Seqüestro em Santo André passa de 74 horas e agora são duas reféns

Publicado por: suporte

Nayara, a amiga da adolescente Heloá, de 15 anos, mantida como refém há mais de 74 horas pelo ex-namorado, Lindembergue Fernandes Alves, de 22 anos, tentou ajudar a polícia nas negociações. A garota, que havia sido libertada nesta quarta-feira (15) pode se ter tornado outra vez refém de Lindembergue.  Ela  voltou ao apartamento por volta das 9 horas a pedido do rapaz para negociar, segundo informações do comandante Félix, da Tropa de Choque da Polícia Militar. Porém, já passa de seis  horas que Nayara entrou e ainda não deixou o local. A Polícia trabalha com a hipótese de que Nayara está sendo mantida no apartamento pelo rapaz.

Perto do meio-dia, o irmão de Eloá, em companhia de um dos negociadores e do pai de Nayara, foram até a porta do apartamento. Na volta, ele trouxe uma mochila e dois cães, que são da família. Segundo o comandante Felix, durante negociações, Lindembergue, de 22 anos, disse que não vai matar ninguém e também não pretende se matar.

DEPOIMENTO 
 – Nayara, de 15 anos, que foi liberada no fim da noite de terça-feira (14) por Lindemberg Alves, de 22 anos, prestou depoimento à polícia no começo da tarde desta quarta-feira (15). Nayara é amiga de Heloá, que ainda é mantida refém por Alves. Em entrevista à RedeTV, Alves afirmou que fez a menina refém pois "queria conversar". O seqüestro começou pois ele estava inconformado com o fim do namoro.
 
Alves afirmou em entrevista por telefone que nestes mais de três dias de seqüestro ele dormiu, não se sente cansado e que queria notícias da mãe dele. Alves afirmou que a jovem tentou tirar a arma das mãos dele e, por isso, a arma disparou. Questionado se libertaria Heloá, Alves afirmou que o seqüestro vai terminar "na melhor hora".
 
Heloá pediu que as exigências dele fossem atendidas e disse que a vida dela está "nas mãos dos policiais". Apesar de estar com voz nervosa e quase chorando, ela afirmou que está calma e tentou tranqüilizar os pais e a família do ex-namorado.
 
O seqüestro completa quatro dias nesta quinta-feira (16). Quatro policiais do Gate são mantidos na escada entre o segundo e o terceiro andar do prédio. As negociações foram retomadas na manhã desta quarta, após serem interrompidas por volta das 23 horas de terça. Na manhã desta quinta-feira, uma toalha vermelha foi colocada na janela do banheiro do apartamento e, por volta das 7 horas, foi retirada pelo rapaz. Lindembergue apareceu na janela, colocou o revólver para fora, mas não disparou.
 
Segundo a polícia, desde a tarde de segunda, quando o apartamento foi invadido, ele já disparou quatro vezes contra as pessoas que estavam em frente ao local. Para evitar que os tiros atinjam alguém, a polícia isolou a área. Além do rapaz, a ex-namorada também fez uma aparição na janela do apartamento, jogando dois sacos de lixo.
 
Policiais do Gate que estavam no local para ajudar nas negociações estão posicionados em vários pontos do prédio, montando uma estratégia para invasão. A polícia não confirmou se os agentes do Gate irão invadir o local, mas os grupos estão posicionados ao lado do apartamento onde estão o rapaz e a refém, no apartamento de cima, no de baixo e em frente.
 
69 HORAS DE SEQÜESTRO  
Fotos: Agência Estado  
 
O SEQUESTRO – O seqüestro começou às 13h30 de segunda-feira no apartamento da ex-namorada de Lindembergue em um conjunto habitacional da CDHU, no Jardim Santo André. Nayara, de 15 anos, foi libertada às 22h50 e os outros dois colegas que eram feitos reféns, na noite de segunda-feira.
 
Durante o seqüestro, Lindembergue fez quatro disparos. Armado com um revólver calibre 38 e uma pistola, ele entrou no apartamento em que Heloá mora com o pai e os irmãos. O seqüestrador invadiu o imóvel porque estaria revoltado com o término do namoro. Seu objetivo era ficar sozinho com Heloá.
 
Para isso, convidou o irmão da menina, de 14 anos, para ir ao parque jogar bola, mas o deixou lá e voltou. Na hora em que o apartamento – no terceiro andar do bloco 24 – foi invadido, Heloá havia acabado de chegar da escola com Nayara, o namorado dela e um colega. Eles estudam na Escola Estadual José Carlos Antunes e iriam fazer um trabalho de geografia. “Ele disse que ela (Heloá) teve sorte de não estar só. Perguntou quem éramos e deu uma coronhada”, contou João (nome fictício), 15 anos, um dos reféns.
Enquanto os garotos estavam no apartamento, só Nayara não havia sido agredida. Às 17 horas de segunda-feira, Heloá recebeu uma mensagem em seu celular de um rapaz. Ao terminar de ler a mensagem, Lindembergue bateu no rosto dela. Ele manteve os quatro no quarto de Heloá sob a mira da arma.
 
Para evitar contato com os familiares, tomou os celulares de todos e quebrou o modem do computador. Deu frutas, bolachas e água para eles jantarem.
 
A polícia soube do caso às 20h30, porque o pai de um dos garotos, estranhando a demora do filho, foi ao prédio, bateu na porta do apartamento e ouviu Nayara pedindo para ele se afastar. Ele, então, chamou a polícia. Quando a PM chegou, Lindembergue atirou duas vezes, mas ninguém foi atingido.
 
O Gate começou a negociação por celular. O seqüestrador também conversou com familiares das jovens. O primeiro refém, João, foi solto às 21h15. “As meninas e meu amigo pediram para ele me libertar. Estava passando mal.” O segundo foi libertado às 22 horas.
 
Na manhã de terça, Lindembergue apareceu na janela do apartamento. Durante o dia, também mostrou as garotas. Vizinhos e parentes acompanharam as negociações em frente ao prédio.
 
Lindembergue e Heloá namoraram durante três anos. Ele desmanchava e ela reatava. Mas da última vez, ela recusou retomar o relacionamento. Os dois moram no mesmo conjunto da CDHU.
 
“Ele disse que só sairia de lá morto, porque para a cadeia não iria”, disse o comandante do Gate, Adriano Giovaninni. A polícia desligou a luz às 17 horas de terça. Lindembergue cortou as negociações às 18h50. Às 22h10 o seqüestrador pediu que a luz fosse religada e o Gate negociou a libertação de uma refém. A luz foi religada e às 22h50, quando ele soltou Nayara. Ela relatou aos policiais que Heloá havia sido agredida com chutes e puxões de cabelo.
 
‘MEU IRMÃO NÃO É BANDIDO’ – As cozinheiras Francimar Fernandes, de 35 anos, e Lindomar Fernandes, de 38, foram até o CDHU do Jardim Santo André na madrugada de ontem, acompanhadas do advogado Eduardo Lopes, na tentativa de amparar o irmão, Lindembergue Fernandes Alves, de 22 anos. Elas disseram não saber que o irmão possuía uma arma. "Ele nunca andou armado", garantiram as duas.
 
"Acho que fez uma grande burrice na vida dele. Isso não vale a pena, nem por ela, nem por ninguém. Isso é loucura", desabafou Francimar. Segundo ela, Alves é funcionário da área de produção de uma indústria. "Meu irmão não é bandido. Ele é trabalhador", afirmou.
 
Alves é o caçula de quatro irmãos e nunca teria dado problemas à família. Francimar afirmou que o irmão entrou em depressão com o final do namoro. "Ele não aceitou o fim", justificou. João, um dos adolescentes que viraram reféns, concorda. Ele foi o primeiro a ser liberado, após quase oito horas de seqüestro, e relatou a fixação do invasor na jovem. O estudante contou que, além de armado, Alves estava cheio de munição no bolso. Leia o que contou o garoto:
 
Como ele entrou?
A porta do apartamento estava aberta, mas acho que ele não contava que estaríamos todos lá.
 
Ele agrediu alguém?
Deu uma coronhada na minha cabeça e outra na cabeça do meu amigo. Depois, agrediu minha amiga, a ex-namorada dele.
 
Por que ele agrediu a ex-namorada?
Porque ele pegou o celular dela e viu uma mensagem de texto de outro menino. Até a xingou de vagabunda. Falou: "Faz um mês que a gente largou e você já está com outro."
 
Você sabe por qual motivo eles terminaram o relacionamento?
Não sei, mas foi ele, não ela, quem terminou. Mas sempre foi assim: ele terminava, depois pedia para voltar e ela voltava. Só que desta vez ela não quis voltar.
 
Alves estava armado?
Ele estava com um revólver e 20 a 30 balas no bolso. Ele também disse que estava com uma pistola na cintura, mas eu não vi.
 
Ele foi o tempo todo violento?
Não. No começo estava bonzinho, deu até comida para gente. Depois é que ele começou a ficar nervoso.
 
Como Alves resolveu liberar você e seu amigo?
Desde o começo ele queria deixar a gente ir, falava que o negócio dele era com a ex-namorada. Mas a gente ficava dizendo que só sairíamos de lá juntos. Só que eu comecei a passar meio mal. Daí ele liberou meu amigo e eu. Ele não liberou a nossa outra amiga porque ela é a melhor amiga da ex-namorada dele. E essa amiga disse que preferia ficar.
 
ENTREVSITA DO SEQÜESTRADOR – Demonstrando cansaço e com a voz um pouco mole, Lindemberg Alves, de 22 anos, disse ontem por telefone à reportagem da Agência Estado que vai se entregar no momento propício. No entanto, disse que vai matar a ex-namorada caso o apartamento em que está seja invadido. Alves preferiu não falar sobre sua vida e disse que tudo será feito no momento certo.
 
Confira a rápida entrevista, antes do rapaz desligar o telefone:
 
Conte um pouco de sua vida, você é uma pessoa que tem muitos amigos, quem são?
Não vou ficar falando da minha vida para ninguém.
 
Você estudou até quando, o que você costumar fazer todos os dias, joga futebol, essas coisas. Como você conheceu a Heloá?
Não vou falar nada disso não.
 
Vocês conseguiram dormir um pouco, descansar nesses três dias?
Não, ninguém dormiu aqui.
 
Como estão sendo as conversas com a polícia?
O comandante falou que não vai ter problemas…
 
Você já falou para ele que vai se entregar?
O comandante falou que vai aguardar.
 
Você acredita que vai sair tudo certo?
E não é para acreditar na polícia?
 
Você tem medo de alguma coisa?
A gente sempre tem medo que aconteça alguma coisa. Você já viu um monte de história que não acabou bem…
 
Quando você vai se entregar?
No momento certo, já falei tudo que tinha que falar.
 
E se a polícia invadir o apartamento?
Se a polícia invadir eu vou matar.
 
Vocês dois estão tranqüilos?
Sim, vai acontecer quando eu achar que deve ser.
 
Hoje, amanhã?
Quando for o momento certo.
 
Você ama a Heloá?
Amo muito.

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