A entrevista dada por Domingos Sávio ao Divinews, ocorreu no lançamento da pré-candidatura do deputado Eduardo Azevedo, irmão de Cleitinho Azevedo, e com a presença do senador ao evento que ocorreu nesta segunda-feira (06), jogou luz sobre uma realidade que a direita mineira tentava administrar em voz baixa. Ao contrário do discurso de unidade automática, o presidente do PL em Minas admitiu, de forma explícita, que ainda não existe consenso em torno de um nome para disputar o governo do Estado. Mais do que isso, deixou escapar que o campo conservador já trabalha com a hipótese concreta de divisão no 1º turno e de união apenas numa etapa posterior da disputa, no 2º turno.
A fala é politicamente relevante porque desmonta a ideia de que o apoio ao senador Cleitinho Azevedo já estaria resolvido. Domingos não disse, de forma direta, que o PL ficará com outro nome. Mas também não entregou, em momento algum, qualquer compromisso firme de adesão automática a Cleitinho. O que fez foi defender esforço por entendimento, pregar convergência entre partidos de direita e centro-direita e, ao mesmo tempo, deixar claro que esse entendimento ainda não foi alcançado.
O trecho mais importante da entrevista aparece quando ele afirma que, “se isso não for possível no primeiro turno”, a direita deve estar preparada para construir essa união no segundo. Em seguida, vai além e admite a hipótese de que o PL, Mateus Simões e Cleitinho possam seguir com candidaturas independentes, cenário que, segundo ele próprio, levaria “fatalmente” a eleição em Minas para o segundo turno. Essa declaração não é lateral. É a confissão de que a unidade da direita, hoje, está longe de ser um fato consumado.
É aí que entra a leitura política mais fina. Ao citar nominalmente “o PL, que tem condição de ter candidato próprio, o Mateus Simões, que é o atual governador, e o senador Cleitinho”, Domingos construiu uma frase que separa os polos do bloco conservador em vez de fundi-los. A referência a Mateus Simões nesse contexto sugere que, dentro da lógica do dirigente liberal, o PL mantém a porta aberta para uma composição mais próxima do vice-governador ou, no mínimo, não decidiu embarcar integralmente no projeto de Cleitinho. Isso não equivale a um anúncio formal de apoio a Mateus. Mas é, sim, um sinal político de que o partido continua olhando para esse campo com bastante atenção.
Esse entendimento faz sentido quando se observa o cenário externo à entrevista. Nas últimas semanas, o PL tem dado sucessivos sinais de que não pretende se tornar refém de uma candidatura alheia em Minas. O partido avaliou nomes próprios para a disputa do governo, como Flávio Roscoe e Vittorio Medioli, e também resiste a prometer apoio automático a Cleitinho, ainda que o senador siga forte nas pesquisas.
Do outro lado, Mateus Simões já declarou publicamente que deseja estar ao lado do PL em 2026, reforçando a percepção de que a aproximação entre o grupo do governador Romeu Zema e os liberais continua em curso. Isso ajuda a explicar por que a fala de Domingos, embora truncada, soa menos como mero improviso e mais como recado calculado: o PL quer manter margem de negociação e não fechar a porta nem para Cleitinho nem para o entorno de Mateus.
No caso de Cleitinho, o gesto de Domingos foi dúbio, mas eloquente. Ele o tratou como “forte nome” para o governo, falou em diálogo respeitoso e disse estar “de braços abertos” para recebê-lo. Só que esse acolhimento veio acompanhado de uma observação significativa: a de que soube até de uma possível filiação em Brasília, mas nem ali, no evento em Divinópolis, teve a oportunidade de conversar com o senador sobre isso. Em política, quando um dirigente quer anunciar aliança, ele anuncia. Quando quer manter a pressão e preservar espaço, fala em respeito, diálogo e braços abertos. Foi exatamente esse o tom adotado.
A fala também reforça outra conclusão: a direita mineira já normalizou o cenário de mais de um nome no 1º turno. Em vez de insistir numa convergência imediata, Domingos passou a tratar a divisão como uma possibilidade real e até administrável, desde que o campo esteja pronto para unificar forças depois. Em outras palavras, o PL já fala com naturalidade sobre uma direita fragmentada na largada e recomposta apenas na reta final.
Esse raciocínio coincide com o momento político de Minas. Pesquisas recentes colocam Cleitinho em posição forte na corrida pelo governo, mas o tabuleiro segue instável, com Rodrigo Pacheco, Alexandre Kalil e outros atores ainda influenciando o jogo. Nesse ambiente, o PL parece preferir cautela estratégica a adesão precipitada.
Há, portanto, duas verdades saindo da fala de Domingos Sávio. A primeira é objetiva: a direita ainda não fechou um nome para o governo de Minas. A segunda é interpretativa, mas bastante plausível: neste momento, o PL não emitiu sinal de adesão plena a Cleitinho e parece manter uma inclinação mais confortável para dialogar com o campo de Mateus Simões do que para se subordinar ao senador do Republicanos. Isso não significa decisão tomada. Significa, sim, que o partido segue jogando com mais de uma carta.
No fim, a entrevista que parecia protocolar acabou servindo como confissão política. Domingos Sávio não unificou a direita em sua fala. Fez o contrário. Expôs que o bloco ainda está rachado, que o consenso não veio e que, se nada mudar, Minas pode assistir a uma disputa com 2 ou até 3 palanques à direita antes que alguém tente costurar a paz no segundo turno.






