Aécio critica STF, chama governo Zema de “página em branco” e defende impeachment de ministro se houver crime comprovado

Em entrevista exclusiva ao Palanque Político Eleitoral Divinews, candidato ao Senado também propôs mandato de 12 anos para ministros do Supremo, atacou a polarização, falou de Lula e Bolsonaro e defendeu que Minas volte a ter protagonismo em Brasília

Publicado por: Geraldo Passos

Foi uma entrevista política, mas não apenas política, histórica.  Em pouco mais de meia hora de conversa exclusiva no Palanque  Eleitoral, quadro do portal político mais lido na região centro-oeste de Minas, nesta quarta-feira (30), em Belo Horizonte, Aécio Neves (PSDB) falou abertamente sobre sua volta à disputa pelo Senado, a dívida de Minas Gerais, o Supremo Tribunal Federal, a polarização do país, o debate entre os candidatos ao Governo de Minas e personagens como Lula, Jair Bolsonaro, Romeu Zema, Alexandre de Moraes, Cleitinho e Domingos Sávio. Mas foi quando a conversa chegou a Tancredo Neves que o ambiente ganhou outra dimensão: um espaço à memória familiar e ao peso de um personagem central da redemocratização brasileira.

A entrevista ocorreu no escritório de Aécio, em Belo Horizonte, e foi também um dos compromissos da reta final de uma disputa apertada pelas duas vagas mineiras no Senado, em um cenário totalmente indefinido. A pesquisa Quaest divulgada na terça-feira (29) mostrou Domingos Sávio com 14%, Marília Campos com 13%, Aécio Neves e Carlos Viana com 12% cada, todos dentro da margem de erro de três pontos percentuais. A RealTime Big Data havia registrado Aécio com 12%, em levantamento com margem de dois pontos. Pesquisas eleitorais retratam o momento do campo e não antecipam o resultado das urnas.

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Aécio é atualmente deputado federal por Minas Gerais e presidente nacional do PSDB, cargo que exerce desde novembro de 2025.

Mais do que a extensão dos temas, porém, um detalhe deu peso adicional à conversa: o próprio Aécio afirmou, no encerramento, que aquela seria sua última entrevista antes da eleição de domingo.

“Essa é a última entrevista que eu estou dando antes das eleições”, declarou, acrescentando que fez questão de conversar com o Divinews e destacando a independência e a atuação política do portal. Entrevista Ao VIVO com Aécio Ne…

A entrevista integra a cobertura especial do Palanque Político Eleitoral, projeto do Divinews que acompanha os principais personagens das Eleições 2026  em Minas Gerais, que solicitaram agenda ou foram convidados.

“A política como instrumento de transformação”

Logo na abertura, Aécio foi convidado a se apresentar também para uma geração mais jovem, que não acompanhou diretamente os momentos de maior projeção de sua trajetória. A resposta estabeleceu o fio condutor que ele repetiria durante praticamente toda a entrevista: a defesa de uma política menos baseada em confrontos pessoais e mais ligada a resultados.

“É alguém que acredita na política como instrumento de transformação da vida das pessoas”, disse. Em seguida, criticou aquilo que chamou de política que “prioriza o espetáculo aos resultados”.

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Aécio recuperou a própria trajetória, citou os períodos na Câmara dos Deputados, a presidência da Casa, seus dois mandatos no Governo de Minas, a passagem pelo Senado e a disputa presidencial de 2014.

Também evocou o governo Fernando Henrique Cardoso e mencionou o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, as privatizações e os primeiros programas federais de transferência de renda daquele período. Entrevista Ao VIVO com Aécio Ne…

Ao falar de Minas, reivindicou resultados de suas administrações nas áreas de infraestrutura, educação, saúde e segurança e lembrou investimentos no Centro-Oeste mineiro, inclusive em Divinópolis. Entre eles, citou o Hospital São João de Deus e o início da construção do Hospital Regional. As afirmações sobre resultados de seu governo foram apresentadas por Aécio como parte de seu balanço político e eleitoral.

A ligação com Cláudio e Divinópolis deixa a conversa mais leve

A entrevista também teve momentos longe da formalidade comum às sabatinas eleitorais. Ao falar de sua relação com o Centro-Oeste, Aécio lembrou a ligação familiar com Cláudio e as passagens por Divinópolis durante a juventude. Em tom de brincadeira, disse que em Cláudio,  nem sempre é tratado pelo sobrenome político mais conhecido. Lá eu sou Cunha”, afirmou, provocando uma conversa bem-humorada sobre a tradição dos apelidos na cidade.

O próprio candidato reconheceria, já no fim da entrevista, o clima diferente da conversa: “É bom assim, de forma descontraída essa conversa nossa.”

Foi essa combinação entre política, memória e informalidade que deu à entrevista um ritmo diferente, sem impedir perguntas sobre os temas mais duros da campanha.

Por que Aécio voltou atrás e decidiu disputar o Senado?

Um dos primeiros questionamentos foi justamente sobre a mudança de planos. Aécio havia indicado anteriormente que não pretendia disputar mandato em 2026 e que se dedicaria à presidência nacional do PSDB. Na entrevista, confirmou que mudou de rota.

“Eu realmente tinha tomado uma decisão de, depois de tantos anos consecutivos de mandato, me dedicar à presidência nacional do meu partido”, afirmou.

Segundo ele, sua volta não ocorreu apenas pelos pedidos que recebeu de aliados. Aécio classificou a candidatura como “um gesto de responsabilidade com Minas Gerais” e colocou a situação financeira do Estado no centro da justificativa para tentar retornar ao Senado.

A tese apresentada pelo tucano é de que Minas precisa utilizar sua representação no Senado para renegociar novamente as condições da dívida estadual com a União. Essa proposta não apareceu apenas na entrevista ao Divinews. Em Juiz de Fora, na semana passada, Aécio também defendeu publicamente ampliar de 30 para 50 anos o prazo para pagamento da dívida.

Dívida de Minas é apresentada como prioridade número um

Aécio disse ao Divinews que pretende articular no Senado uma espécie de “bancada dos estados devedores”, reunindo representantes de Minas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Goiás e outros estados com dificuldades semelhantes. Segundo ele, a ideia seria reunir aproximadamente 20 a 22 senadores e utilizar o peso desse bloco para negociar mudanças nas condições das dívidas estaduais com o próximo governo federal.

Aécio também propôs reduzir o impacto anual da dívida sobre as receitas mineiras e ampliar o prazo de pagamento. Durante a análise que fez do debate da Globo para o Governo de Minas, voltou ao assunto e disse defender prazo de pelo menos 50 anos e redução do comprometimento de 13% para 8%, segundo os números apresentados por ele.

É nesse ponto que ele situa uma das justificativas centrais de sua candidatura: para Aécio, Minas perdeu capacidade de protagonismo nos debates nacionais e precisa recuperar influência em Brasília. “Minas se ausentou de todos os grandes debates nacionais ao longo desses últimos anos”, afirmou.

Polarização: “o adversário virou inimigo”

Outro longo trecho foi dedicado ao ambiente político nacional. Aécio lamentou o grau de polarização e comparou o Congresso atual com períodos em que, segundo sua avaliação, havia confrontos duros entre governo e oposição, mas as divergências se concentravam mais em projetos.

Na entrevista, criticou o comportamento de parlamentares preocupados com gravações para redes sociais e utilizou a expressão “política do TikTok” para descrever parte dessa atuação.

Segundo Aécio, o problema começa quando o adversário político passa a ser tratado como alguém que precisa ser destruído. Ele disse pretender ocupar um espaço de centro e defendeu a retomada do diálogo entre diferentes correntes. “Precisamos resgatar a política do entendimento, da construção de pontes”, afirmou. Entrevista Ao VIVO com Aécio Ne…

Essa posição também aparece em sua campanha. Nesta semana, Aécio declarou que pretende oferecer uma opção de centro diante da polarização entre os campos predominantes na política nacional.

Debate da Globo: Aécio diz que faltaram ideias

O Divinews perguntou ainda sobre o debate realizado na noite anterior pela Globo Minas entre os candidatos ao Governo de Minas. Aécio disse ter assistido ao encontro e ressaltou inicialmente o respeito por todos que se dispõem a disputar uma eleição e enfrentar o contraditório.

Logo depois, fez uma avaliação crítica. “Eu considerei o debate extremamente pobre do ponto de vista das ideias”, declarou.

Foi nesse momento que novamente evocou Tancredo, lembrando uma concepção que atribui ao avô: “quem deve brigar são as ideias, não as pessoas.”  – A avaliação é de Aécio e integra sua leitura política sobre o confronto. O Divinews acompanhou a reta final da disputa pelo Governo de Minas e registrou, entre outros episódios, os embates entre Cleitinho Azevedo e Mateus Simões durante o programa.

Saúde: proposta de aumentar participação financeira da União

Ao discutir o que considera propostas estruturantes, Aécio colocou também o financiamento da saúde no centro da entrevista. Ele anunciou que pretende apresentar, caso eleito, uma Proposta de Emenda à Constituição destinada a ampliar gradualmente a participação federal no financiamento da saúde pública. Segundo Aécio, os municípios ficaram sobrecarregados com parcelas crescentes desses gastos e precisam de maior participação da União.

O candidato também citou propostas relacionadas à segurança pública, entre elas mecanismos de transferência automática de recursos federais aos estados.

STF: mandato de 12 anos para ministros e limite às decisões individuais

A entrevista ficou mais dura quando o assunto chegou ao Supremo Tribunal Federal. Aécio fez críticas à atuação atual da Corte, mas disse que sua proposta passa por uma reforma institucional. Entre as medidas defendidas estão mandatos de 12 anos para ministros do STF, idade mínima de 50 anos para ingresso na Corte e restrições mais fortes às decisões monocráticas, aquelas tomadas individualmente por um ministro.

O candidato também foi perguntado diretamente sobre eventual impeachment de ministro do Supremo. Aécio afirmou que nenhum cidadão deve estar acima da lei e disse que, caso chegasse ao Senado um processo de impeachment baseado em crime devidamente comprovado, votaria pelo afastamento.

A declaração representa a posição do candidato. A abertura e o julgamento de eventual processo contra ministro do STF dependem dos procedimentos constitucionais e regimentais próprios do Senado.

Domingos Sávio e uma história que começou no Sindicato Rural

Quando o assunto voltou para Divinópolis, Aécio lembrou Domingos Sávio (PL), também candidato ao Senado. Contou que a relação entre ambos vem de décadas e recordou uma época em que Domingos presidia o Sindicato Rural de Divinópolis e buscou ajuda para obter recursos para a estrutura da entidade.

Segundo Aécio, os dois chegaram a Brasília para buscar apoio junto ao então ministro da Agricultura, Iris Rezende. Depois disso, relembrou a trajetória de Domingos como vereador, prefeito, deputado estadual e deputado federal.

Apesar de serem adversários na disputa pelas duas vagas ao Senado, Aécio desejou publicamente boa sorte ao candidato do PL. O episódio combina com uma das mensagens que tentou transmitir ao longo da entrevista: adversários eleitorais não precisam ser inimigos pessoais.

Cleitinho esteve na casa de Aécio

A mesma lógica apareceu quando o assunto foi Cleitinho Azevedo (Republicanos). Aécio revelou que mantém relação pessoal com o senador e candidato ao Governo de Minas e confirmou que Cleitinho já esteve em sua residência.

“Esteve na minha casa, já conversamos muito sobre o futuro de Minas”, contou. A declaração ganha relevância justamente um dia depois de Cleitinho ter citado, no debate da Globo, encontros e conversas mantidos com outros atores políticos antes da campanha. Aécio afirmou ainda que, se Cleitinho for escolhido pelos eleitores para governar Minas, estará disponível para contribuir com ideias e experiência. Não se trata de uma previsão sobre o resultado, mas de uma manifestação feita pelo candidato ao Senado sobre sua relação com o republicano.

Lula e Bolsonaro entram no pingue-pongue

No final, a entrevista deixou o formato tradicional e entrou em um pingue-pongue, com nomes apresentados ao candidato para respostas rápidas. Sobre Lula, Aécio fez críticas à atual condução política e afirmou não enxergar boas perspectivas em outro mandato do petista.

Ao falar de Jair Bolsonaro, disse ter maior proximidade com ideias econômicas associadas ao bolsonarismo do que com o pensamento econômico do PT, mas criticou fortemente a condução da pandemia no governo Bolsonaro.

As duas respostas traduziram a posição que Aécio tenta ocupar na campanha: crítica ao PT e, ao mesmo tempo, distanciamento de aspectos da experiência bolsonarista.

Alexandre de Moraes, Trump e soberania

Questionado sobre Alexandre de Moraes, Aécio reconheceu o papel do ministro na defesa das instituições diante de movimentos que classificou como ameaça de ruptura, mas afirmou que as notícias e acusações mais recentes envolvendo sua atuação deveriam ser analisadas e escrutinadas pelas instituições competentes. Sobre o presidente norte-americano Donald Trump, concentrou críticas no intervencionismo dos Estados Unidos em outros países e demonstrou preocupação com os interesses norte-americanos sobre recursos estratégicos brasileiros.

Aécio citou especificamente as terras raras e defendeu que qualquer governo brasileiro preserve a soberania do país diante de interesses externos.

Sobre Zema: “uma página em branco”

A última personalidade apresentada no pingue-pongue foi Romeu Zema. A resposta de Aécio foi particularmente crítica. Chamou a passagem de Zema pelo Governo de Minas de “uma página em branco” e disse não enxergar um legado correspondente aos oito anos de administração. Ao mesmo tempo, fez questão de classificá-lo como “um homem de bem” e “um homem sério”. A avaliação sobre o legado de Zema é uma opinião política de Aécio Neves e não uma conclusão do Divinews.

E então Tancredo mudou o tom da entrevista

Havia desde o início um personagem silenciosamente presente na sala. O local escolhido pelo Divinews para posicionar a entrevista deixava ao fundo uma referência a Tancredo Neves. Quando Geraldo Passos explicou a escolha do enquadramento, Aécio interrompeu a conversa política para agradecer.

Disse que já havia concedido centenas de entrevistas naquele escritório, mas que ninguém havia escolhido aquele mesmo espaço. Em seguida, definiu o avô como sua inspiração e relacionou sua memória à liberdade democrática de cada brasileiro escolher o próprio destino.

A conversa retomaria Tancredo no encerramento. Ali, o tom ficou ainda mais pessoal. Aécio lembrou uma frase que atribui ao avô: a política exercida por quem acredita nela e deseja servir às pessoas seria “a mais nobre das atividades” de uma sociedade.

Para ele, o principal legado de Tancredo foi a política baseada em diálogo e entendimento. Foi provavelmente o momento em que a distância entre o candidato, o ex-governador, o ex-senador e o neto ficou menor.

Não houve necessidade de uma declaração grandiloquente. A lembrança de Tancredo, o cenário escolhido para a entrevista e as referências que Aécio fez repetidamente ao avô deram ao encontro um componente afetivo que atravessou a conversa.

“Essa campanha tem me feito muito bem à alma”

Nas considerações finais, Aécio voltou à campanha atual. Disse não saber qual será o resultado das urnas, falou do carinho recebido durante as viagens por Minas e afirmou que a campanha lhe fez “muito bem à alma”.

Ele também voltou a defender a ideia de recuperar o peso político de Minas em Brasília e disse que pretende colocar temas estaduais entre suas prioridades caso retorne ao Senado.

Ao final, aquela que começou como mais uma entrevista da cobertura do Palanque Político Eleitoral Divinews terminou como uma conversa em que passado e presente se encontraram: de um lado, uma eleição disputada para duas cadeiras no Senado; de outro, a memória de uma família que atravessa várias décadas da história política de Minas e do país.

Tancredo, as Diretas e os 38 dias que o Brasil acompanhou

Tancredo Neves não chegou à Presidência pelo voto direto. Em 1984, ele participou do ambiente político das Diretas Já, movimento que levou milhões de brasileiros às ruas para exigir a volta da eleição direta para presidente. A Emenda Dante de Oliveira, que permitiria esse voto, não alcançou no Congresso a quantidade necessária para aprovação. Depois da derrota da proposta, Tancredo tornou-se candidato da oposição reunida na Aliança Democrática e, em 15 de janeiro de 1985, derrotou Paulo Maluf no Colégio Eleitoral. Era ainda uma eleição indireta, mas simbolizava a passagem de um regime militar iniciado em 1964 para um governo civil.

Na noite de 14 de março, poucas horas antes da posse, Tancredo foi internado em Brasília. José Sarney assumiu interinamente em 15 de março. O país passou então a acompanhar uma longa e angustiante internação: foram 38 dias, sete cirurgias e dezenas de boletins médicos até a morte de Tancredo, em 21 de abril de 1985. Naquele período havia também preocupação com a reação da linha dura militar e com a preservação da transição institucional.

Para uma sociedade que saía de 21 anos de regime militar, Tancredo concentrou naquele momento uma parcela enorme da esperança de redemocratização. O próprio decreto presidencial que declarou luto oficial após sua morte registrou sua “participação fundamental” no processo de redemocratização e o definiu como símbolo de conciliação e união. Quarenta e um anos depois, diante dessa memória e em meio a uma nova eleição marcada por forte polarização, foi justamente a defesa do diálogo, das instituições e da política como instrumento democrático que Aécio tentou colocar como fio condutor de sua entrevista ao Divinews.

Lembrança política  que vale ouro

Ao término da gravação, o editor do Divinews recebeu de Aécio Neves não apenas um livro, mas um verdadeiro memorial sobre a vida e a trajetória política de Tancredo Neves. Em seguida, Aécio também abriu parte de seu acervo pessoal e mostrou imagens históricas que ajudam a reconstruir diferentes momentos da caminhada pública do avô e também de sua própria trajetória na política mineira e nacional, encerrando a entrevista em um clima de memória, história e forte simbolismo político.

A cobertura completa das Eleições 2026, da política mineira e do Centro-Oes

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