“O PT está me expulsando”: candidato a deputado estadual diz ter recebido R$ 0 do Fundo Eleitoral e expõe crise interna no partido, que passa pela Executiva e pelo GTE

Publicado por: Geraldo Passos

“O PT está me expulsando.” A frase dita pelo candidato a deputado estadual Vinícius Venades deixou de ser apenas um desabafo publicado nas redes sociais e passou a integrar uma discussão muito maior dentro do Partido dos Trabalhadores em Minas Gerais. Depois da repercussão do vídeo, o Divinews procurou o candidato e ouviu detalhadamente suas críticas à distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha. A apuração avançou e chegou também à direção partidária: a reportagem encaminhou ao PT pedido formal de explicações sobre os critérios utilizados para deixar determinadas candidaturas com R$ 0, ou com valores abaixo, enquanto outras foram enquadradas em faixas que ultrapassam R$ 1 milhão, mas já tendo sido testada nas urnas e não eleitas. 

A controvérsia acontece em um partido que dispõe, nacionalmente, de R$ 615.367.980,20 do Fundo Eleitoral de 2026, segunda maior fatia entre as legendas brasileiras. O valor total do FEFC neste ano chega a R$ 4,961 bilhões, segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral.

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Em Minas Gerais, a insatisfação não está restrita a Vinícius. Levantamento publicado pelo Estado de Minas aponta que 25 das 83 candidaturas petistas mineiras a deputado não receberiam recursos do Fundo Eleitoral. São candidatos enquadrados nas faixas inferiores da classificação definida internamente pelo partido.

O vídeo: “zero reais”

Foi Vinícius quem levou publicamente o debate para as redes sociais. No vídeo que antecedeu a entrevista ao Divinews, o candidato afirmou que sua campanha havia sido contemplada com “zero reais”, enquanto outras candidaturas receberiam valores milionários.

“O PT está me expulsando. Enquanto tem candidatura recebendo mais de dois milhões de reais, eu não estou recebendo nenhum centavo”, afirmou.

Vinícius também disse ser o candidato mais jovem do partido e a única pessoa com deficiência na chapa petista para deputado estadual, além de acusar a legenda de reproduzir internamente desigualdades que historicamente afirma combater. No mesmo vídeo, reclamou que sua candidatura também teria ficado fora do horário eleitoral gratuito e anunciou que tentaria financiar a campanha com contribuições de apoiadores.

As acusações mais duras feitas no vídeo são manifestações de responsabilidade exclusiva do candidato e não representam conclusão do Divinews sobre a conduta de dirigentes partidários.

Depois do vídeo, Divinews procura Vinícius

Diante da repercussão, o Divinews decidiu ir além da publicação feita nas redes sociais e procurou o candidato Vinícius para que ele explicasse, de forma mais detalhada, os motivos de sua insatisfação. Na conversa com a reportagem, o candidato ampliou a crítica. Segundo ele, há candidaturas sem qualquer repasse, outras com previsões de apenas R$ 10 mil ou R$ 50 mil e, na outra ponta, valores que chegariam à casa dos R$ 2,4 milhões. Para Vinícius, o problema não estaria na ausência de dinheiro disponível, mas na maneira como os recursos estão sendo repartidos.

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O argumento apresentado por ele é que uma candidatura exige despesas com deslocamento, materiais, comunicação, profissionais, transporte, alimentação, acessibilidade e mobilização territorial. Na avaliação do candidato, deixar determinados nomes praticamente sem estrutura significa mantê-los formalmente na eleição sem oferecer condições mínimas para desenvolver uma campanha. Vinícius faz, contudo, uma ressalva importante: ele não defende necessariamente que todos recebam a mesma quantia.

Sua cobrança é por aquilo que chama de equidade, considerando tamanho do território, estrutura, necessidade e potencial de cada campanha. O ponto contestado, segundo ele, seria a ausência de uma justificativa suficientemente clara para diferenças que vão de zero a valores superiores a R$ 1 milhão.

Uma questão que ganhou dimensão coletiva

O caso de Vinícius integra uma movimentação que cresceu nas últimas horas dentro do PT mineiro. Reportagens publicadas nesta última sexta-feira (28) apontam que o grupo insatisfeito reúne 14 candidatos a deputado federal e 11 a deputado estadual, totalizando 25 postulantes. Parte deles defende a criação de um piso de R$ 80 mil por candidatura, financiado por uma redução aproximada de 7% nas faixas superiores. O grupo também admite recorrer à Justiça caso não consiga uma revisão interna.

Outra reclamação envolve a classificação das candidaturas. Segundo integrantes do movimento, os nomes enviados pelo PT de Minas teriam sido organizados inicialmente em grupos de prioridade e, posteriormente, uma faixa que não prevê repasse passou a concentrar as candidaturas que ficaram sem recursos.

O modelo petista leva em consideração candidatos que já possuem mandato e, para os demais, classificações baseadas em fatores como potencial eleitoral. No estado, os valores destinados às candidaturas sem mandato variam os valores dependendo do enquadramento, cargo, gênero e outros critérios partidários.

O próprio Estatuto do PT entra na discussão

Na entrevista concedida ao Divinews, Vinícius acrescentou um elemento que pode ampliar a controvérsia: o Estatuto do próprio Partido dos Trabalhadores. O candidato chama atenção para o artigo 163, parágrafo 2º, que determina que a Comissão Executiva da instância correspondente deve assegurar “um mínimo de recursos a todas as candidaturas”. O documento também prevê, no artigo 170, transparência nas receitas e despesas das campanhas.

A existência dessa previsão foi confirmada pelo Divinews no texto do Estatuto do PT disponível no acervo da Fundação Perseu Abramo. O artigo 163, parágrafo 2º, efetivamente traz a determinação de garantia de um mínimo de recursos para todas as candidaturas.

Esse ponto, porém, exige uma distinção jurídica importante. O dispositivo estatutário fala em “recursos”, mas não especifica que esse mínimo obrigatoriamente tenha de ser pago com dinheiro do FEFC. Portanto, não é possível concluir apenas a partir do artigo que deixar uma candidatura sem transferência específica do Fundo Eleitoral constitua automaticamente uma irregularidade. É justamente a interpretação e a aplicação desse dispositivo que podem entrar na discussão interna ou eventualmente judicial.

Vinícius levanta também questão sobre deficiência e juventude

O candidato afirma ter 22 anos, atuar em movimentos sociais e ser pessoa com deficiência. Segundo ele, considerando a composição da chapa apresentada pelo partido, seria o único candidato com deficiência na disputa petista por uma cadeira na Assembleia Legislativa. Vinícius argumenta que sua situação deveria ser analisada também sob a perspectiva da participação política das pessoas com deficiência e da juventude. Ele cita a Lei Brasileira de Inclusão, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e o Estatuto da Juventude e sustenta que a participação política não poderia ser apenas formal.

Mais uma vez, trata-se da interpretação jurídica apresentada pelo candidato. A eventual existência de discriminação ou violação legal dependeria da análise das circunstâncias, dos critérios partidários e, se provocada, da avaliação das instâncias partidárias ou da Justiça competente.

Afinal, partido pode dar R$ 0 a uma candidatura?

Pela legislação eleitoral, a simples diferença de valores entre candidatos não configura, por si só, ilegalidade. O TSE informa expressamente que a definição dos critérios de distribuição do FEFC é uma decisão interna dos partidos. A Justiça Eleitoral não faz análise de mérito dessas escolhas, ressalvadas, entre outras obrigações legais, as regras relativas às destinações mínimas previstas para determinadas candidaturas.

Mas existem requisitos formais. Os critérios precisam ser aprovados pela maioria absoluta do órgão executivo nacional do partido, apresentados ao TSE em valores absolutos ou percentuais e amplamente divulgados. Para 2026, o PT protocolou seus critérios perante o Tribunal no processo 0601252-72.2026.6.00.0000. Portanto, a discussão possui duas dimensões diferentes.

Uma é jurídica: saber se as regras legais, estatutárias e de transparência foram efetivamente observadas. A outra é política: saber se é razoável e coerente que candidatos escolhidos pela própria legenda para disputar uma eleição recebam condições financeiras tão diferentes.

Gleide Andrade entra no centro dos questionamentos

Foi nesse segundo ponto que a apuração do Divinews avançou. Em conversas mantidas pela reportagem com outros candidatos e candidatas do PT, que solicitaram anonimato, surgiu de forma recorrente um questionamento sobre o enquadramento da candidatura da secretária nacional de Finanças e Planejamento do PT, Gleide Andrade, que também integra a Executiva Nacional do partido.

Gleide é candidata a deputada federal por Minas Gerais, lembrando que em 2022 ela também disputou e não foi eleita, obtendo apenas 49.620 votos, (0,44% dos votos válidos do estado). Dentro do resultado final da Federação Brasil da Esperança (composta por PT, PCdoB e PV), terminou posicionada como a 14ª candidata mais votada, na 4ª suplência da chapa.

Mesmo assim, de acordo com informações do Divulgacand,  que embasaram o questionamento encaminhado pela reportagem ao partido, a candidatura de Gleide foi enquadrada em uma faixa correspondente a R$ 1.267.500 do Fundo Eleitoral. O valor está em linha com a maior faixa apontada publicamente para candidaturas petistas sem mandato em Minas Gerais.

Divinews encaminha questionamento ao PT

Para oferecer ao partido o contraditório específico sobre o caso, o Divinews procurou a comunicação do PT em Minas por intermédio do jornalista Jean Piter. A redação informou que preparava uma reportagem sobre a discussão interna relacionada ao Fundo Eleitoral, mencionou que já havia ouvido candidatos e candidatas e solicitou posicionamento oficial da legenda. Entre as perguntas encaminhadas está justamente o critério aplicado à candidatura de Gleide Andrade.

O Divinews questionou como a secretária nacional de Finanças e Planejamento, integrante da Executiva Nacional e candidata não eleita em 2022, foi enquadrada em uma faixa de aproximadamente R$ 1,267 milhão, enquanto outras candidaturas ficaram sem previsão de repasse, e como pontuou o candidato Vinicius, com zero de fundo eleitoral.

A pergunta ganha relevância porque a própria discussão interna envolve conceitos como “potencial eleitoral”, prioridade e competitividade. O pedido de manifestação foi encaminhado com a informação de que a matéria seria fechada às 14h30, desta última sexta-feira (28).

Como até a hora estipulada não hávia tido resposta do partido, a redação ao dar por encerrado o prazo, enfim, obteve a resposta do jornalista: “Infelizmente não consegui falar com a nossa direção, aqui, para dar um posicionamento oficial” – Contudo, o espaço permanece aberto para manifestação.

O que o PT já disse publicamente

Apesar de não haver, até o fechamento desta versão, resposta específica ao questionamento do Divinews, dirigentes do partido já apresentaram explicações a outros veículos.  Ao Estado de Minas, Gleide Andrade afirmou que os critérios nacionais foram definidos pelo comando do partido e validados de forma unânime. Segundo ela, os diretórios estaduais participam da classificação dos candidatos, que depois passa por validação nacional. Gleide também disse que candidatos insatisfeitos tiveram um período de sete dias para contestar seus enquadramentos.

Em reportagem publicada nesta sexta-feira (28), O Fator ouviu integrantes da cúpula petista que negaram que a distribuição tenha resultado de uma decisão pessoal de Gleide ou de qualquer dirigente isoladamente. Segundo a versão partidária apresentada ao veículo, o rateio passa pelo Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE).

A explicação divulgada acrescenta elementos importantes sobre os critérios. A prioridade seria dada primeiro aos parlamentares candidatos à reeleição e depois às candidaturas consideradas estratégicas. Nessa análise entram fatores como posição na estrutura partidária, desempenho eleitoral anterior e existência de bases políticas capazes de impulsionar a candidatura.

Esse esclarecimento acrescenta uma nova camada ao questionamento sobre Gleide: segundo a própria explicação atribuída ao partido, ocupar posição na estrutura partidária é um dos elementos considerados na avaliação estratégica. Isso não significa, por si só, irregularidade ou favorecimento ilícito. Mas explica por que candidatos ouvidos pelo Divinews querem saber qual foi o peso de cada critério e como eles foram aplicados individualmente.

Mulheres e recursos: outro elemento da conta

Há ainda outro fator que precisa ser considerado para que a comparação seja correta. Gleide é mulher, e o financiamento das candidaturas femininas está sujeito às regras eleitorais de destinação mínima de recursos. A direção do PT tem usado esse ponto como uma das justificativas para diferenças entre determinadas faixas de financiamento. Isso, entretanto, não responde sozinho à pergunta feita pelo Divinews sobre o enquadramento específico da candidata. As regras de gênero determinam percentuais mínimos globais de aplicação, mas não estabelecem que uma determinada candidata individualmente deva receber R$ 1,267 milhão.

R$ 0 a mais de R$ 1 milhão

É justamente essa distância que transformou o Fundo Eleitoral em uma crise interna. De um lado, uma candidatura como a de Vinícius Venades afirma ter recebido R$ 0 e não ter espaço no horário eleitoral. Do outro, existem enquadramentos superiores a R$ 1 milhão. No meio, candidatos que dizem ter recebido R$ 10 mil, R$ 50 mil ou outros valores considerados insuficientes para percorrer Minas Gerais durante uma campanha proporcional.

Vinícius insiste que sua reivindicação não é por uma divisão matemática igual para todos. O que cobra é um critério que, em sua avaliação, possa ser compreendido, conferido e justificado pelos próprios filiados. “Não se está defendendo que todos recebam a mesma quantia”, argumentou ao Divinews. Para ele, o debate é sobre assegurar condições minimamente viáveis para que as candidaturas efetivamente disputem a eleição.

Manifesto será entregue a Lula

A pressão interna pode crescer neste fim de semana. O grupo dos 25 candidatos mineiros que contesta a distribuição prepara um manifesto para entregar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à direção nacional do PT durante a passagem do presidente por Belo Horizonte. Os integrantes defendem um piso de R$ 80 mil e admitem buscar a Justiça caso a negociação partidária não avance. A crise, portanto, já ultrapassou o caso individual que apareceu primeiro no vídeo de Vinícius.

Ela coloca diante da direção partidária uma questão que envolve dinheiro público, estratégia eleitoral, autonomia dos partidos e transparência sobre as escolhas internas.

O PT tem respaldo legal para estabelecer prioridades e distribuir valores diferentes entre suas candidaturas. O que os insatisfeitos agora querem saber é como essas prioridades foram construídas, quem definiu cada enquadramento e por que alguns candidatos foram considerados suficientemente estratégicos para receber mais de R$ 1 milhão enquanto outros, igualmente registrados pelo partido para disputar votos, ficaram com zero.

Gleide Andrade

Além de ser candidata a deputada federal, acumula três cargos/funções/participação no Partido dos Trabalhadores, é Secretária Nacional de Finanças e Planejamento do partido, faz parte da Executiva Nacional, além de ser do GTE – Grupo de Trabalho Eleitoral em Minas Gerais.

Nota de transparência: matéria contou com o auxílio de IA na organização e estruturação, mas, sob orientação e revisão editorial do Divinews.

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