Há os filhos (e, para a sociedade, uma mulher é menos mulher se não abdica da própria felicidade em nome da cria); há a sociedade, que ainda nos convence de que precisamos estar em um relacionamento para sermos realmente plenas, felizes e respeitadas (porque só então se pode dizer que encontramos um homem que nos assuma); Há a romantização da infidelidade (afinal, homens são assim mesmo e se você foi traída, provavelmente deixou que faltasse algo ao seu companheiro); e há, sobretudo, a certeza insana de que a culpa não é dele: a culpada é sempre a outra, a amante, aquela que quer apoderar-se do seu posto de companheira respeitada e “assumida”, e é contra ela que se deve lutar.
No Brasil, somos educadas para sermos apenas mulheres. Nossa educação provinciana, embora já nos permita frequentar universidades, nos esconde a verdade que é a única capaz de nos libertar: nós podemos mais do que sermos as primeiras-damas, as mulheres deles, dos homens que realmente detêm o poder. (Nota: superar isso, vencer a ditadura e chegar à presidência é um feito para poucas).
Tanto é verdade que, quando uma mulher chegou ao poder pela primeira vez, se instalou um verdadeiro caos político que tem um fundo machista inegável (vide os ataques pessoais à figura e à vida pessoal de Dilma Rousseff).
Nós conquistamos o direito de estudar, de votar, de atuar politicamente, mas jamais conquistamos uma educação libertadora (não ainda). Nós somos convencidas de que um bom casamento ainda é o máximo que podemos conseguir.
Nossas relações amorosas estão longe de serem pessoais. Estão envoltos pelos valores patriarcalistas, pela convenção do velho “lugar de mulher” (amando e apoiando incondicionalmente o homem que escolheu). Nosso atrevimento e independência não são incentivados.
No fim, mulheres que podem tanto – como Ruth Cardoso podia – não vão longe. Permanecem no lugar de submissão, lutando por aquilo que, teoricamente, é a única coisa valiosa que podem possuir: um homem bem-sucedido ao seu lado.
É hipócrita cobrar que as mulheres se respeitem e se considerem depois de defender que homens são artigo de luxo e que um homem é tudo o que se pode querer, independente das circunstâncias. Quando você, mulher, se deixa convencer disso, você não larga o osso.
O homem que trai não é o vilão. Ele é a caça.
Aos olhos dos outros, uma mulher que desiste de seu relacionamento com o homem que a traiu e desrespeitou perdeu uma guerra. Deixou que “a outra”, a nossa inimiga permanente, vencesse. O prêmio? Um homem, é claro — mesmo com as precárias virtudes Morais de FHC.






