A crise do transporte coletivo em Divinópolis não surgiu do nada. Antes de a cidade mergulhar em ameaça de greve, tarifa pressionada e desgaste geral no sistema, a então vereadora Lohanna França já fazia alertas duros sobre o modelo adotado pela Prefeitura para bancar o consórcio responsável pelo serviço. E o tom da crítica não era brando. Era de confronto direto.
Na fala registrada no arquivo do passado, Lohanna afirmava que a situação, que já era ruim, tinha piorado ainda mais com a regulamentação do subsídio à Transoeste. A avaliação dela era de que o município passaria a despejar quase R$ 6 milhões em uma empresa que, segundo sua leitura, não cumpria contrato e não tratava a população de Divinópolis com o respeito devido.
“Gente, o que estava ruim ficou muito pior. Saiu o decreto que regulamenta a lei do subsídio para a Transoeste. E no total, a Prefeitura vai dar quase 6 milhões para uma empresa que não cumpre contrato e que não trata direito o cidadão divinopolitano.”
A crítica não parava no valor do repasse. Lohanna também ironizava a defesa oficial feita pela administração da época, que sustentava, em ofício encaminhado a ela, que a empresa cumpria 99% dos horários. A reação foi de deboche político e de provocação pública, puxando a discussão para a realidade das ruas e para a percepção do usuário do ônibus.
“Mas não é isso que o prefeito pensa, né? Eles até falaram no ofício pra mim que a empresa cumpre 99% dos horários e cumpriu em 2021. Vamos contar isso pro povo e ver o que a população acha?”
A lembrança dessa fala ganha novo peso justamente agora, quando o sistema afunda em uma crise aberta. O que naquela época parecia apenas embate político entre oposição e governo hoje aparece como alerta que, no mínimo, merecia ter sido levado mais a sério. Afinal, a cidade chegou ao ponto em que transporte, tarifa, subsídio e greve passaram a compor o mesmo nó.
No mesmo arquivo, ainda aparece uma voz defendendo a empresa com agressividade, afirmando que faria o que pudesse “meter” no consórcio e, logo depois, sustentando que a Trancid seria “a empresa mais honesta que tem”, além de dizer que não queria que ela “explodisse”. A fala, solta e atravessada pelo calor do momento, ajuda a mostrar o ambiente de tensão e de disputa política que já cercava o tema.
“A Trancid é a empresa mais honesta que tem. Não estou beneficiando a Trancid, não quero que ela exploda.”
O tempo, porém, tratou de testar o discurso. Hoje, com a cidade à beira de paralisação, a discussão sobre subsídio deixou de ser teórica. Virou prova prática de que o modelo vendido como solução também carregava fragilidades profundas. E, nesse cenário, a fala antiga de Lohanna passa a soar menos como exagero de oposição e mais como aviso ignorado.
A memória política de Divinópolis tem dessas ironias. O que antes foi tratado por muitos como crítica dura demais, agora volta com força de profecia administrativa. Porque, olhando o colapso atual, fica cada vez mais difícil sustentar que o sistema estava saudável enquanto recebia dinheiro público, congelava tarifa e seguia sem entregar qualidade compatível à população.
No fim, a frase que paira sobre tudo isso é simples: não foi por falta de aviso.






