias do sexo masculino quanto por mulheres com características inerentes ao sexo feminino. “As diferenças devem ser aproveitadas, e isso ainda acontece muito pouco. Acho que, no início, isso causa um impacto transitório, mas as organizações estão começando a abrir chances em todos os lados”, diz, otimista.

Para provar que algumas empresas estão alinhadas aos ensinamentos de Gurian e Barbara, Simone Missel, diretora da Missel Capacitação Empresarial , lembra de dois casos interessantes: na Tramontina Multi, do Grupo Tramontina, de Carlos Barbosa (RS), e nas clínicas de medicina estética do Grupo Zafine, de Porto Alegre (RS), os cargos de liderança dos negócios estão divididos igualmente entre homens e mulheres. Nas duas empresas, cada gênero colabora liderando uma área específica. “Embora ainda exista uma tendência dominante em cada gênero, parte de origem genética e parte influenciada pela educação e pela cultura, também existe um potencial de mudança para ser desenvolvido nos sexos. Talvez agora surjam ainda mais oportunidades em ambos os casos”, afirma Simone.

Para que mulheres e homens consigam conviver harmoniosamente em posições de destaque, Olga Colpo reitera que é muito importante que se estabeleçam regras de convívio entre os sexos, tal como deve acontecer com etnias. Mesmo que a dica seja válida para ambos os gêneros, Olga manda um recado para quem anda de saias: “Elas precisam acreditar que seu cargo é importante e manter um estilo próprio”, sentencia.

O mundo dos negócios ideal traçado pelos autores de Leadership and the Sexes apresenta um grande equilíbrio entre homens e mulheres. Segundo eles, a facilidade de comunicação das mulheres e o senso detalhista que elas têm deveriam se unir à ousadia e à coragem dos homens, por exemplo. No entanto, o mundo dos negócios ideal de Aderbal Nogueira, diretor-geral da Nutrin, empresa de refeições coletivas com sede em Americana (SP), é formado por nada menos do que 90% de mulheres.

Ainda que seja homem o responsável por comandar as operações de mais de 220 restaurantes em diversos Estados do Brasil, Nogueira carrega sob sua batuta nada menos do que 2 mil mulheres. Ele justifica a presença esmagadora do sexo feminino nas mais diferentes áreas da Nutrin – inclusive, obviamente, nas posições de liderança – ao dizer que elas são muito mais minuciosas do que os homens.

“Para o nosso tipo de negócio, esse comportamento se encaixa perfeitamente. Elas são exigentes quanto à limpeza, andam bem vestidas, adoram se comunicar e fazem de tudo para receber elogios”, explica o diretor-geral da empresa. Nesse caso, pouco ou nada valem as dicas de Gurian e Barbara quando o assunto é equilíbrio entre homens e mulheres em cargos de liderança. Evidentemente, o fato de que as ideias do livro não se aplicam em determinados casos nem de longe significa que a obra deva ser considerada como de pouca importância.

As dicas de como formar equipes mais coesas e produtivas, celebrando as diferenças tal como se elas fizessem parte do mapa de competências das organizações, configuram o ponto mais alto de Leadership and the Sexes. É aí que o livro oferece alguns insights bastante interessantes.

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