Após luta de mães, Câmara aprova sensores de glicose que podem melhorar rotina de crianças com diabetes em Divinópolis

Após meses de mobilização das famílias, projeto que prevê sensores de monitoramento contínuo de glicose avança e poderá mudar a rotina de crianças com diabetes tipo 1.

Publicado por: Cassia Misael

A aprovação do projeto que prevê o fornecimento de sensores de monitoramento contínuo de glicose para pessoas com diabetes tipo 1 representa, principalmente para crianças e suas famílias, a possibilidade de transformar uma rotina marcada por furadas constantes nos dedos em um acompanhamento mais prático, contínuo e seguro da glicemia. A proposta foi aprovada pela Câmara Municipal de Divinópolis nesta quinta-feira (20) e agora entra em uma nova etapa, que envolve a regulamentação e a garantia dos recursos necessários para que o benefício saia do papel.

O Projeto de Lei CM 268/2025 é de autoria dos vereadores Josafá Anderson e Dr. Delano e estabelece uma política municipal para o fornecimento gratuito dos sensores de monitoramento contínuo de glicose a pacientes com diabetes tipo 1. A tramitação recebeu emendas ao longo do processo legislativo, incluindo alterações apresentadas durante 2026.

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A conquista, no entanto, vai além do texto aprovado no plenário. Para as famílias que convivem diariamente com o diabetes tipo 1, o sensor pode significar menos procedimentos invasivos, mais informações sobre as oscilações da glicemia e maior possibilidade de intervenção rápida quando os níveis sobem ou caem.

É justamente essa mudança na rotina que as mães que participaram da mobilização em defesa do projeto destacam como o principal resultado da aprovação.

Para as crianças, a mudança começa na rotina

Uma das mães que acompanhou de perto a discussão na Câmara descreveu a diferença entre controlar a glicemia por meio das tradicionais medições na ponta do dedo e utilizar um sensor.

Segundo ela, sem o equipamento, uma criança pode precisar passar por diversas perfurações ao longo do dia para que a família consiga acompanhar a glicemia. Com o sensor, entretanto, esse acompanhamento pode acontecer de forma contínua, permitindo que os responsáveis tenham acesso às informações e tomem decisões relacionadas ao tratamento com maior rapidez.

“Eu vivo na pele. Fazer insulina, ponta de dedo. E eu sei a diferença do meu filho usar um sensor”, relatou.

A mãe contou que, enquanto acompanhava a glicemia do filho, conseguia observar os dados fornecidos pelo sensor e, diante da alteração, orientar a pessoa que estava com a criança sobre a necessidade de administrar insulina ou oferecer alimento.

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O exemplo ajuda a dimensionar o impacto que o equipamento pode ter no cotidiano. Em vez de depender exclusivamente de sucessivas perfurações para saber como está a glicemia, a família passa a contar com uma ferramenta capaz de acompanhar as variações de maneira contínua.

“Se meu filho não tivesse com sensor, esse tipo de ator aqui, ele teria ficado pelo menos 10 picadas”, afirmou, referindo-se às medições realizadas por meio da chamada ponta de dedo.

Para quem convive com o diabetes tipo 1, portanto, a discussão não envolve apenas a aquisição de um aparelho. Envolve também conforto, acompanhamento, autonomia e qualidade de vida.

Uma luta que chegou à Câmara pelas mãos das famílias

A aprovação também encerra, pelo menos nesta etapa, uma mobilização que contou com a participação direta de mães e pais de crianças com diabetes tipo 1.

A mãe entrevistada relatou que o grupo reúne 256 pessoas, entre mães e pais, e que a mobilização surgiu justamente da necessidade de transformar uma dificuldade vivenciada diariamente pelas famílias em uma política pública.

Ela também lembrou que, em determinado momento da tramitação, deixou a Câmara triste e frustrada diante da possibilidade de o projeto não avançar. Por isso, a aprovação provocou uma reação completamente diferente.

“Eu não saí revoltada, eu saí triste, com o coração despedaçado. E agora não cabe no meu coração essa alegria”, contou.

A mobilização incluiu pressão nas redes sociais e acompanhamento das discussões entre os vereadores. O objetivo, segundo ela, era simples: garantir que as crianças que precisam do equipamento também pudessem ter acesso a ele.

A experiência, para a mãe, também mostrou a força da organização das famílias.

“A gente, o povo, junto, tem muito poder. E a gente não sabe desse poder”, afirmou.

Menos furadas e mais informação sobre a glicemia

O sensor de monitoramento contínuo de glicose é utilizado para acompanhar os níveis de glicose ao longo do tempo, oferecendo informações que ajudam no controle do diabetes. A proposta em discussão em Divinópolis busca justamente incorporar esse recurso à assistência municipal para pacientes com diabetes tipo 1.

A importância desse acompanhamento já havia sido apresentada na própria Câmara durante a tramitação do projeto. Em outubro de 2025, a mãe Fabiana Cristina Rosa Silva falou na Tribuna Livre sobre a necessidade do equipamento e destacou que o sensor auxilia no controle tanto da hipoglicemia quanto da hiperglicemia.

Na prática, a diferença pode ser especialmente significativa para crianças, que dependem dos pais ou responsáveis para grande parte dos cuidados relacionados ao tratamento.

Além disso, o acompanhamento contínuo pode facilitar a percepção de alterações que exigem atenção. Para as famílias, isso representa a possibilidade de agir mais rapidamente e acompanhar a criança em diferentes situações do cotidiano, inclusive durante períodos em que ela está longe dos pais.

É por isso que a aprovação foi recebida pelas mães como uma conquista que ultrapassa o ambiente político.

“Para cada mãe, isso é… não tem explicação”, resumiu a mãe entrevistada.

Projeto avançou depois de período de análise

A aprovação desta quinta-feira também ocorreu depois de uma tramitação que passou por diferentes etapas e alterações.

O projeto original foi apresentado em 2025 e passou por substitutivos e emendas durante sua análise. A Câmara registra o texto como uma proposta de autoria conjunta dos vereadores Josafá Anderson e Dr. Delano, com o objetivo de estabelecer o fornecimento de sensores de monitoramento contínuo de glicose aos pacientes com diabetes tipo 1.

Na semana passada, a proposta chegou a ter o andamento temporariamente interrompido por um pedido de sobrestamento de sete dias apresentado pelo vereador Welington Well, que solicitou prazo para analisar o texto antes da votação.

Depois desse período de análise, o projeto voltou à discussão e acabou aprovado pelo plenário.

O próprio Josafá classificou o resultado como um momento histórico e lembrou que a construção da proposta contou com a participação das mães e com informações de experiências adotadas em outros municípios.

“Dia histórico aqui na Câmara Municipal de Divinópolis, onde nós conseguimos, depois de dois anos, aprovar o projeto de lei que obriga o município a fornecer sensor digital para quem tem problema de diabetes tipo 1”, afirmou.

Aprovação é um avanço, mas ainda existe uma etapa decisiva

Apesar da comemoração das famílias, a aprovação do projeto não significa que os sensores começarão imediatamente a ser distribuídos.

Agora, será necessário garantir os recursos para custear os equipamentos e definir a forma de implementação da política pública. O próprio Josafá reconheceu que essa será uma das próximas etapas do trabalho.

“Além das emendas impositivas que todos os vereadores se comprometeram em estar colocando, a gente vai trabalhar também na LDO para que ele seja garantido recurso para que seja um projeto de contínua assistência para as pessoas que têm esse problema de diabetes tipo 1”, explicou.

De acordo com o vereador, a proposta poderá começar de maneira gradual, enquanto o município estrutura os recursos necessários para ampliar o atendimento.

Ele também citou uma estimativa de 18 crianças de até 12 anos que poderiam ser contempladas inicialmente, número que, segundo sua avaliação, permitiria ao município começar a organizar o fornecimento.

“Pode começar a partir de agora, é a minha maneira de ver e para isso que eu trabalhei”, afirmou.

Emendas impositivas serão importantes para garantir os aparelhos

Um dos pontos centrais para a execução da medida será justamente o financiamento.

Conforme explicado pelo vereador, os recursos deverão contar com emendas impositivas dos vereadores, além de outras possibilidades de inclusão de verba no planejamento municipal.

Isso significa que a aprovação da lei abre o caminho jurídico e institucional para o benefício, mas a efetiva aquisição dos sensores dependerá da existência de recursos destinados ao programa.

Nesse sentido, as emendas impositivas dos parlamentares terão papel importante na formação do orçamento necessário para colocar a política em funcionamento.

O objetivo, segundo Josafá, é garantir que o fornecimento não aconteça apenas de forma pontual, mas possa se transformar em uma assistência contínua.

“Vamos estar trabalhando para garantir este fornecimento de uma maneira ampla”, afirmou.

A previsão apresentada pelo vereador é de que o projeto tenha validade para 2027, justamente em razão do planejamento orçamentário e das etapas necessárias para assegurar os recursos.

Para as mães, cada criança beneficiada já representa uma conquista

Enquanto o debate sobre orçamento, regulamentação e execução ainda continua, as famílias enxergam a aprovação por outro ângulo: o da vida cotidiana.

Para uma criança com diabetes tipo 1, cada medição pode significar uma nova perfuração. Ao longo de um dia, essas medições se repetem, seja para acompanhar a glicemia, seja para verificar se uma intervenção foi necessária.

Com o sensor, a expectativa das famílias é reduzir esse desgaste e permitir um acompanhamento mais contínuo.

A mãe que acompanhou a votação resume essa percepção ao lembrar que não está lutando apenas pelo próprio filho, mas também por outras crianças cujas famílias talvez ainda não tenham conseguido se organizar para reivindicar o mesmo direito.

“Eu estou brigando por outras crianças”, afirmou.

Ela também destacou que muitas famílias podem desconhecer a força que possuem quando se unem em torno de uma causa.

Por isso, a aprovação do projeto representa para o grupo não apenas uma vitória legislativa, mas o resultado de uma mobilização construída ao longo do tempo.

Uma nova etapa começa depois da aprovação

A Câmara deu o aval ao projeto, mas a luta das famílias ainda não terminou. A próxima etapa será acompanhar a regulamentação, a destinação dos recursos e a efetiva aquisição dos sensores.

O projeto prevê a atuação do Poder Executivo na regulamentação da medida, e Josafá ressaltou que o município poderá estruturar o fornecimento gradualmente, enquanto busca garantir recursos suficientes para uma assistência mais ampla.

A discussão também deverá passar pelo planejamento orçamentário de 2027, período para o qual o vereador aponta a previsão de funcionamento da política.

Assim, a aprovação do projeto cria uma expectativa concreta para famílias que há anos convivem com a rotina do diabetes tipo 1. Para elas, o objetivo final não está na aprovação de uma lei, mas na chegada do sensor até as mãos das crianças que precisam dele.

E é justamente nesse ponto que a conquista ganha seu significado mais amplo: cada sensor entregue pode representar menos furadas, mais acompanhamento da glicemia e uma rotina menos pesada para crianças que precisam lidar diariamente com o diabetes tipo 1.

A aprovação, portanto, encerra uma etapa da mobilização e abre outra. Agora, as famílias terão de acompanhar a transformação da decisão legislativa em atendimento efetivo, enquanto os vereadores e o Executivo precisarão garantir os recursos necessários para que a política pública alcance quem dela precisa.

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