ANOS DE CHUMBO: Coronel não comparece ao julgamento do processo em que é acusado de torturar e matar na ditadura – José Sarney foi arrolado no caso

Publicado por: suporte

O coronel reformado do Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de comandar sessões de torturas em que presos políticos morreram na ditadura militar, não compareceu nesta quarta-feira à audiência em que foram ouvidas testemunhas de acusação no processo movido pela família do jornalista Luiz Eduardo Merlino, morto em 1971. Merlino ficou preso por cinco dias nas dependências do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), chefiado por Ustra à época. Das cinco pessoas que estiveram no Forum João Mendes, em São Paulo, quatro o acusaram de ser o responsável por atos de tortura, inclusive com informação de que o coronel ordenou policiais para que passassem várias vezes com um caminhão sobre o cadáver de Merlino para desaparecer com sinais de agressão.

– Os depoimentos foram importantes porque destacou que Merlino foi torturado até sofrer com gangrena nas duas pernas, e por isso ele teria sido levado para um hospital, onde dizem que ele morreu. As testemunhas contaram ainda que um caminhão passou várias vezes sobre o cadáver de Merlino até decepar vários órgãos dele. Além disso, afirmou-se que o coronel Ustra participou pessoalmente dessas sessões de tortura – disse o criminalista Fábio Konder Comparato, advogado da família de Merlino.

O ex-secretário especial de Direitos Humanos da Presidência, Paulo Vannuchi, disse ter conhecido Merlino na cadeia. Confirmou os ferimentos nas pernas do jornalista e acusou Ustra de estar por trás das ordens dadas no DOI-CODI contra os presos políticos. Segundo ele, um policial chamado (ou de codinome) Gabriel, foi quem o informou sobre a morte de Merlino.
– No meu depoimento reiterei que ele comandava todas as sessões de tortura – disse Vannuchi, para quem a ausência de Ustra na audiência é “irrelevante”.

Nem gostaria de ficar cara a cara com ele.

Eles nos davam choque com fios desencapados e depois jogavam água salgada

Leane Ferreira de Almeida, outra testemunha, também relatou cenas de horror vividas na cadeia durante o regime.

– Eles nos davam choque com fios desencapados e depois jogavam água salgada.

Além de Vannuchi e Leane, também são testemunhas de acusação Laurindo Martins Junqueira, Otacílio Guimarães Cecchini, Joel Rufino dos Santos e Leonora Memiccuci de Oliveira.

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Manifestantes protestam com cartazes em frente ao fórum

A família do jornalista ingressou na Justiça com uma ação de responsabidade civil contra Ustra, que em 2008 já havia conseguido derrubar um processo na área criminal. Os parentes não pedem indenização financeira, apenas que o coronel seja declarado torturador, assim como aconteceu na ação movida pela ativista política Maria Amélia Telles, presa e torturada em 1972 junto com o marido e dois filhos. Ao lado de cerca de 30 manifestantes que ocupavam a porta do fórum com cartazes contra a ditadura militar e fotos dos presos políticos, Maria Amélia esteve nesta quarta-feira em São Paulo.

– A condenação de Ustra é a condenação política, histórica e moral da ditadura militar – disse ela.

O advogado de defesa do coronel reformado, o criminalista Paulo Esteves, também não foi à audiência. Mandou Patrícia Nunes, advogada de seu escritório. Ela relatou que foi agredida verbalmente por familiares de Merlino nos corredores que davam acesso à sala da juíza, que não autorizou a entrada da imprensa.

– Ela (a advogada) me relatou que as testemunhas sabiam horário exato e até qual era o dia da semana em que teriam sofrido agressão – disse ele, que nesta quarta-feira voltou a reafirmar que a defesa arrolou o senador José Sarney como testemunha de defesa por ter participado de fatos históricos relacionados ao regime militar. Sarney comunicou que não será testemunha do coronel reformado.



MANIFESTANTES = QUEM TEM MEDO DA VERDADE

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