Assembléia: Gleidson prometeu 10%, Janete assinou 4,56% e o servidor ficou com a conta

Na despedida, Gleidson deixou a plateia sonhando com 10%. Já Janete, recém-empossada, pulou a conversa, ignorou a expectativa e apareceu com decreto no valor exato da inflação

Publicado por: Geraldo Passos

O roteiro foi quase ofensivo à inteligência do servidor. Primeiro, Gleidson Azevedo apareceu no apagar das luzes do mandato acenando com 10% de recomposição, como quem deixa um presente na vitrine, mas sem pagar no caixa. Depois, Janete Aparecida, já empossada, resolveu tratar a categoria no modo automático e assinou decreto com apenas 4,56%, índice inflacionário, sem diálogo prévio com os sindicatos e sem qualquer gesto político para administrar a frustração. Na ponta, o servidor ficou entre uma promessa sem consequência e uma canetada sem conversa.

O Divinews acompanhou a assembleia realizada na noite desta terça-feira (31), no Sintram, e ouviu o diretor Toró. A avaliação levada à base foi direta: a categoria nutria expectativa de recomposição acima da inflação, inclusive por falas anteriores do então prefeito e por tratativas mantidas com o quadro técnico da prefeitura, mas foi surpreendida com a publicação do decreto fixando apenas 4,56%. Segundo ele, também não houve retorno sobre ticket alimentação e demais pautas apresentadas pelos sindicatos.

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A parte mais cínica da história está justamente na desculpa política vendida na despedida. Gleidson teria dito que gostaria de conceder 10%, que existiria caixa para isso, mas que não poderia avançar por causa do processo eleitoral, já que se coloca como pré-candidato. O problema é que essa justificativa, do jeito que foi empacotada, manca na perna jurídica. A Lei das Eleições veda, a partir de 180 dias antes do pleito, reajuste geral acima da recomposição inflacionária. Para 2026, o próprio TSE informou que essa trava começa em 7 de abril. Ou seja, no fim de março, a barreira específica do art. 73, VIII, ainda não havia começado a valer. Em português claro, usar o calendário eleitoral como biombo naquela altura soa menos como impedimento consumado e mais como álibi confortável.

Se Gleidson não entregou os 10%, preferiu sair deixando a frase pronta e a bomba política no colo da sucessora. E foi exatamente isso que Toró apontou ao Divinews: se o ex-prefeito jogou esse abacaxi no colo de Janete, caberia a ela vir a público para esclarecer a situação. Não veio. Não chamou sindicato. Não ofereceu devolutiva. Não fez mediação. Apenas deixou o decreto falar por ela. É um começo de gestão que pode até ser legalmente defensável, mas politicamente é seco, frio e desastroso para quem tentou se vender como nova fase de diálogo.

O próprio Toró resumiu bem a sensação da categoria. Segundo ele, a nova administração não começou bem porque o diálogo não foi mantido e os sindicatos não foram chamados para receber uma devolutiva da pauta negocial. A resposta veio por decreto, assinado já por Janete. É o tipo de estreia que desmente o discurso em tempo recorde. Janete assumiu na sexta-feira, apresentou secretariado na segunda-feira e, quando teve a chance de mostrar diferença na relação com os servidores, preferiu repetir a lógica do gabinete blindado, só que com assinatura nova.

E aqui está a contradição que mais irrita a base. Janete não era uma observadora perdida no corredor da prefeitura. Foi vice por 5 anos e conviveu com a engrenagem, com a folha, com o Diviprev, com as pressões de sindicato e com o humor do funcionalismo. Por isso, causa ainda mais ruído o fato de ela ter escolhido a rota da surpresa burocrática. Poderia ter chamado para conversar, poderia ter exposto as limitações, poderia ter dividido a responsabilidade política. Não fez nada disso. Preferiu a velha liturgia do fato consumado, o que para a categoria soou como desprezo.

Na assembleia, Toró ainda rebateu o argumento de que a nova gestão estaria apenas lidando com o aumento do aporte ao Diviprev. Segundo ele, essa elevação progressiva já era conhecida pela administração anterior e pela atual prefeita. Em outras palavras, não se tratava de um meteoro caindo sobre a mesa de Janete depois da posse. Era um dado previsível da equação. Ainda assim, a prefeita não apresentou narrativa política convincente antes de assinar o percentual mínimo.

O decreto de 4,56% também coincide com a prática já adotada no Legislativo municipal neste ano, onde a Câmara publicou reajuste no mesmo percentual, equivalente ao IPCA acumulado. Mas uma coincidência numérica não resolve o desgaste político do Executivo. O problema, no caso da prefeitura, não foi apenas o índice. Foi a soma de expectativa inflada, despedida irresponsável e silêncio administrativo. O servidor ouviu 10% de um lado e recebeu 4,56% do outro. Não havia como essa conta fechar sem revolta.

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Na prática, Gleidson saiu distribuindo ilusão tardia e Janete entrou distribuindo frieza. Um prometeu o que não entregou. A outra entregou o mínimo sem nem ao menos conversar. O resultado apareceu no Sintram lotado, numa assembleia que, segundo o próprio relato colhido pelo Divinews, chamou atenção pelo tamanho da presença dos servidores. Quando a base enche o sindicato assim, não é porque a gestão foi bem. É porque a paciência já entrou em modo de exaustão.

Ao fim, ficou uma lição amarga. Em política, promessa de despedida costuma ser barata porque já não enfrenta o teste da execução. E decreto sem diálogo costuma sair caro porque quem paga é sempre o mesmo lado. Entre a fala açucarada de Gleidson e a caneta gelada de Janete, o servidor municipal de Divinópolis ganhou exatamente o que o poder costuma oferecer quando quer escapar do desgaste: retórica de um lado, tecnicalidade do outro e valorização concreta nenhuma.

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