Bastidores: A estratégia de Eduardo por trás da saída de Flávio para os EUA

Declaração de Eduardo sobre a possibilidade de o irmão deixar o Brasil foi feita antes do segundo turno e acabou mencionada no episódio que levou à apreensão dos passaportes; Flávio deixou o país dias depois, apesar da proibição judicial.

Publicado por: Cassia Misael

A declaração de Eduardo Bolsonaro de que o irmão, Flávio Bolsonaro, deveria deixar o Brasil caso perdesse a eleição presidencial não teria sido apenas uma opinião sobre o futuro político do senador. Nos bastidores, aliados inicialmente consideraram a fala inoportuna e demonstraram preocupação com a possibilidade de provocar uma reação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Depois que Flávio deixou o país e chegou aos Estados Unidos, a interpretação ganhou outro sentido: a manifestação de Eduardo passou a ser vista como uma possível peça de uma estratégia para preparar a narrativa de uma saída do Brasil e, ao mesmo tempo, antecipar uma reação judicial que pudesse ser apresentada como perseguição política.

A hipótese, descrita em relatos de bastidores, sustenta que a declaração teria funcionado como uma espécie de isca retórica. A avaliação é que Eduardo teria exposto publicamente uma possibilidade que, até então, era discutida de maneira reservada no entorno do irmão, criando um argumento que posteriormente apareceu na própria fundamentação das medidas solicitadas pela Polícia Federal.

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A existência de um plano previamente combinado entre os irmãos, porém, não foi comprovada publicamente. O que os acontecimentos revelam é uma sequência que alimentou essa interpretação e colocou a atuação de Eduardo no centro das discussões sobre a saída de Flávio.

Aliados temeram reação de Moraes

A possibilidade de Flávio Bolsonaro se mudar para os Estados Unidos não surgiu apenas depois da derrota eleitoral. O assunto já era discutido no entorno do senador desde o início da campanha presidencial, em agosto, e teria sido retomado em diferentes conversas entre aliados nos meses seguintes.

Nesse contexto, a declaração de Eduardo ganhou repercussão por ter sido feita publicamente em um momento considerado delicado. Em 23 de outubro, durante participação no podcast norte-americano Louder with Crowder, o ex-deputado afirmou que apoiaria a mudança do irmão para os Estados Unidos caso ele não vencesse a eleição.

A fala provocou estranhamento entre integrantes do grupo político. A preocupação, segundo os relatos de bastidores, era que a exposição antecipada de uma possível saída do país fornecesse argumentos para que Moraes adotasse medidas contra o senador.

O desconforto também tinha relação com episódios anteriores envolvendo Eduardo e o ministro do STF. Parte dos bolsonaristas temia que o ex-deputado voltasse a criar problemas para integrantes da própria família ao adotar declarações e movimentos políticos capazes de provocar consequências judiciais.

A declaração entrou na justificativa da Polícia Federal

O receio manifestado por aliados ganhou relevância depois do resultado do segundo turno. No domingo (25), a Polícia Federal representou ao Supremo pela adoção de medidas cautelares contra Flávio, incluindo a apreensão dos passaportes e a proibição de deixar o Brasil.

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Na manifestação, a corporação apontou risco concreto de evasão. Entre os elementos considerados estavam a possibilidade de o senador sair do país e a situação de Willer Tomaz, advogado e amigo de Flávio, que também está nos Estados Unidos e é investigado no mesmo procedimento.

A declaração de Eduardo sobre a possibilidade de o irmão se mudar para o exterior caso perdesse a eleição também foi mencionada pela Polícia Federal como parte da justificativa para a avaliação de risco.

O ministro Alexandre de Moraes acolheu o pedido. Na segunda-feira (26), Flávio foi intimado a entregar seus passaportes e ficou proibido de deixar o território nacional.

Foi justamente nesse ponto que a interpretação sobre a suposta estratégia ganhou força nos bastidores: a fala que havia provocado preocupação entre aliados acabou aparecendo em um documento oficial utilizado para fundamentar a restrição de viagem.

A reação judicial virou argumento político

Após ser intimado, Flávio publicou um vídeo nas redes sociais no qual afirmou que nunca havia pensado em deixar o Brasil e que entregaria os passaportes. O senador também questionou a decisão judicial e relacionou a medida à declaração feita pelo irmão dias antes.

A manifestação criou uma contradição política que passou a alimentar o debate: Eduardo havia defendido publicamente a saída do senador, enquanto Flávio negava a intenção de deixar o país e dizia que permaneceria no Brasil para organizar a oposição.

Na leitura atribuída a interlocutores do grupo bolsonarista, a reação judicial poderia acabar sendo utilizada para reforçar o discurso de perseguição política. Assim, uma medida que tinha como justificativa o risco de evasão também poderia ser explorada politicamente pela família.

Essa é a essência da hipótese da chamada isca retórica: antecipar publicamente a possibilidade de mudança, provocar uma reação institucional e, depois, apresentar essa reação como parte de um cenário de perseguição. A interpretação, contudo, não demonstra por si só que a decisão judicial tenha sido provocada deliberadamente ou que os irmãos tenham combinado previamente esse roteiro.

Saída de Flávio deu novo sentido à declaração

Dois dias depois da manifestação em que afirmou que ficaria no Brasil, Flávio deixou o país com a esposa, Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas. A família entrou na Argentina na noite de terça-feira (27), pela Ponte Internacional Tancredo Neves, na região de Puerto Iguazú.

De acordo com informações das autoridades argentinas, o grupo cruzou a fronteira às 22h50. Em seguida, embarcou em uma aeronave particular com destino a Guayaquil, no Equador, de onde seguiu para Miami, nos Estados Unidos. O desembarque ocorreu na manhã de quarta-feira (28).

A viagem aconteceu depois do vencimento do prazo para entrega dos documentos de outras nacionalidades, determinado pela Justiça. A Polícia Federal informou que os passaportes brasileiros comum e diplomático haviam sido cancelados e que um alerta migratório tinha sido inserido no sistema de controle.

A corporação também esclareceu que não havia registro oficial da saída do senador pelos postos brasileiros de controle migratório e informou que investigaria as circunstâncias do descumprimento das determinações judiciais.

O que está comprovado e o que permanece nos bastidores

A sequência dos acontecimentos reforçou a interpretação de que a declaração de Eduardo poderia ter sido planejada para produzir efeitos políticos e jurídicos. O desconforto inicial de aliados, a inclusão da fala na representação da Polícia Federal e a posterior saída de Flávio formam os elementos que sustentam essa leitura.

Entretanto, é necessário separar os fatos documentados da interpretação política. A declaração de Eduardo foi pública; a Polícia Federal confirmou que a utilizou entre os elementos para apontar risco de evasão; Moraes determinou medidas cautelares; e Flávio deixou o Brasil apesar da proibição judicial.

Já a tese de que Eduardo teria provocado deliberadamente a reação de Moraes, articulado a saída do irmão e coordenado uma operação para despistar a Polícia Federal permanece no campo dos relatos e das interpretações de bastidores. Não há comprovação pública de que toda a sequência tenha sido previamente combinada.

O episódio, ainda assim, expõe uma possível dimensão política por trás da declaração que inicialmente causou desconforto entre aliados. O que parecia uma manifestação antecipada sobre o futuro de Flávio acabou integrado ao debate judicial sobre sua permanência no Brasil e, depois da viagem a Miami, passou a ser interpretado como parte de uma estratégia mais ampla da família Bolsonaro.

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