Por Laiz Soares: Baixa presença da mulher na política tem raízes históricas


Garantir uma representação justa das mulheres na política não é um desafio apenas no Brasil. O quinto Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) trabalhado pela Organização das Nações Unidas (ONU) tem como objeto a igualdade de gêneros. Garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política econômica e pública e adotar e fortalecer políticas sólidas e legislação aplicável para a promoção da igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres e meninas em todos os níveis são algumas da metas globais da ONU.

O Congresso brasileiro, por exemplo, tem na sua composição apenas 15% de mulheres, enquanto na sociedade elas representam 52,5% da população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre os 27 governos de estado, apenas uma mulher está presente, Fátima Bezerra, no Rio Grande do Norte.

Essa baixa representação de mulheres no Congresso é retratada, por exemplo, no Mapa das Mulheres na Política. Segundo o estudo, de 2020, da ONU e da União Interparlamentar (UIP), o Brasil ocupa o 140º lugar no ranking de representação feminina. Desse modo, fica à frente apenas de Belize (169º) e Haiti (186º) nas Américas.

Para a graduada em relações internacionais e consultora em liderança, Laiz Soares, a baixa representatividade das mulheres na política tem raízes históricas profundas, passa pelo machismo estrutural e vai além. A ausência de exemplos e de uma legislação capaz de, realmente, dar apoio às mulheres, e fiscalizar a ação dos partidos também fazem parte desse caldeirão cultural que exclui as mulheres e coloca as que seguem no caminho da política sob ataques diversos, que vão do menosprezo, passam por diferentes tipos de assédio e, em muitos casos, chegam à perseguição, violência física e morte.

“Falar que a ausência das mulheres na política é culpa do machismo da nossa sociedade é verdade, mas é uma resposta simplista e incompleta. A falta de preparo, de repertório, de rede de apoio e de recursos levam muitas mulheres a desistir de lutar para serem eleitas na política. Política é disputa de poder, e quando se fala em jogo de interesses complexos de atores relevantes e bem articulados, o desafio é muito maior. Precisamos lembrar que quando uma mulher quer se eleger, já existe alguém ocupando aquela cadeira, que está acostumado a essa posição e que, muito provavelmente, não está disposto a abandonar aquele lugar”, explica Laiz Soares.

Acostumada a liderar equipes no setor privado, ONGs e também no Congresso Nacional, a especialista relembra hoje com bom humor uma história emblemática que aconteceu com ela mesma. Aos 29 anos, enfrentando a sua primeira disputa eleitoral como candidata à prefeitura de Divinópolis (região Centro-Oeste de Minas), ouviu durante sua festa de aniversário, de um parente próximo: “E aí Laiz, você não vai se casar, não? Já está na hora, já vai fazer 30!”. O tom entre preocupado e indignado do rapaz diz muito sobre a mentalidade ainda vigente sobre o papel da mulher na sociedade.

“Lá estava eu, feliz às vésperas do lançamento da minha candidatura quando essa pergunta veio de um parente. Se fosse de um adversário, já seria horrível, mas de alguém próximo, foi ainda mais significativo. Ali entendi mais uma vez qual a percepção que a sociedade tem das mulheres e o quanto isso nos tira possibilidades”, avalia.

O exemplo do microcosmos familiar da então candidata indica como a sociedade brasileira ainda tutela a vida pública e privada das mulheres. Levantamento da plataforma Elas no Congresso, criada pela Revista AzMina, mostra que a desigualdade na representação também influencia negativamente no dia a dia do próprio parlamento. Em 2019, por exemplo, foram 331 projetos de lei propostos no Legislativo federal referentes aos direitos das mulheres. Entretanto, de acordo com a revista, um a cada quatro projetos é desfavorável às brasileiras, pois a maioria dos PLs é apresentada por deputados.

Eficiência

Aos que tomam a “pouca experiência” das mulheres na política como entrave, pesquisas no mundo inteiro rebatem o argumento com resultados. Referência no combate à Covid-19, em 2020, a Nova Zelândia, com apenas 26 vítimas fatais em decorrência da pandemia, colocou a primeira-ministra Jacinda Arden em evidência. O desempenho notável de Jacinda e de outras governantes mulheres durante a pandemia, como as líderes de Bangladesh e Taiwan, inspirou uma pesquisa realizada pelo Insper em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Barcelona. Divulgado em fevereiro de 2022, o estudo mostra que nas cidades brasileiras comandadas por mulheres houve 47 menos hospitalizações a cada grupo de 100 mil habitantes, na comparação com as lideradas por homens. Sob as prefeitas, a taxa de mortes também foi menor: 26 a menos por 100 mil.

Empresas com liderança feminina lucram até 20% mais, segundo  dados da ONU. Além disso, 57% dos pesquisados disseram perceber melhorias na reputação, ou seja, na imagem pública da empresa.

“Muita gente vai creditar esse desempenho ao ‘instinto materno’, ao ‘natural pendor da mulher para o cuidado’, mas é muito mais do que isso. É capacidade de gestão, de gerenciamento de crise. Estudos mostram que prefeitas conseguem mais recursos, em média, para os seus municípios do que prefeitos. A sociedade precisa ser informada do quanto somos boas gestoras públicas e privadas. Esses são dados que justificam que todos nós – homens e mulheres – acreditemos, apoiemos e votemos em candidatas mulheres tanto para o legislativo como para o executivo nas três diferentes esferas”, completa a consultora.

 

Matéria publicada pelo Diário do Comércio

 

Um comentário em “Por Laiz Soares: Baixa presença da mulher na política tem raízes históricas

  • 10 de agosto de 2022 em 07:08
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    So de ver o comando dessa vice prefeita JANETE desanimo de votar em mulher

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Comentários

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