O Divinews teve acesso a íntegra da decisão monocrática proferida pelo ministro Flávio Dino, no âmbitode de uma representação da Policia Federal, com pedido de busca e apreensão, quebra de sigilo de dados telefônico e telemáticos, afastamento funcional, além de análise de depoimentos de parlamentares de vários partidos, entre eles o do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), dos deputados José Rocha (União Brasil-BA), Glauber Braga (PSOL-RJ), Adriana Ventura (Novo-SP), Fernando Marangoni (União Brasil-SP), e Dr. Francisco (PT-PI) . Todos foram ouvidos na investigação que apura se Mariângela Fialek, a “Tuca”, operou um esquema de direcionamento ilícito de emendas parlamentares sob ordens diretas de Arthur Lira, que mesmo após ter deixado o cargo de presidente da Câmara teria seguido com o controle de direcionamento das emendas.
O ministro Flávio Dino, ao autorizar buscas, afastamento funcional e quebra de sigilos, afirmou que há fortes indícios de que Tuca integrava estrutura organizada para manipular emendas. Dino também destacou que depoimentos dos parlamentares convergiram ao apontar que Tuca centralizava a operacionalização, muitas vezes agindo em nome de Lira, mesmo após o fim de sua presidência.
A seguir, os principais trechos revelados nos depoimentos dos parlamentares
José Rocha (União Brasil-BA) descreveu atuação “personalista e centralizada”
Segundo o ministro Dino, o deputado José Rocha relatou que Tuca participava diretamente do processo de encaminhamento das emendas, funcionando como espécie de “ponto obrigatório” para quem buscava liberar recursos.
Rocha afirmou que em várias ocasiões ouviu que certas demandas “dependiam do aval dela”, e que Tuca frequentemente falava “em nome da Presidência da Câmara”, criando a impressão de que representava Arthur Lira nas negociações.
O relato reforçou a tese da PF de que Tuca exercia função além da assessoria técnica, atuando como intermediária política dentro do esquema.
Glauber Braga (PSOL-RJ) detalhou pressão e “trânsito incomum” da assessora
Glauber, conhecido crítico do orçamento secreto, disse que Tuca possuía uma influência anômala na tramitação de emendas.
Segundo Dino, o deputado relatou que:
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Tuca “decidia prioridades” sem apresentar justificativas técnicas.
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Tinha “acesso irrestrito a setores estratégicos da Casa”.
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Parecia “blindada politicamente”, operando com autonomia e sem contestação.
Glauber afirmou que emendas de parlamentares independentes ou de oposição sofriam “ritmo mais lento ou bloqueios”, enquanto aliados de Lira recebiam tratamento privilegiado.
Adriana Ventura (Novo-SP) relatou “filtros políticos” impostos por Tuca
Ventura disse que tentou liberar recursos vinculados à saúde e que recebeu de servidores internos a informação de que “a liberação só andaria após passar pela Tuca”.
Ela destacou que a assessora demonstrava conhecimento incomum sobre origens e finalidades das emendas de diversos parlamentares, algo que, segundo Ventura, ultrapassava suas atribuições formais.
A deputada lamentou que não houvesse “transparência mínima” no processo e que sua atuação sugeria “porta dupla de controle político”.
Fernando Marangoni (União-SP) narrou “tratamento seletivo” e interferência contínua
Marangoni afirmou que buscou informações sobre recursos para obras públicas e foi orientado a “falar com a Tuca”, que concentraria decisões operacionais.
Ele relatou episódios em que Tuca teria sinalizado “preferências políticas externas às áreas técnicas”, influenciando a ordem de pagamento das emendas.
O deputado destacou que a atuação dela persistiu mesmo após Arthur Lira deixar a presidência, o que levantou suspeitas de que a estrutura montada “não dependia mais do cargo, e sim da rede de influência”.
Dr. Francisco (PT-PI) disse que assessora “funcionava como gatekeeper”
Segundo Dino, o parlamentar petista descreveu Tuca como figura indispensável para qualquer liberação de emenda.
Ele relatou que pedidos enviados por via oficial “não andavam” até que alguém informasse Tuca diretamente. A percepção transmitida era de que ela “controlava a porta de entrada e a saída” do processo.
Dr. Francisco afirmou que a atuação da assessora destoava completamente do padrão administrativo esperado.
Senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) confirmou presença de Tuca na linha de frente das emendas
O documento aponta que o senador mineiro relatou ter visto Tuca tratar diretamente de assuntos relacionados a liberação e priorização de emendas, inclusive em temas sem relação com seu setor de lotação.
Cleitinho afirmou que a assessora “sempre aparecia como figura-chave” nos momentos decisivos e que parlamentares comentavam, nos bastidores, que “nada ia para frente sem passar por ela”.
O senador também disse que, em Brasília, era comum ouvir que Tuca tinha “ligação direta com Lira” e que essa influência continuou mesmo depois da troca de comando da Câmara.
Emendas, poder e estrutura paralela
A investigação ocorre num contexto em que o STF já havia determinado maior transparência nas chamadas emendas de comissão, consideradas sucessoras do orçamento secreto. O documento destaca que o governo federal recebeu lista de 5.449 indicações assinada por 17 líderes partidários, sem aprovação formal das comissões — manobra que alterou a destinação de recursos.
Ministro Dino afirmou que há “fortes indícios de estrutura organizada” e que a atuação de Tuca se encaixa nesse padrão.
O fato de parlamentares de quatro partidos diferentes, além de um senador, terem relatado movimentações semelhantes, fortaleceu a convicção do STF e da PF de que havia um núcleo de comando não oficial operando a distribuição das emendas.
Conclusão
A decisão do STF representa um dos movimentos mais significativos no enfrentamento às distorções históricas na liberação de emendas parlamentares. Os depoimentos revelam uma atuação centralizada, politizada e atípica atribuída à assessora ligada a Arthur Lira.
Agora, com buscas autorizadas, quebra de sigilos e afastamento de Tuca das funções relacionadas a emendas, a investigação entra numa nova fase que pode atingir figuras de maior relevância institucional.
Pela primeira vez, o nome de Cleitinho Azevedo, senador desde 2022, aparece formalmente num inquérito que descreve a engrenagem interna do sistema de emendas sob influência de Arthur Lira, o ex-presidente da Câmara que, nos bastidores tem grande influência sobre seu afilhado político, Hugo Motta, e foi ele o algoz da tentativa de cassar o deputado Glauber Braga, exatamente por que o parlamentar começou a denunciar um suposto esquema de emendas. Que foi nublado com o revide de Braga a um membro do MBL, quando o parlamentar o agrediu, após ter sua mãe xingada por ele. Lira viu nisso uma oportunidade de se livrar do seu desafeto. Fato é que o caso terá desdobramentos imprevissiveis.
DEPOIMENTO DO SENADOR CLEITON GONTIJO DE AZEVEDO (CLEITINHO):
“Pergunta: A sua intimação decorreu de um pronunciamento seu no dia 17 de dezembro em que o Senhor trata genericamente de um inconformismo seu enquanto parlamentar com relação ao direcionamento de emendas, mas especificamente o trecho que eu gostaria que o Senhor abordasse e explicasse é o que o Senhor tratou da possibilidade da existência de lobistas?
Senador Cleiton Gontijo: O meu discurso veio de uma revolta que eu vi uma reportagem no Fantástico falando de um pessoal que fez um asfalto, aí eu não vou, o pronunciamento está aí, aí depois você pega essa entrevista do Fantástico. Eu lembro que o Fantástico falou isso num domingo e eu falei isso na terça-feira. E já tava esse imbróglio das emendas e do Flávio Dino, né, pedindo transparência. Aí eu peguei e falei sobre essa questão. Se eu não me engano era na Bahia […] Mas uma coisa que me chamou a atenção uma vez aqui no Senado. Aí dois rapazes, eu não vou lembrar que Estado que é. Não sei se era Rondônia ou Roraima. Falou oh Senador Cleitinho, tudo bem? Aí eu fui andando e falei amigo estou um pouquinho com pressa. “Não deixa eu te falar. Nós temos uma ONG e a gente queria ver com o Senhor uma parceria de emenda”. Aí eu perguntei: qual é seu Estado? Aí eu não lembro se falou Rondônia ou Roraima. Aí eu disse, sou de Minas Gerais e as emendas que eu costumo indicar são para Minas Gerais. Aí eles falaram assim: “Não, mas aí a gente faz uma parceria”. Aí eu peguei e fiz mais dúvida. Mas que tipo de parceria você quer fazer se eu sou de Minas Gerais? Aí eles disseram “não leva mal, não” e pegou e saiu. Então nessa hora que eu falei dos lobistas, eu vi essa situação de pensar assim, esses cara devem ficar indo de gabinete e gabinete para ficar pedindo emenda. Aí eu estou falando uma situação que eu não posso te provar, porque eu acho que como eu tenho esse posicionamento mais forte, eles não vêm atrás de mim […] Então foi nesse sentido que eu quis falar […]”.
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