Durante essa semana, um vereador de extrema direita postou em suas redes sociais uma notícia de setembro de 2020, onde o grupo O Boticário anunciava a extinção da expressão “Black Friday” em luta contra o racismo. O parlamentar, que fez uma sátira com o tema, sugerindo acabar com a faixa branca para não ofender os brancos, foi complementado em um comentário por um padre que afirma que tal decisão é “mimimi desta geração”, coisa de um povo Nutella (fresco) e que o mundo está chato. Se mimimi é a dor do outro que não dói na gente, o vereador evangélico e o padre (ambos brancos) possivelmente esqueceram o bom mandamento da empatia.
O termo “Black Friday”, que em tradução literal é sexta-feira preta, foi associado ao dia que sucede o feriado americano de Ação de Graças. O dia foi assim apelidado pela polícia da cidade norte americana de Filadélfia, em meados da década de 50, motivado pela quantidade de consumidores que iam às compras aproveitar as promoções que o comércio local realizava após o feriado com objetivo de esvaziar seus estoques, o que causava alvoroço no trânsito e violência nas ruas. Com isso, o trabalho de policiamento precisava ser intensificado e, assim, a expressão “Black Friday” foi usada pejorativamente pela polícia para nomear um dia de desordem. Outras possíveis passagens históricas também são descritas para explicar a origem do termo. Em uma sexta-feira de novembro de 1969, dois articuladores americanos tentaram manipular a bolsa de valores, razão pela qual, após intervenção do governo, gerou uma grande queda nas ações e, consequentemente, muitos prejuízos econômicos, o que levou a descrever este dia como “Black Friday”. Em outro registro, acredita-se que expressão se origina do comércio de escravos americanos no século XVIII que, trazidos forçadamente da África e tentando resistir a condições desumanas da viagem, ficavam fracos e doentes e eram colocados à venda nas sextas-feiras a preços promocionais. Não se sabe qual delas é a principal origem do termo Black Friday, mas o que se pode afirmar é que todas as possíveis origens remetem a momentos históricos negativos.
A língua é viva e se constrói, se desconstrói e se atualiza em seus vários contextos de uso no tempo e na cultura. No Brasil, com vergonhosos 388 anos de escravidão, palavras e expressões se naturalizaram no vocabulário escravocrata, porém, não se justifica mais seus usos na atualidade. A comunidade preta luta ostensivamente para desnaturaliza-las, e tentar deslegitimar essa luta com comentários injustificáveis nas redes sociais é a mais explicita expressão da involução mental destes que acham que o racismo é “mimimi”. Não somente na linguagem, o racismo infelizmente está presente nos dados: segundo o IBGE 56,1% da população do país se declara preta ou parda, e os dados do Atlas da Violência (IPEA) mostram que os negros representam 77% das vítimas de homicídio, sendo assim a probabilidade de um negro ser assassinado no Brasil é 2,6 vezes maior do que uma pessoa branca. Motivos não faltam para lutar contra o reforço do racismo, seja na linguagem ou em qualquer outro aspecto. E se grandes empresas como O Boticário, Adidas, Avon, Natura e uma dezena de outras, resolveram adotar uma nova forma de se referir a este dia de grandes descontos em respeito as causas anti-racistas no Brasil e no mundo, que sejam aplaudidas.
Quando um vereador se pronuncia em suas redes sociais satirizando a decisão de uma empresa em retirar de sua publicidade um termo que remete ao racismo, ele apenas colabora para reforçar reações agressivas de seus apoiadores. Uma seguidora comentou: “Não é melhor acabar com a cor? Porque nem o nome da cor pode-se falar” – um comentário que já se aproxima de uma centena de likes. Quando um sacerdote católico resume a atitude do grupo O Boticário em: “Que geração mimimi! Povo Nutella! Que chatice está esse mundo!”, ele ignora todos os ensinamentos cristãos, principalmente aquele que nos orienta a amar o próximo. Fico imaginando o que esse vereador e esse padre sabem sobre o sofrimento histórico do povo preto, ou mesmo se imaginam a dor que estas postagens e comentários causa no povo preto.
Nesse “Black Friday”, uma data tão esperada pela sociedade de consumo que somos e que é tão próxima ao Dia Nacional da Consciência Negra, ao fazer suas compras lembre-se da canção brilhantemente interpretada por Elza Soares: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”.






