“Esquece o drone, Renata”: Cury vira piada nas redes, mas exposição o catapulta nas pesquisas

Declarações inusitadas, números contestados e respostas atravessadas renderam memes ao candidato do Avante; efeito, porém, foi o oposto do esperado por seus críticos: Cury ganhou milhões de seguidores e saltou de 2% para 11% na pesquisa BTG/Nexus. Janones agora pede: “Parem de falar dele”

Publicado por: Geraldo Passos

Ele falou em drones com sirene para enfrentar a violência contra a mulher, defendeu transformar diplomatas em influenciadores digitais, anunciou a ideia de um Ministério da Inteligência Artificial, apresentou números errados sobre o faturamento das bets e, pressionado por Renata Vasconcellos sobre uma de suas próprias propostas, soltou uma frase que rapidamente ganhou vida própria na internet: “Esquece o drone, Renata”. A sabatina de Augusto Cury (Avante) na TV Globo, na noite de sábado (29), ofereceu matéria-prima de sobra para memes, ironias e críticas. Só que as redes sociais produziram uma daquelas contradições que a política digital conhece muito bem: enquanto milhares riam de Cury, outros milhares começavam a procurar saber quem era aquele homem. E o candidato que parecia destinado à parte de baixo das pesquisas amanheceu nesta segunda-feira (31) como o maior fenômeno eleitoral da semana.

A frase do drone talvez seja o melhor retrato daquele momento. Questionado sobre sua proposta de utilizar drones equipados com sirenes, acionados para auxiliar mulheres ameaçadas de violência, Cury tentou explicar que o equipamento seria apenas uma parte de um sistema que envolveria também um aplicativo com botão de emergência. Renata Vasconcellos insistiu em saber como a estrutura funcionaria em um país em que diversas regiões ainda enfrentam dificuldades de conectividade e se todas as delegacias teriam os equipamentos. Foi então que o candidato respondeu: “Esquece o drone, Renata”. A internet, evidentemente, não esqueceu.

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O candidato da “gestão da emoção” perdeu a paciência

Outro momento que ganhou repercussão ocorreu quando César Tralli questionou o candidato sobre a segurança e o embasamento de sua proposta de ampliar fortemente a telemedicina no SUS. Cury respondeu: “Sou médico, esqueceu disso?”. A reação ganhou ainda mais repercussão porque o escritor construiu boa parte de sua carreira falando de inteligência emocional, equilíbrio e controle das emoções.

Em outro trecho, Renata Vasconcellos levantou questionamentos sobre possíveis conflitos envolvendo programas de educação emocional associados à trajetória profissional do candidato. Cury interrompeu: “Mas espera um pouquinho, Renata. Onde você viu isso?”. A sequência ajudou a transformar a entrevista em terreno fértil para cortes de poucos segundos, exatamente o formato que costuma viajar com maior velocidade por Instagram, TikTok, X e aplicativos de mensagens.

Nem tudo, porém, estava no terreno da opinião ou de propostas consideradas excêntricas. Algumas afirmações apresentadas por Cury durante a entrevista foram confrontadas com dados oficiais.

Ao falar sobre apostas esportivas, por exemplo, o candidato afirmou que as bets movimentariam aproximadamente R$ 30 bilhões por mês e algo entre R$ 360 bilhões e R$ 400 bilhões por ano. A checagem do Fato ou Fake classificou a declaração como falsa: dados da Secretaria de Prêmios e Apostas apontam receita bruta de aproximadamente R$ 37 bilhões em todo o ano de 2025, média mensal próxima de R$ 3 bilhões, cerca de dez vezes abaixo do valor utilizado por Cury.

O candidato também disse que as empresas de apostas pagavam 12% de imposto. O percentual estava desatualizado: a alíquota passou para 13% em 2026 e deverá subir gradualmente nos próximos anos. Em outro momento, afirmou que cada ponto percentual adicional da Selic custaria quase R$ 100 bilhões para a dívida federal, enquanto estimativas recentes do Banco Central apontavam impacto na faixa de R$ 60 bilhões a R$ 66 bilhões, dependendo do conceito de dívida utilizado.

Isso não significa que tudo o que Cury disse estivesse errado. O número de 1.571 feminicídios em 2025, utilizado por ele ao defender políticas para mulheres, corresponde ao dado do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Sua referência à produção brasileira de aproximadamente 350 milhões de toneladas de grãos também encontra respaldo nos dados da Conab.

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Ministério da IA, influencers em embaixadas e mais drones

Cury também apresentou propostas pouco convencionais para um candidato à Presidência. Uma delas é extinguir entre oito e dez ministérios e, ao mesmo tempo, criar novas estruturas consideradas estratégicas, entre elas uma pasta ou secretaria executiva dedicada à Inteligência Artificial e Robótica.

Na política externa, defendeu “repaginar” as embaixadas brasileiras, capacitando diplomatas e funcionários para atuarem como influenciadores digitais e, eventualmente, utilizando influenciadores em países estratégicos para promover produtos e a imagem do Brasil.

Separadamente, cada uma dessas propostas pode ser discutida quanto à viabilidade, ao custo e à eficácia. Juntas, embaladas em frases rápidas e confrontadas ao vivo pelos apresentadores, elas viraram combustível perfeito para a máquina de memes. E foi aí que aconteceu algo que os adversários talvez não esperassem.

Riram de Cury. Depois foram pesquisar Cury

Antes de atribuir todo o fenômeno à Globo, porém, é preciso acertar a cronologia. O crescimento digital do candidato já havia começado de forma explosiva depois do debate da Band, realizado no domingo, 23 de agosto.

Dados levantados pela Vox Radar mostraram que, após aquele debate, Cury aumentou em 19,4% seu número de seguidores no Instagram e viu as buscas por seu nome no Google crescerem aproximadamente 900% ao longo da semana.

Entre segunda e sexta-feira, portanto antes mesmo da sabatina de sábado na Globo, Cury ganhou quase 2,5 milhões de seguidores no Instagram, saltando da casa dos 8,4 milhões para aproximadamente 10,8 milhões. Somente na quinta-feira foram cerca de 1,2 milhão de novos seguidores, justamente quando também ocorreu o pico de buscas pelo candidato no Google.

O CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, relacionou boa parte dessa arrancada à participação no debate da Band. Cortes do programa passaram a circular intensamente pelas redes, alguns impulsionados por grandes influenciadores. Cury também utilizou impulsionamento pago: segundo dados da Biblioteca de Anúncios da Meta levantados pelo UOL, foram R$ 29,5 mil entre os dias 22 e 28 de agosto para turbinar publicações.

A Globo, portanto, não criou o fenômeno Cury. Mas colocou ainda mais gasolina em um nome que já estava pegando fogo nas redes.

De 2% para 11% em uma semana

E então vieram as pesquisas. Na rodada BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (31), Augusto Cury saltou de 2% para 11% das intenções de voto, nove pontos percentuais em apenas uma semana, chegando isoladamente à terceira posição no cenário analisado, atrás de Lula e Flávio Bolsonaro. O levantamento ouviu 2.005 eleitores entre 28 e 30 de agosto e está registrado no TSE sob o número BR-08900/2026.

Na pergunta espontânea, talvez o dado mais revelador sobre conhecimento do candidato, Cury saiu de menos de 1% para 8%. Ou seja: pessoas passaram espontaneamente a citar seu nome mesmo sem receber uma lista de candidatos.

Outro levantamento divulgado nesta segunda mostra movimento semelhante. Na AtlasIntel/Bloomberg, realizada entre 25 e 30 de agosto, Cury chegou a 7,8%, contra 1,6% na rodada anterior considerada pelo levantamento, ficando tecnicamente empatado com Renan Santos na disputa pelo terceiro lugar.

Há uma cautela necessária: como os períodos de coleta atravessam os dias anteriores e posteriores à entrevista da Globo, não é possível atribuir cientificamente esses nove pontos à sabatina de sábado. Aliás, os dados de seguidores demonstram que a onda já estava forte anteriormente.

Mas não há dúvida de que exposição e intenção de voto caminharam na mesma direção durante aquela semana.

Quanto mais criticavam, mais o algoritmo entregava

Existe ainda outro dado curioso. Monitoramento da Palver sobre a repercussão das entrevistas da Globo encontrou comportamento muito diferente conforme a plataforma.

No X, onde a conversa sobre Cury foi considerada mais orgânica e volumosa, apenas 15% das menções opinativas eram favoráveis. Ou seja, predominavam críticas. Já no Instagram e nos aplicativos de mensagens, o candidato apresentou avaliações significativamente melhores. O levantamento também detectou entre as mensagens sobre Cury a maior proporção de comportamento automatizado entre os seis presidenciáveis analisados, algo que recomenda cautela antes de classificar toda a onda como apoio eleitoral orgânico.

É aqui que entra a grande ironia da história.

A crítica pode ter sido negativa. O meme pode ter sido debochado. A intenção de quem publicou pode ter sido ridicularizar. Para a economia da atenção, entretanto, o nome continuou sendo Cury.

Não é correto dizer que os algoritmos simplesmente contam citações e automaticamente promovem um político. Sistemas de recomendação levam em consideração diversos sinais, como interação, compartilhamento, retenção e interesse do usuário. Mas a repetição maciça de um mesmo assunto pode ampliar a curiosidade, gerar buscas e produzir novas rodadas de conteúdo. E quem percebeu o perigo foi um político que construiu boa parte de sua projeção nacional justamente entendendo essa dinâmica.

Janones entra em cena: “Parem de falar dele”

O deputado federal André Janones (Rede) publicou nesta segunda-feira um vídeo com uma orientação bastante incomum aos seus seguidores: parem de atacar Augusto Cury.

“Parem de falar de Augusto Cury, parem de criticá-lo, parem de bater nele, ignorem ele”, afirmou Janones.

O deputado argumentou que, independentemente de uma postagem ser elogiosa ou crítica, sucessivas interações podem sinalizar às plataformas que aquele personagem desperta interesse. “Se você fala de alguém, não importa falar o quê, ele entende que aquele assunto, aquela pessoa é relevante”, disse. Janones chegou a comparar o fenômeno com Jair Bolsonaro em 2018, sustentando que setores da própria esquerda ajudaram a aumentar a notoriedade do então candidato ao transformá-lo diariamente em objeto de críticas. É uma interpretação política de Janones, e não uma conclusão científica sobre a eleição de 2018, mas demonstra a preocupação que Cury passou a provocar nos estrategistas digitais.

O deputado também levantou suspeitas sobre eventual participação remunerada de páginas de entretenimento na amplificação do nome do candidato, mas não apresentou provas. Por isso, essa alegação não pode ser tratada como fato.

O meme que pode ter saído caro aos adversários

Augusto Cury ainda está distante dos dois líderes e duas pesquisas não permitem decretar a existência de uma nova força eleitoral consolidada. Datafolha, Quaest e levantamentos posteriores serão fundamentais para mostrar se o crescimento resiste quando a novidade perder força.

Mas uma coisa já aconteceu. Cury deixou de ser apenas “o escritor que resolveu disputar a Presidência” para se tornar personagem central de uma semana eleitoral.

E chegou a essa posição por uma mistura pouco convencional: fama anterior, discurso contra a polarização, debate televisivo, impulsionamento, milhões de seguidores, influenciadores, cortes de vídeo e uma quantidade gigantesca de críticas e memes.

Talvez a frase mais famosa de sua sabatina tenha sido dirigida a Renata Vasconcellos:  “Esquece o drone, Renata.” Só que, depois de uma semana como essa, os adversários descobriram que o problema não era fazer o eleitor esquecer o drone. Era fazer o eleitor esquecer Cury. E, pelo menos por enquanto, parece estar acontecendo exatamente o contrário.

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