Dino bloqueia R$ 6,1 milhões de Eduardo Cunha; Tuca agia por conta própria ou cumpria ordens?

Decisões de Flávio Dino apontam suspeitas de interferência de pessoas sem mandato na destinação de recursos públicos; atuação de Mariângela Fialek, a Tuca, e a defesa feita por Hugo Motta ampliam os questionamentos.

Publicado por: Geraldo Passos

O bloqueio de R$ 6,1 milhões em bens do ex-deputado Eduardo Cunha, determinado pelo ministro Flávio Dino, abriu mais um capítulo de uma investigação que ultrapassa a figura de um antigo presidente da Câmara. Relatórios da Polícia Federal citados na decisão apontam indícios de um possível arranjo paralelo para definir e remanejar emendas parlamentares, com participação atribuída à servidora Mariângela Fialek, conhecida como Tuca. O caso também alcança o presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, suspeito de interferir na indicação de verbas mesmo sem exercer mandato – Uma pergunta se faz necessária: quem dava ordens à ela para liberar emendas para pessoas que não eram deputados? 

A decisão divulgada neste domingo, 12 de julho, determinou o bloqueio de R$ 6,1 milhões, em bens atribuídos a Eduardo Cunha. A medida integra os desdobramentos de uma investigação sobre eventual direcionamento e remanejamento irregular de emendas parlamentares.

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A Polícia Federal sustenta ter encontrado indícios de que Cunha, mesmo afastado do Congresso e sem mandato parlamentar, continuava exercendo influência sobre a definição de recursos públicos. Segundo trecho da investigação reproduzido em decisões judiciais, ele apareceria como personagem relevante em um sistema informal de escolhas e mudanças na destinação das verbas.

Quem é Tuca

Mariângela Fialek, conhecida nos bastidores de Brasília como Tuca, não ocupava uma função administrativa comum. Ela exerceu cargo de chefia na Assessoria Especial do Gabinete da Presidência da Câmara e, desde a gestão de Arthur Lira, era apontada como responsável pela organização das listas de distribuição de emendas parlamentares. Sua influência permaneceu sob a presidência de Hugo Motta.

O próprio Divinews já havia mostrado que Cleitinho e deputados apontaram ao STF que Tuca agia ligada a Arthur Lira, mantendo espaço relevante mesmo após a mudança de comando na Câmara.

É justamente essa posição que provoca uma pergunta inevitável: uma servidora, ainda que instalada em cargo estratégico, teria autonomia política para decidir, alterar ou facilitar a liberação de milhões de reais em emendas sem receber ordens de autoridades, líderes partidários ou parlamentares?

A questão não representa uma condenação antecipada. Porém, diante do conteúdo atribuído às mensagens e planilhas analisadas, a resposta não pode ficar restrita à afirmação de que Tuca apenas realizava tarefas técnicas.

PF fala em arranjo decisório paralelo

Na decisão relacionada a Eduardo Cunha, a investigação menciona a existência de um possível “arranjo decisório paralelo” para a destinação de recursos públicos. De acordo com os elementos citados, Tuca teria fornecido suporte operacional para escolhas e remanejamentos atribuídos ao ex-deputado.

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A expressão é grave porque sugere que decisões sobre dinheiro público poderiam ter sido tomadas fora da cadeia formal de responsabilidade. Pela regra institucional, emendas pertencem aos parlamentares, bancadas ou comissões legitimadas a indicá-las. Servidores deveriam executar procedimentos administrativos, registrar as decisões e garantir transparência, não substituir a vontade política formalmente identificada.

Se uma servidora apenas cumpria ordens, quem dava essas ordens? Se possuía autonomia, quem concedeu tamanho poder? E se as decisões eram tomadas por pessoas sem mandato, por que a estrutura administrativa da Câmara teria permitido que isso acontecesse?

Essas perguntas precisam ser respondidas pela investigação, com documentos, depoimentos, dados financeiros e identificação da origem de cada comando.

Valdemar teria indicado R$ 119 milhões

O caso ganhou dimensão ainda maior após outra decisão de Flávio Dino apontar indícios de interferência de Valdemar da Costa Neto na destinação de emendas parlamentares. A investigação atribui ao presidente do PL a indicação de pelo menos 21 emendas, que somariam aproximadamente R$ 119 milhões, apesar de ele não ocupar mandato no Congresso.

Mensagens divulgadas pela imprensa mostram referências diretas ao dirigente partidário durante tratativas sobre verbas. Em uma delas, teria aparecido a pergunta: “Fechou o valor do Valdemar?”. A PF apura se deputados tinham conhecimento das indicações e se aceitaram registrar como próprias emendas que teriam partido do presidente do partido.

A suspeita coloca no centro do debate uma distorção profunda. Presidentes partidários possuem influência política, mas não têm autoridade legal para assumir o lugar de deputados na indicação de emendas. Caso os elementos sejam confirmados, o sistema teria permitido que uma pessoa sem mandato direcionasse valores superiores aos destinados individualmente à ampla maioria dos integrantes da Câmara.

Dino determinou o bloqueio de R$ 119 milhões em bens ligados a Valdemar e a suspensão das emendas questionadas. A defesa do dirigente nega irregularidades e sustenta que a articulação política não pode ser confundida com prática criminosa.

Eduardo Cunha também aparece sem mandato

A situação atribuída a Eduardo Cunha apresenta semelhanças. O ex-deputado perdeu o mandato em 2016, mas, segundo a PF, teria continuado influenciando a distribuição de recursos parlamentares por meio de contatos e de uma estrutura interna da Câmara.

A investigação afirma que Cunha dispunha dos serviços de Tuca e de sua “liberalidade política” para intervir na definição e no remanejamento das verbas. O bloqueio de R$ 6,1 milhões foi estabelecido como medida cautelar, enquanto a apuração prossegue.

Cunha não foi condenado neste procedimento específico. O bloqueio não equivale a uma sentença final, mas indica que o ministro considerou presentes elementos suficientes para preservar valores enquanto a investigação avança.

O episódio se soma à longa crise de transparência das emendas, especialmente após o STF derrubar o chamado orçamento secreto. O modelo das emendas de relator perdeu validade, mas parte da distribuição passou a ocorrer por emendas de comissão, mecanismo que também se tornou alvo de questionamentos sobre identificação dos verdadeiros autores das indicações.

O Divinews já mostrou como negociações no Congresso envolvendo recursos e interesses políticos expõem a distância entre as decisões oficiais e os acordos feitos nos bastidores.

Por que Hugo Motta saiu em defesa de Tuca?

Outro ponto que merece atenção é a posição do presidente da Câmara, Hugo Motta. Quando Tuca foi alvo de operação da Polícia Federal, em dezembro de 2025, Motta saiu publicamente em defesa da servidora e negou irregularidades no sistema de emendas.

O presidente afirmou, na ocasião, que as indicações constituíam atos políticos e que não havia comprovação de desvio de recursos. Também ressaltou a atuação técnica da assessora.

A defesa institucional, por si só, não comprova participação de Motta em irregularidades. Contudo, provoca estranheza diante da dimensão do poder atribuído à servidora nas mensagens analisadas.

Por que o presidente da Câmara decidiu defendê-la antes da conclusão da apuração? A manifestação buscava proteger uma servidora injustamente acusada ou preservar um modelo de funcionamento cuja cadeia de comando ainda não foi completamente esclarecida?

Reportagem da CNN divulgada neste domingo informa que a PF suspeita que a Presidência da Câmara tenha dado aval a desvios relacionados às emendas. Essa hipótese ainda depende de comprovação, e Motta não é tratado como condenado.

O presidente da Câmara tem o direito de apresentar sua versão e defender a legalidade dos procedimentos internos. A mesma transparência, entretanto, exige que a Casa esclareça quais eram exatamente as atribuições de Tuca, a quem ela respondia, quem autorizava alterações nas listas e quais mecanismos de controle existiam.

Uma servidora poderia agir sozinha?

É pouco plausível imaginar que uma servidora, por mais experiente e influente que fosse, pudesse movimentar decisões envolvendo dezenas ou centenas de milhões de reais sem respaldo político superior.

A burocracia legislativa possui regras, sistemas, assinaturas, registros e níveis hierárquicos. Uma emenda não surge espontaneamente. Alguém indica, alguém autoriza, alguém registra e alguém acompanha a execução.

Por isso, concentrar toda a atenção em Tuca pode produzir uma explicação incompleta. A investigação precisa apontar quem se beneficiava, quem dava as ordens, quais parlamentares emprestavam os nomes e quem, dentro da Presidência da Câmara, tinha conhecimento das operações.

A servidora deve responder por seus próprios atos, caso fique comprovado que ultrapassou suas atribuições. Mas não pode ser transformada em ponto final de uma cadeia que, pelos próprios indícios, aparenta envolver agentes políticos com poder muito superior ao dela.

Patrimônio e fluxo financeiro precisam ser investigados com critérios legais

Diante de suspeitas sobre destinação irregular de dinheiro público, é legítimo cobrar que a Polícia Federal e os órgãos de controle examinem os fluxos financeiros dos investigados, desde que existam autorização judicial e elementos concretos.

Isso inclui verificar se houve pagamentos, vantagens indevidas, transferências suspeitas, empresas intermediárias ou enriquecimento incompatível com os rendimentos declarados. A apuração deve alcançar Tuca e outros servidores eventualmente envolvidos, mas também políticos, dirigentes partidários e pessoas sem mandato apontadas como beneficiárias ou responsáveis pelos comandos.

A pergunta sobre compatibilidade patrimonial é relevante, mas não pode virar acusação sem prova. Possuir bens não constitui crime. O ponto investigativo é saber se a evolução patrimonial corresponde aos salários, rendimentos e atividades legalmente declaradas.

Nesse sentido, a PF deveria esclarecer:

Quem ordenava as alterações nas emendas?
Quais servidores tinham acesso ao sistema?
Houve movimentação financeira entre os envolvidos?
Os bens declarados são compatíveis com os rendimentos comprovados?
Quais parlamentares assumiram formalmente indicações feitas por terceiros?
A Presidência da Câmara conhecia ou autorizava o funcionamento dessa estrutura?

Câmara precisa abrir seus registros

A Câmara dos Deputados também precisa apresentar respostas públicas. A Casa deve informar quais cargos Tuca ocupou, quais eram suas atribuições formais, quais sistemas podia acessar e quem supervisionava sua atuação.

A transparência exige ainda a divulgação das listas originais e modificadas de emendas, dos horários de alteração, dos responsáveis por cada registro e dos documentos que fundamentaram os remanejamentos.

O acompanhamento do tema também passa pelo papel institucional de Hugo Motta na Presidência da Câmara, responsável por garantir que as decisões da Casa tenham autoria identificada e rastreabilidade.

Não basta dizer que a execução financeira cabe ao Executivo. A origem da indicação também precisa ser transparente. Se um ex-deputado ou presidente partidário escolheu o destino de recursos, o Congresso deve explicar qual parlamentar assumiu formalmente a responsabilidade.

Investigação não pode parar na funcionária

O risco mais evidente é transformar Tuca em personagem única de um sistema maior. Os indícios divulgados apontam que ela teria sido uma operadora central, mas operações dessa dimensão raramente dependem de uma pessoa isolada.

Se Eduardo Cunha e Valdemar da Costa Neto, ambos sem mandato, realmente exerciam influência sobre emendas, alguém dentro do Congresso oferecia acesso, legitimidade e cobertura formal.

O foco, portanto, precisa ir além da pergunta “quem é Tuca?”. A questão decisiva é: a serviço de quem Tuca operava?

A resposta deverá indicar se houve apenas uma servidora exercendo funções administrativas, uma estrutura informal criada por antigas presidências da Câmara ou um sistema político no qual deputados cediam suas prerrogativas a dirigentes e ex-parlamentares.

Eduardo Cunha, Valdemar, Tuca e Hugo Motta têm direito ao contraditório e à presunção de inocência. Ainda assim, o interesse público exige apuração integral, sem proteção partidária e sem limitar as responsabilidades ao elo burocrático mais visível.

Quando milhões de reais em recursos públicos são direcionados por pessoas sem mandato, o surreal não está apenas no tamanho dos valores. Está na possibilidade de que o Congresso tenha criado uma estrutura em que a assinatura oficial dizia uma coisa, enquanto o verdadeiro comando vinha de outro lugar.

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