Vorcaro discutiu apoio de até R$ 10 milhões a projeto para levar Sérgio Leonardo à presidência da OAB, apontam mensagens analisadas pela PF

Conversas atribuídas ao dono do Banco Master e ao então diretor jurídico Luiz Rennó tratavam de apoio à pré-candidatura de Sérgio Leonardo; advogado afirma que não conhecia articulação e que não recebeu dinheiro nem utilizou aeronave do banqueiro

Publicado por: Geraldo Passos

Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e Luiz Rennó, então diretor jurídico da instituição financeira, discutiram em 2024 uma estratégia para apoiar a construção de uma candidatura do advogado Sérgio Leonardo à presidência nacional da Ordem dos Advogados do Brasil. Segundo reportagem publicada por O Globo nesta segunda-feira (28), a articulação previa apoio financeiro e operacional que poderia chegar a R$ 10 milhões, participação em disputas estaduais, viagens e até a utilização de aeronave ligada a Vorcaro. Sérgio Leonardo afirma que desconhecia o plano e nega ter recebido dinheiro ou utilizado avião do banqueiro para uma eventual candidatura.

As conversas teriam ocorrido no início de 2024, quando começavam as articulações para a eleição que definiria a direção nacional da OAB para o triênio seguinte. De acordo com o material revelado por O Globo e reproduzido por outros veículos, Rennó apresentou a Vorcaro a ideia de fortalecer politicamente Sérgio Leonardo dentro da Ordem e afirmou que o advogado necessitaria de suporte financeiro e operacional para ampliar apoio entre as seccionais estaduais. O conteúdo das mensagens está sob análise da Polícia Federal no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master.

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Plano poderia chegar a R$ 10 milhões

Nas conversas atribuídas aos dois, aparecem referências a uma operação que poderia alcançar aproximadamente R$ 10 milhões. Segundo a reportagem, a estratégia não estaria concentrada apenas na disputa nacional. O plano previa apoio a aliados em eleições estaduais da OAB como forma de construir uma base capaz de sustentar posteriormente a candidatura ao Conselho Federal.

Entre os estados citados aparecem Espírito Santo, Roraima, Piauí, Pará, Mato Grosso e Maranhão. Valores discutidos para determinadas articulações variariam entre R$ 100 mil e R$ 2 milhões, segundo o conteúdo revelado.

É importante destacar que as mensagens revelam uma articulação discutida entre os interlocutores, e não comprovação de que R$ 10 milhões tenham efetivamente sido transferidos. Não há, nas informações divulgadas até agora, demonstração de que todo o valor cogitado tenha sido desembolsado.

Disputa nacional depende de apoio nos estados

A estratégia estadual ganha relevância pelas próprias regras da Ordem. O Provimento nº 222/2023 do Conselho Federal da OAB estabelece que uma candidatura à Presidência Nacional precisa apresentar declarações de apoio de, no mínimo, seis presidentes de Conselhos Seccionais para conseguir registrar a candidatura.

Assim, conquistar influência ou alianças nas seccionais tinha importância direta para qualquer projeto nacional. As mensagens analisadas pela PF indicam justamente movimentos voltados à ampliação desse apoio em diferentes estados.

Avião de Vorcaro seria colocado à disposição

Além do dinheiro, as conversas também tratam de logística. Segundo a reportagem, a articulação incluía a possibilidade de utilização de uma aeronave de Vorcaro para deslocamentos relacionados à pré-campanha.

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Um roteiro citado nas mensagens mencionava viagens para localidades como São Luís, Porto Alegre, Vitória, Maceió, Florianópolis, Fortaleza, Campinas e Juiz de Fora. Também teria sido discutida a utilização de outra aeronave para compromissos no interior de Minas Gerais.

A reportagem também relata conversas sobre viagens internacionais destinadas à ampliação da interlocução de Sérgio Leonardo com integrantes da advocacia e do meio jurídico.

Em abril de 2024, Vorcaro teria sugerido que Rennó e Sérgio participassem de um evento realizado em Londres. Posteriormente, também foi mencionada a possibilidade de encontro em Lisboa.

Novamente, as informações disponíveis descrevem planos discutidos nas mensagens. Sérgio Leonardo afirma que não utilizou aeronave de Vorcaro para uma candidatura à presidência da Ordem.

Mensagens tratavam de forma de financiar estrutura

Outro trecho sensível da reportagem envolve a maneira pela qual o apoio financeiro seria operacionalizado. Segundo as mensagens reveladas, foi discutida a possibilidade de estabelecer um contrato de prestação de serviços envolvendo uma empresa ligada ao conglomerado Master e um novo escritório que seria criado por Rennó.

De acordo com o material divulgado, o desenho permitiria que Vorcaro não aparecesse formalmente associado à articulação. Em uma das mensagens atribuídas a Rennó, ele diz ao banqueiro que sua participação não apareceria.

Esse trecho, entretanto, não permite por si só concluir que tenha ocorrido pagamento irregular, contratação fictícia ou qualquer crime. São conversas cuja natureza e eventual execução ainda dependem da análise dos investigadores.

Sérgio Leonardo hoje atua na defesa de Vorcaro

O advogado que aparecia como possível candidato à presidência da OAB é Sérgio Leonardo, que atualmente integra a defesa de Daniel Vorcaro no Caso Master. Ele também integra a estrutura institucional da OAB. Na composição do triênio 2025-2028, Sérgio Rodrigues Leonardo aparece como representante de Minas Gerais em órgão do Conselho Federal.

Ao ser procurado sobre as mensagens, o advogado afirmou que não tinha conhecimento da articulação realizada entre Vorcaro e Rennó.

Segundo sua versão, os dois eram amigos antigos e apoiavam sua atuação institucional dentro da OAB, mas o projeto descrito nas conversas não teria saído do plano das ideias.

Leonardo também afirmou que não recebeu dinheiro nem utilizou aeronaves de Vorcaro para disputar o comando da entidade.

Sérgio Leonardo presidiu a OAB-MG antes de chegar ao Conselho Federal

Sérgio Rodrigues Leonardo já ocupava posição de destaque na estrutura da Ordem antes das articulações reveladas nas mensagens analisadas pela Polícia Federal. Ele presidiu a OAB Minas no triênio 2022-2024, período em que Gustavo Chalfun comandava a Caixa de Assistência dos Advogados de Minas Gerais, a CAAMG. A composição institucional da época registra Leonardo na presidência da seccional mineira e Chalfun à frente da Caixa.

Nas eleições da Ordem realizadas em novembro de 2024, Chalfun foi eleito presidente da OAB-MG para o triênio 2025-2027. Na mesma eleição, Sérgio Leonardo foi escolhido como um dos conselheiros federais titulares por Minas Gerais, passando a integrar o Conselho Federal da entidade, em Brasília.

É justamente nesse período de transição entre o comando da seccional mineira e a estrutura nacional que aparecem as mensagens agora analisadas pela PF. Segundo o material divulgado pela imprensa, Daniel Vorcaro e Luiz Rennó discutiram, ao longo de 2024, apoio financeiro e operacional para uma possível candidatura de Sérgio Leonardo à presidência nacional da OAB. O advogado afirma que não tinha conhecimento dessa articulação, não recebeu os recursos mencionados e não utilizou aeronave de Vorcaro para esse projeto. Portanto, o Divinews trata a pretensão à presidência nacional como uma articulação descrita nas mensagens, e não como fato admitido pelo próprio Sérgio Leonardo.

Sérgio Leonardo acabou não disputando a presidência nacional da OAB. A eleição de janeiro de 2025 terminou com a recondução de Beto Simonetti ao comando do Conselho Federal. Já no início da nova gestão, Leonardo passou a aparecer oficialmente como procurador-geral do Conselho Federal da OAB, função que exerce atualmente. Documentos e notícias oficiais da entidade confirmam sua atuação no cargo ao longo de 2025 e 2026.

Eleições da OAB tiveram forte disputa em Minas e resultado apertado em Divinópolis

A sucessão na OAB mineira em 2024 também ocorreu em ambiente de forte mobilização interna. A presidência estadual foi disputada por três chapas: a vencedora “OAB no Caminho Certo”, liderada por Gustavo Chalfun; “OAB pra Você”, de Raimundo Cândido Neto; e “OAB em suas Mãos”, de Adriano Cardoso. Chalfun venceu com 61,15% dos votos válidos.

Em Divinópolis, entretanto, os números comprovam uma disputa efetivamente apertada. Ellen Lima foi reeleita presidente da 48ª Subseção com 493 votos, ou 53,47% dos votos válidos, contra 429 votos, 46,53%, obtidos pela chapa liderada por Farlandes Guimarães. A diferença foi de apenas 64 votos.

A movimentação descrita nas mensagens ocorreu em um período de intensa articulação interna na OAB. Sérgio Leonardo encerrava seu mandato à frente da OAB-MG, Gustavo Chalfun se preparava para sucedê-lo em Minas e as chapas disputavam também o comando das subseções. Em Divinópolis, por exemplo, a diferença entre as duas chapas foi de apenas 64 votos. Nesse mesmo ambiente, segundo as mensagens analisadas pela PF, Vorcaro e Rennó discutiam formas de fortalecer uma eventual candidatura de Sérgio Leonardo ao comando nacional da entidade. O advogado nega ter conhecimento da articulação.

Ex-diretor do Master diz que projeto “não decolou”

Luiz Rennó confirmou que houve interesse na iniciativa. Ao comentar as mensagens, entretanto, afirmou que “o projeto não decolou”, indicando que a articulação não avançou até a candidatura efetiva de Sérgio Leonardo.

As próprias conversas mostram que o projeto perdeu força ao longo de 2024. Segundo o material divulgado, Vorcaro teria informado a Rennó posteriormente que havia buscado informações sobre o ambiente interno da Ordem e passado a considerar reduzidas as possibilidades de vitória do advogado.

Rennó ainda teria defendido que apoio financeiro e articulação política nos estados poderiam modificar o cenário, mas o projeto acabou não avançando.

Sérgio Leonardo não disputou eleição

Sérgio Leonardo não concorreu à presidência nacional da Ordem. A eleição ocorreu em 31 de janeiro de 2025, quando Beto Simonetti foi reeleito presidente nacional da OAB. Ele recebeu os 81 votos válidos, em chapa única, e assumiu novo mandato para o período de 2025 a 2028.

Isso também é importante para dimensionar o caso: as mensagens revelam uma tentativa de construção de uma candidatura que não chegou a se concretizar eleitoralmente.

OAB afirma que desconhecia articulação

A Ordem dos Advogados do Brasil também foi procurada sobre as revelações. Segundo a reportagem do O Globo, a OAB informou que não tinha conhecimento da articulação e ressaltou que o processo eleitoral que efetivamente ocorreu se desenvolveu em cenário diferente daquele descrito nas conversas de 2024. A direção que acabou eleita em 2025 foi encabeçada por Beto Simonetti, reconduzido por unanimidade.

Por que a Presidência da OAB desperta interesse

A presidência nacional da OAB ocupa posição de influência institucional relevante. Além da representação de uma categoria profissional com mais de um milhão de integrantes, o Conselho Federal exerce atribuições jurídicas e institucionais de alcance nacional.

A entidade, por exemplo, possui legitimidade para propor ações diretas de inconstitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal. Também participa de processos institucionais relacionados à formação de listas para determinadas vagas destinadas à advocacia em tribunais.

Nesse contexto, as mensagens chamaram a atenção dos investigadores pela discussão sobre financiamento de uma articulação destinada a ampliar influência dentro da instituição.

Isso não significa, entretanto, que a PF já tenha concluído que houve compra de influência, corrupção ou irregularidade no processo eleitoral da OAB.

Mensagens integram material mais amplo sobre Caso Master

A revelação ocorre em meio à divulgação de diferentes conversas extraídas de aparelhos vinculados a Daniel Vorcaro e analisadas pela Polícia Federal.

Nas últimas semanas, outras mensagens reveladas pela imprensa expuseram contatos mantidos pelo empresário com integrantes dos Poderes da República e pessoas próximas a autoridades, dentro das investigações que cercam o antigo Banco Master.

Por isso, cada novo diálogo precisa ser analisado separadamente, levando em consideração seu contexto, eventual execução do que foi discutido e as manifestações das pessoas mencionadas.

No caso da OAB, os elementos divulgados até agora mostram uma estratégia discutida, com estimativas de recursos, logística e articulação política interna, mas também registram que o projeto perdeu força e que Sérgio Leonardo não chegou a disputar a presidência nacional.

O que está comprovado e o que ainda depende de investigação

Juridicamente, a distinção é fundamental.

O que foi revelado pela reportagem são mensagens analisadas pela Polícia Federal nas quais Vorcaro e Rennó discutem um projeto de apoio à candidatura de Sérgio Leonardo.

Há referências a recursos, aeronaves, seccionais e estrutura de financiamento.

Por outro lado, não está demonstrado pelas informações publicadas que os R$ 10 milhões tenham sido efetivamente transferidos, que Sérgio Leonardo tenha recebido recursos ou que tenha utilizado aeronaves disponibilizadas pelo empresário.

O próprio advogado nega essas duas situações.

Também não há, até aqui, conclusão judicial estabelecendo ilegalidade na eleição nacional da OAB decorrente dessas conversas.

Essa distinção será mantida pelo Divinews no acompanhamento do caso.

Espaço aberto para manifestações

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