Uma varredura do Divinews nas prestações parciais de contas das eleições de 2026 revela que empresas constituídas poucos meses antes do início oficial da campanha aparecem entre os maiores fornecedores de candidatos ao Governo e ao Senado por Minas Gerais. Há contratos de R$ 4,8 milhões, R$ 2,25 milhões e R$ 1,685 milhão com CNPJs abertos neste ano, além de uma gráfica de Divinópolis criada no fim de julho que já aparece em nove campanhas mineiras. Os dados não demonstram, por si só, qualquer irregularidade. O cruzamento, porém, levanta perguntas objetivas sobre formação de preços, capacidade de execução, subcontratações e efetiva entrega dos serviços financiados, em grande parte, com recursos eleitorais.
Os dados utilizados nesta reportagem fazem parte da prestação parcial de contas divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral nesta terça-feira (15). Segundo o TSE, as informações abrangem a movimentação declarada pelas campanhas desde o início do período eleitoral até 8 de setembro. Os números ainda podem sofrer alterações e retificações até a prestação definitiva.
Kalil: R$ 6 milhões para duas empresas abertas em 2026
A campanha de Alexandre Kalil, candidato do PDT ao Governo de Minas, declarou R$ 4,8 milhões contratados com a All MG26 Comunicação e Estratégia SPE Ltda. O CNPJ da empresa foi aberto em 12 de junho de 2026, em São Paulo, e possui capital social declarado de R$ 10 mil. Segundo o cruzamento cadastral, a primeira despesa eleitoral apareceu 73 dias depois da constituição da empresa.
A All MG26 tem como sócias duas outras pessoas jurídicas, além de administrador registrado. A constituição recente do CNPJ, entretanto, não significa que seus responsáveis sejam estreantes no mercado de comunicação, circunstância que precisa ser considerada antes de qualquer conclusão sobre a capacidade da empresa.
Outra fornecedora de Kalil chama atenção pela proximidade entre abertura e contratação. A Sete Meio Produções Ltda. iniciou suas atividades em 31 de julho, com capital declarado de R$ 10 mil, e aparece na prestação eleitoral com R$ 1,2 milhão contratado. O primeiro gasto registrado ocorreu 19 dias depois da abertura. Seu sócio-administrador é João Claudio Rocha Costa. Registros públicos anteriores mostram atuação dele no setor audiovisual, o que afasta qualquer conclusão automática de falta de experiência apenas pela idade do CNPJ.
Somente essas duas empresas somam R$ 6 milhões em contratações declaradas pela campanha de Kalil.
Mateus Simões: R$ 3 milhões em duas SPEs abertas neste ano
Na campanha de Mateus Simões, do PSD, duas empresas de comunicação constituídas em 2026 somam R$ 3 milhões em contratos.
A 2026 Comunicação SPE Ltda., aberta em 10 de abril e com capital social declarado de R$ 10 mil, aparece com R$ 2,25 milhões. Já a D26 Comunicação SPE Ltda., fundada em 15 de junho, recebeu contratos que totalizam R$ 750 mil na prestação consultada.
Neste caso, entretanto, a idade dos CNPJs esconde uma informação relevante: os responsáveis pelas empresas possuem histórico de atuação em campanhas anteriores.
João Victor Carneiro de Rezende Renault, sócio da 2026 Comunicação, aparece em registros empresariais ligados a sociedades constituídas para comunicação em eleições de 2010, 2014, 2016, 2018, 2020, 2022 e 2024. Paulo Vasconcelos do Rosario Neto também aparece em estruturas empresariais eleitorais anteriores.
Andrea Duraes Sader, responsável pela D26, apresenta trajetória semelhante. Os registros relacionam seu nome à D14 Filmes, D18, D20, D22, D24 e agora D26 Comunicação. Ou seja, embora a pessoa jurídica atual tenha poucos meses, há histórico anterior da profissional no segmento.
Sócios de empresa de 2026 já estiveram em contrato questionado pela Justiça Eleitoral
O aprofundamento encontrou ainda um episódio do passado que precisa ser apresentado com todas as ressalvas.
João Victor Renault e Paulo Vasconcelos também integraram a Vitoriaci Comunicação 2022 SPE Ltda., contratada na campanha de Cláudio Castro ao Governo do Rio de Janeiro em 2022. Naquele pleito, a empresa recebeu contrato que passou de R$ 4,5 milhões para R$ 6,85 milhões. A Procuradoria Eleitoral questionou o reajuste, subcontratações e a comprovação de determinados serviços.
O episódio, contudo, não autoriza afirmar que houve irregularidade praticada pelos empresários. O caso chegou ao TSE e as acusações não resultaram na sanção pretendida, diante da insuficiência de prova robusta para caracterização dos gastos ilícitos apontados. Esse histórico é relevante para explicar a recorrência das SPEs eleitorais, mas não pode ser usado como prova contra as contratações de 2026.
Empresa aberta em agosto recebe R$ 250 mil da campanha de Mateus
Outro CNPJ merece esclarecimento específico. A MF Estratégia e Assessoria Ltda. foi aberta em Belo Horizonte no dia 13 de agosto de 2026, com capital social declarado de R$ 5 mil. A empresa tem Matheus Souza Fonseca como único sócio-administrador e aparece na prestação da campanha de Mateus Simões com R$ 250 mil classificados como serviços prestados por terceiros.
Quatro dias depois da abertura da empresa, em 17 de agosto, um servidor estadual chamado Matheus Souza Fonseca foi exonerado, a pedido, de cargo comissionado DAD-12 da Secretaria de Estado de Comunicação Social de Minas Gerais. O ato foi publicado no Diário Oficial de 18 de agosto.
Documentos oficiais anteriores do Governo de Minas também registram um servidor de nome Matheus Souza Fonseca como assessor especial do vice-governador, função exercida quando Mateus Simões ocupava o cargo.
Há, porém, uma cautela indispensável: os dados públicos do CNPJ consultados pela reportagem não apresentam informação suficiente para confirmar de forma independente que o empresário e o ex-servidor são a mesma pessoa. A coincidência exata de nome e a proximidade das datas justificam esclarecimento, não uma conclusão.
Também será necessário identificar a data exata da contratação eleitoral. A abertura da empresa ocorreu em 13 de agosto e a exoneração do servidor homônimo passou a valer no dia 17. Os dados analisados até agora não permitem afirmar se o contrato de R$ 250 mil foi firmado antes ou depois do desligamento do Estado.
Patrus contratou empresa aberta em janeiro por R$ 1,685 milhão
Na campanha de Patrus Ananias, do PT, a Okan Comunicação Ltda. aparece como principal fornecedora, com R$ 1,685 milhão em produção de programas de rádio, televisão ou vídeo. O valor corresponde a uma parcela expressiva dos gastos já declarados pela candidatura.
A Okan foi constituída em janeiro de 2026. Sua responsável, Clarissa de Resende e Silva Damas Xavier Colares, entretanto, possui experiência anterior na área de comunicação: ato oficial do Governo de Minas registra que ela exerceu a chefia da Assessoria de Comunicação Social da Secretaria de Estado de Casa Civil em 2023 e foi exonerada do cargo em janeiro de 2024.
Assim como nas demais empresas, o fato de o CNPJ ter sido criado no ano eleitoral não constitui indício suficiente de irregularidade.
Em Divinópolis, gráfica aberta em julho já aparece em nove campanhas
O cruzamento encontrou um caso diretamente ligado ao Centro-Oeste de Minas.
A V.U. Pereira Impressão e Sinalização Digital Ltda., nome fantasia Fox Sinalização e Impressão Digital, tem sede em Divinópolis e foi aberta em 29 de julho de 2026. Registros cruzados com a prestação eleitoral apontam que o CNPJ já soma aproximadamente R$ 878,7 mil em contratações com nove candidaturas mineiras.
O maior volume aparece na campanha de Domingos Sávio, candidato do PL ao Senado: R$ 506.020. Na campanha de Cleitinho Azevedo, candidato do Republicanos ao Governo de Minas, são R$ 198.200. O levantamento ainda identifica contratos com Têko-Wirley Reis, Flávio Roscoe, Euzebio Lago, Josafá Anderson, Dr. Marcos Vinicius, Farley Frederico e Cleber Corrêa da TV.
O CNPJ foi aberto apenas semanas antes dos primeiros registros eleitorais. Isso não demonstra irregularidade. Para avaliar os preços e a capacidade de execução, seria necessário conhecer quantidades, dimensões, tipos de material, gramatura, acabamento, estrutura gráfica própria, equipamentos empregados e eventual terceirização da produção.
Esse ponto é particularmente importante porque comparar apenas os valores totais pagos por campanhas diferentes pode produzir uma conclusão enganosa. R$ 100 mil em material gráfico podem significar produtos e quantidades completamente diferentes de outro contrato do mesmo valor.
Fornecedor de Carlos Viana também recebeu dinheiro da cota parlamentar
Na campanha do senador Carlos Viana, candidato à reeleição pelo PSD, a D.M.M. Silva Ltda. aparece entre os fornecedores de maior valor, com aproximadamente R$ 1,272 milhão declarado na campanha. O cruzamento encontrou o mesmo CNPJ em despesas anteriores do mandato parlamentar.
Dados oficiais do Senado mostram pagamentos à D.M.M. Silva de R$ 20.636 referentes a fevereiro, outros R$ 20 mil referentes a março e R$ 10 mil referentes a maio de 2026, antes ou no período que antecedeu a campanha.
Não existe impedimento automático para uma empresa prestar serviços tanto ao mandato quanto posteriormente à campanha eleitoral. A questão relevante para fiscalização é outra: os objetos, equipes, períodos, conteúdos produzidos e entregas financiadas pela cota parlamentar foram claramente separados dos serviços pagos pela campanha?
É essa documentação que permite afastar qualquer possibilidade de sobreposição de despesas custeadas por fontes públicas distintas.
Avião de R$ 1,58 milhão também entra no radar
Além das empresas de comunicação, a campanha de Mateus Simões declarou R$ 1.588.260 com a Líder Táxi Aéreo/Air Brasil, na categoria transporte ou deslocamento. O gasto aparece como o segundo maior fornecedor da campanha na prestação consultada.
Já Patrus Ananias declarou R$ 825 mil com a Helic Fly Táxi e Serviços Aéreos Especializados. Curiosamente, no sistema consultado, a despesa aparece classificada como “locação/cessão de bens móveis, exceto veículos”.
A diferença de valores não permite afirmar que uma campanha pagou mais caro que outra. Uma comparação tecnicamente válida exige conhecer modelo das aeronaves, número de horas de voo, rotas, disponibilidade exclusiva, tripulação e demais serviços incluídos.
Contrato milionário não é irregular apenas porque empresa tem capital pequeno
Um dos contrastes que mais chama atenção no levantamento é a diferença entre alguns capitais sociais declarados e os contratos eleitorais. A All MG26, por exemplo, tem capital de R$ 10 mil e contrato de R$ 4,8 milhões. A 2026 Comunicação também declara capital de R$ 10 mil e possui R$ 2,25 milhões contratados pela campanha de Mateus. A MF Estratégia tem capital de R$ 5 mil e contrato de R$ 250 mil.
Essa comparação, contudo, não pode ser tratada como prova de incapacidade econômica, superfaturamento ou irregularidade. Capital social não corresponde necessariamente ao faturamento, patrimônio, crédito, equipe ou capacidade operacional de uma empresa.
O que a legislação eleitoral exige é a comprovação adequada dos gastos. A jurisprudência do próprio TSE estabelece que, havendo dúvida sobre a execução do objeto contratado, a Justiça Eleitoral pode exigir documentos complementares, relatórios, contratos, comprovantes de entrega e outros elementos capazes de demonstrar que o produto ou serviço foi efetivamente executado.
É exatamente aí que se encontra a próxima etapa desta apuração.
Os números públicos permitem identificar contratos e fornecedores. Para saber se os preços guardam correspondência com o mercado e se os serviços foram integralmente executados, será necessário analisar contratos, notas fiscais, relatórios de produção, comprovantes de entrega, subcontratações e, no caso das aeronaves, horas efetivamente voadas.
O Divinews mantém aberto o espaço para manifestação de todos os candidatos, campanhas, empresas e pessoas citadas nesta reportagem. Caso sejam apresentados esclarecimentos, documentos ou informações adicionais sobre as contratações e despesas mencionadas, o conteúdo será atualizado para incorporar as respectivas manifestações e, se necessário, corrigir ou complementar os dados publicados.
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