O candidato do Novo à Presidência da República, Romeu Zema, foi submetido a uma série de questionamentos sobre sua passagem pelo governo de Minas Gerais e suas propostas para o país durante a entrevista exibida pela Globo na noite desta segunda-feira (24). A sabatina, conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, abriu a série de entrevistas da emissora com os presidenciáveis e colocou frente a frente o discurso do ex-governador e questões sobre resultados, decisões e declarações de sua trajetória política.
Ao longo da conversa, Zema apresentou propostas para a economia, defendeu medidas de redução de despesas e falou sobre privatizações de empresas federais. Ao mesmo tempo, precisou responder a cobranças relacionadas à dívida de Minas Gerais, ao reajuste de seu próprio salário, aos índices de feminicídio e a posições controversas sobre vacinação e os atos de 8 de janeiro de 2023.
A entrevista também teve momentos que rapidamente ganharam repercussão nas redes sociais. Entre eles, uma gafe ao falar sobre políticas de proteção às mulheres e uma declaração sobre os índices de feminicídio em Minas que passou a ser contestada por checagens publicadas após a sabatina.
Dívida de Minas é um dos principais pontos de confronto
Um dos momentos mais importantes da entrevista ocorreu quando Zema foi questionado sobre a situação financeira de Minas Gerais. O estoque da dívida do Estado com a União passou de aproximadamente R$ 88 bilhões em 2019 para quase R$ 180 bilhões em 2025.
Ao responder, o candidato atribuiu parte significativa do crescimento aos juros cobrados sobre a dívida e classificou as taxas como “juros de agiota”. Zema também argumentou que recebeu Minas Gerais com déficit e afirmou ter encerrado sua gestão com superávit.
O candidato apresentou ainda outro indicador para defender sua gestão: segundo ele, a dívida correspondia a 192% da receita líquida quando assumiu o governo e chegou a 160% dessa receita ao final de sua administração. A checagem da Agência Lupa considerou verdadeira a afirmação de que Zema recebeu um déficit de R$ 11 bilhões e deixou superávit de R$ 5 bilhões, mas apontou problemas em outras afirmações feitas durante a entrevista, especialmente relacionadas à evolução da dívida e à segurança pública.
O tema ganhou peso porque a situação fiscal de Minas é uma das principais credenciais utilizadas por Zema para defender sua proposta de gestão nacional.
Salário mínimo sem promessa de aumento real automático
Quando o assunto passou para o salário mínimo, Zema afirmou que garantiria a reposição da inflação em um eventual governo federal.
Entretanto, o candidato não prometeu um aumento real fixo. Segundo ele, ganhos acima da inflação dependeriam do desempenho da economia e do equilíbrio das contas públicas.
A proposta coloca o controle fiscal como condição para uma política de valorização do salário mínimo. Na prática, a declaração significa que o reajuste acima da inflação dependeria da capacidade econômica e financeira do país.
Zema também foi questionado sobre a Previdência. Nesse ponto, afirmou que não pretende alterar, neste momento, a idade mínima para aposentadoria, embora tenha admitido que a regra poderia acompanhar o aumento da expectativa de vida no futuro.
Reajuste de quase 300% no salário do governador volta à discussão
Outro momento de forte repercussão ocorreu quando Zema foi questionado sobre o aumento da remuneração do alto escalão do governo mineiro.
Durante sua gestão, o salário do governador passou de aproximadamente R$ 10,5 mil para R$ 41,8 mil, uma elevação próxima de 298%.
Zema defendeu a decisão e afirmou que salários mais altos são necessários para atrair profissionais qualificados para a administração pública. O candidato também declarou que não ficava pessoalmente com o valor do próprio salário, porque fazia doações para instituições como as Apaes de Minas.
A resposta, entretanto, colocou em evidência uma questão que acompanha o discurso econômico de Zema: de um lado, o candidato defende controle de despesas e eficiência na administração pública; de outro, precisou justificar um aumento expressivo na remuneração do próprio cargo e de integrantes do alto escalão.
Feminicídios provocam uma das respostas mais repercutidas
A violência contra as mulheres também esteve entre os assuntos mais delicados da sabatina.
Renata Vasconcellos questionou Zema sobre o aumento dos feminicídios em Minas durante o período em que ele esteve à frente do governo estadual e perguntou quais compromissos assumiria para enfrentar o problema caso chegasse à Presidência.
Foi nesse momento que o candidato cometeu uma gafe que rapidamente ganhou as redes sociais. Ao responder, afirmou ter “uma série de programas contra as mulheres”. Pelo restante da resposta, ficou claro que ele se referia a programas de enfrentamento e proteção das mulheres, citando medidas adotadas durante sua gestão.
A fala, entretanto, não foi o único ponto de repercussão.
Zema também afirmou que Minas Gerais tinha uma taxa de feminicídio inferior à média brasileira. A afirmação passou a ser contestada após a entrevista. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública citados por checagens apontam que Minas registrou taxa de 1,6 feminicídio por 100 mil mulheres em 2025, enquanto a média nacional ficou em 1,4.
Ainda segundo os dados citados na checagem, Minas registrou 177 feminicídios em 2025, contra 169 no ano anterior. O número de casos, portanto, aumentou, enquanto a taxa permaneceu em 1,6 por 100 mil mulheres.
O episódio transformou o bloco sobre segurança das mulheres em um dos momentos mais controversos da entrevista.
Segurança pública e proposta de superpresídio
Na área de segurança pública, Zema defendeu uma política de endurecimento contra organizações criminosas e apresentou a proposta de construir um superpresídio na região Norte do país para concentrar presos ligados a organizações criminosas.
A ideia faz parte de uma visão de segurança que prioriza o isolamento de integrantes de facções e o fortalecimento da estrutura penitenciária federal.
Durante a entrevista, Zema também foi questionado sobre indicadores de criminalidade e apresentou números para defender resultados obtidos em Minas Gerais. Algumas dessas afirmações, entretanto, foram posteriormente analisadas por checadores, que apontaram problemas em declarações sobre a evolução da criminalidade durante sua gestão.
Zema defende privatização de estatais federais
Na economia, o candidato apresentou uma proposta que pode provocar outro debate nacional: a privatização de empresas controladas pelo governo federal.
Durante a entrevista, Zema citou Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal ao defender a redução da presença do Estado na atividade empresarial.
A justificativa apresentada foi de que essas empresas poderiam funcionar de maneira mais eficiente sob gestão privada. A proposta representa uma das diferenças mais marcantes entre o modelo defendido pelo candidato e visões que defendem a manutenção das grandes estatais sob controle público.
Trabalho por hora entra nas propostas para o mercado de trabalho
Zema também defendeu mudanças na forma como o mercado de trabalho brasileiro funciona e mencionou a possibilidade de ampliar a contratação de trabalhadores por hora.
A proposta aparece associada ao discurso de flexibilização das relações trabalhistas e de criação de novas oportunidades de emprego.
O tema, entretanto, envolve uma discussão mais ampla sobre direitos trabalhistas, remuneração e proteção social, especialmente porque mudanças na forma de contratação podem afetar trabalhadores de diferentes setores de maneira distinta.
Vacinação: candidato é contra obrigatoriedade
Na área da saúde, Zema afirmou ser contrário à obrigatoriedade da vacinação.
O candidato disse que famílias não deveriam ser criminalizadas por decidir não vacinar os filhos e defendeu que a escolha fique no âmbito individual. Ao mesmo tempo, afirmou que tomou todas as doses disponíveis contra a Covid-19.
A declaração coloca Zema novamente em uma posição que tende a provocar debate sobre os limites entre liberdade individual e políticas de saúde pública.
8 de janeiro: Zema nega tentativa de golpe e defende anistia
Um dos pontos politicamente mais sensíveis da entrevista foi a posição de Zema sobre os atos de 8 de janeiro de 2023.
O candidato voltou a afirmar que não considera os acontecimentos uma tentativa de golpe de Estado. Na avaliação apresentada durante a entrevista, os episódios foram atos de vandalismo.
Zema também defendeu anistia para os condenados pelos atos ou, alternativamente, novos julgamentos que considerou imparciais. Ele criticou a atuação do Supremo Tribunal Federal e classificou como perseguição política o tratamento dado a parte dos envolvidos.
A posição coloca o candidato no centro de um dos principais debates políticos do país, que envolve a responsabilização dos participantes dos ataques às sedes dos Três Poderes e a interpretação sobre a existência ou não de uma tentativa de ruptura institucional.
Entrevista aconteceu após ausência em primeiro debate
A sabatina também ocorreu em um contexto que chamou atenção no início da campanha.
Zema não participou do primeiro debate presidencial de 2026, realizado no domingo (23). Segundo informações divulgadas pela campanha, o candidato decidiu priorizar a preparação para a entrevista da Globo, além de considerar que a alteração da data do debate havia mudado sua composição.
A ausência abriu espaço para críticas de adversários e comentaristas, enquanto a equipe do candidato sustentou que a estratégia fazia parte da preparação para a sabatina.
No dia seguinte, Zema ocupou um dos principais espaços de exposição eleitoral da televisão aberta ao participar da entrevista ao vivo.
Uma entrevista marcada por propostas, cobranças e controvérsias
A sabatina apresentou um retrato amplo das posições que Zema pretende levar para uma eventual disputa presidencial. Ao mesmo tempo em que defendeu privatizações, flexibilização do mercado de trabalho, controle das contas públicas e medidas mais duras na segurança, o candidato precisou explicar decisões tomadas durante sua passagem pelo governo de Minas.
A dívida estadual, o reajuste do próprio salário e os dados de feminicídio foram alguns dos temas em que sua gestão foi colocada diretamente sob escrutínio.
Já no campo nacional, vacinação, Previdência, salário mínimo, privatizações e os atos de 8 de janeiro revelaram posições que podem alimentar o debate eleitoral nos próximos meses.
A entrevista também deixou dois episódios com forte potencial de repercussão: a fala sobre “programas contra as mulheres”, que ocorreu durante uma resposta sobre proteção feminina, e a declaração sobre a taxa de feminicídios em Minas, posteriormente contestada por checagens.
Assim, a primeira sabatina presidencial da Globo em 2026 não ficou restrita à apresentação de propostas. Para Zema, o encontro também representou uma oportunidade de defender o legado de sua administração em Minas e, ao mesmo tempo, responder publicamente a questionamentos sobre números, decisões e posições que agora fazem parte da disputa nacional.
A cobertura apresenta declarações e propostas atribuídas ao candidato e informações verificadas por fontes jornalísticas e serviços de checagem. O conteúdo não contém pedido de voto ou manifestação de apoio a candidatura.






