A onda de linchamento virtual e perseguição política no país, ganhou um novo capítulo com ataques direcionados a membros do coletivo progressista Galo Antifa e pessoas de BH.
Algumas vítimas relataram que tiveram seus dados pessoais expostos na internet em uma prática conhecida como doxxing (veja significado adiante na matéria), vêm recebendo ameaças diretas em seus celulares e enfrentando tentativas de sabotagem em seus ambientes de trabalho. A ofensiva digital teve início após a página do coletivo ganhar notoriedade ao criticar políticos e denunciar propostas de cortes em programas sociais.
A origem dos ataques e o pedido de censura
O estopim para a perseguição ocorreu quando o coletivo publicou críticas alertando que o senador Flávio Bolsonaro supostamente cortaria programas sociais. A publicação gerou grande repercussão, atraindo a atenção de grandes perfis bolsonaristas no X (antigo Twitter). Um desses perfis, identificado como “Felipe Leme”, iniciou uma campanha alegando que o coletivo espalhava mentiras e cobrando publicamente, na internet, que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) censurasse a página.
No entanto, como observado abaixo (confira o documento), anteriormente uma representação assinada pelo Ministro André Mendonça, também por pedido do candidato Flávio Bolsonaro e do PL, já havia ordenado que fosse apagado alguns cards e posts, os quais mostravam medidas negativas e propostas de governo, bem como do pai, Jair, que foram ruins para a população, como cortes em programas sociais – Farmácia Popular, e, mais recente, a notícia de que haveria um projeto para tirar de Nossa Senhora Aparecida, o título de padroeira do Brasil.
Representação André Mendonça contra a Galo Antifa
A partir dessa mobilização, a perseguição escalou da esfera do debate político para o ataque pessoal, com contas de grande alcance repassando as informações.
Doxxing e retaliação profissional
Sem conseguir atacar diretamente os administradores anônimos da página, a rede passou a caçar rastros digitais de qualquer pessoa ligada ao grupo. Um usuário identificado como “Use Jorge” teria vasculhado a internet e localizou transmissões ao vivo (lives) antigas das quais participaram cidadãos mineiros. Com base nesses vídeos, os agressores expuseram as identidades dessas pessoas.
As consequências foram imediatas. Uma das vítimas relatou ter recebido mensagens intimidatórias no WhatsApp, nas quais o agressor afirmava possuir seus dados e exigia que a vítima “pagasse pelas fake news”, mesmo sem que ela tivesse controle das publicações originais. Além disso, houve invasão de privacidade no Instagram, onde um indivíduo fingiu ser amigo da vítima para, em seguida, realizar novas ameaças.
O linchamento virtual tomou contornos ainda mais graves ao mirar a vida corporativa de uma das vítimas dos ataques. Uma das pessoas, covarde e levianamente exposta, teve ainda o nome de seu chefe e uma superiora, divulgado publicamente pelo criminoso digital, em uma clara tentativa de causar complicações no trabalho e até mesmo a demissão. De acordo com o coletivo e com a própria vítima, esse homem não possui nenhum vínculo ou participação nesse grupo, sequer virtualmente, há muitos anos, mas acabou sendo alvo dos ataques, após os agressores a encontrarem por meio de buscas de publicações antigas no Google, em participação especial numa live.
Conforme apurado pelo Divinews, essa pessoa, que terá o nome preservado pela reportagem por questão ética e da temeridade a integridade da mesma, já registrou boletim de ocorrência e consultou um advogado, para tomar as devidas providências. É do conhecimento do portal, que, ao menos outras três vítimas também já registraram queixa na delegacia.
Falhas no anonimato e medidas legais
De acordo com um outro perseguido exposto, apesar de tentarem promover a intimidação sob o escudo da internet, os agressores cometeram falhas que facilitaram sua própria identificação. Segundo as vítimas, um dos envolvidos no ataque deixou rastros digitais que apontam para uma loja de roupas associada a ele, revelando sua própria identidade comercial enquanto praticava a exposição de oponentes.
Diante da gravidade das ameaças e da invasão de privacidade, algumas das vítimas já iniciaram as medidas legais cabíveis. Foi registrado um boletim de ocorrência na polícia, e os alvos dos ataques informaram que irão representar criminalmente contra os autores em delegacia. A queixa-crime incluirá acusações de calúnia e difamação.
Segundo apurado pelo Divinews, o objetivo da ação é responsabilizar os perfis que extrapolam o debate eleitoral para promover perseguição e censura contra cidadãos comuns.
Doxxing: o que é e quais as penas?
O doxxing é a prática de pesquisar e divulgar publicamente dados privados ou sigilosos de uma pessoa ou organização (como endereço, telefone, documentos, e-mails ou dados bancários) sem o consentimento dela, com a intenção de gerar assédio, humilhação ou perseguição.
Coleta de dados: É feita por meio de buscas em redes sociais, vazamentos de bancos de dados públicos ou privados, engenharia social ou invasão de sistemas.
Consequências comuns: Pode levar a ameaças virtuais, assédio físico, extorsão, vazamento contínuo e swatting (falsas denúncias graves à polícia direcionadas à vítima).
No Brasil
Enquadramento legal: O doxing de forma isolada ainda não possui um artigo específico tipificado como crime autônomo no Código Penal Brasileiro, embora existam projetos de lei em tramitação para alterar isso.
Crimes relacionados: A conduta costuma ser punida por meio de crimes associados caso haja invasão de dispositivos informáticos (Artigo 154-A do Código Penal), perseguição/stalking (Artigo 147-A), calúnia, difamação ou injúria.
Esfera civil: As vítimas podem acionar a Justiça para exigir a remoção imediata dos dados e solicitar indenizações por danos morais e materiais decorrentes da invasão de privacidade.
Obs – atualização/Nota editorial: Após a publicação e repercussão dessa reportagem, até mesmo o jornalista autor foi citado, em tentativa de intimidação. No entanto, o Divinews, comprometido sempre com seu histórico de credibilidade e coragem de jogar luz aos fatos e promover a justiça social, não volta atrás no seu fazer jornalístico, não compactua com esse tipo de práticas ilegais, e respeita o direito garantido pela Constituição Federal, tanto em noticiar, quanto assegurar a integridade das fontes e de seus profissionais. Qualquer tentativa de ameaça ou censura, não apenas não tem nosso endosso, como será rebatida e levada a conhecimento da população e da Justiça, para os devidos fins.








