Militância de rua, gráficas, publicidade digital, consultorias e até táxi aéreo já movimentam cifras milionárias nas campanhas a deputado federal em Minas Gerais. Um levantamento do Divinews sobre as prestações parciais disponibilizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral mostra que, no recorte analisado, a campanha de Delegada Ione (PL) já declarou R$ 3,127 milhões em despesas, praticamente todo o teto permitido para o cargo. O maior bloco de gastos encontrado também aparece nessa candidatura: R$ 2,157 milhões destinados a atividades de militância e mobilização de rua. Em outras campanhas, chamam atenção R$ 675,9 mil contratados para impulsionamento digital por Pedro Rousseff, R$ 708,3 mil concentrados pela campanha de Rogério Correia em uma empresa gráfica e R$ 149,8 mil declarados por Greyce Elias para uma empresa de táxi aéreo.
O TSE abriu ao público nesta terça-feira (15) as prestações parciais das Eleições 2026. Os dados abrangem receitas, despesas e movimentações realizadas desde o início da campanha até 8 de setembro. As candidaturas ainda podem apresentar novos lançamentos e retificações até a prestação final, por isso os números representam uma fotografia parcial da campanha.
O teto de gastos para deputado federal em Minas Gerais chega a R$ 3.176.573. No recorte examinado pelo Divinews, Delegada Ione já alcançou 98,5% desse limite, com R$ 3.127.763 declarados.
Candidato Despesa em destaque Valor
Delegada Ione Militância e mobilização de rua R$ 2.157.381
Paulo Filho da Fundação Despesas com pessoal R$ 1.166.730
Rogério Correia Alicerce Editora R$ 708.300
Pedro Rousseff Impulsionamento no Facebook R$ 675.900
Padre João EGL Editores Gráficos R$ 654.659
Eros Biondini GMP Publicidade e Serviços Gráficos R$ 602.432
Nikolas Ferreira Material impresso R$ 586.595
Leonardo Monteiro Gráfica e Editora Mais Qualidade R$ 458.722,95
Greyce Elias Vowe Air Mobility R$ 149.850
Os valores correspondem às declarações eleitorais analisadas e não significam, isoladamente, irregularidade. Em alguns casos, o sistema registra despesa contratada, ainda que a campanha não tenha realizado integralmente o pagamento.
Delegada Ione: R$ 2,15 milhões somente com militância
A campanha de Delegada Ione apresenta a maior despesa total encontrada nesta etapa da apuração. Ela declarou R$ 3.127.763, diante de R$ 2.594.787 em receitas registradas naquele retrato da prestação.
O que mais chama atenção está na composição. A campanha destinou R$ 2.157.381 para atividades de militância e mobilização de rua, distribuídos em 315 lançamentos. Essa categoria representa aproximadamente 69% de todo o gasto declarado. Material impresso consumiu outros R$ 452.022, e serviços prestados por terceiros chegaram a R$ 263.681.
A Direção Nacional do PL aparece como principal fonte de recursos da campanha, com R$ 2,59 milhões.
A dimensão das despesas com militância abre uma linha objetiva de fiscalização: contratos desse tipo permitem verificar quem trabalhou, qual atividade desempenhou, durante quanto tempo, em quais municípios e por qual remuneração.
Paulo Filho: mais de R$ 1,1 milhão com pessoal
Outra cifra expressiva aparece na campanha de Paulo Filho da Fundação (PSD).
Na prestação parcial consultada pelo Divinews, os gastos chegaram a R$ 2.632.019, e R$ 1.166.730 foram destinados a despesas com pessoal, divididas em 259 lançamentos. Material impresso consumiu R$ 463.794, enquanto locação de veículos chegou a R$ 353.590. As despesas postais somaram R$ 338.791.
A EGL Editores Gráficos Ltda. aparece entre seus principais fornecedores, com R$ 390.306 em material impresso.
A campanha, portanto, montou uma estrutura fortemente baseada em mão de obra, veículos, correios e material físico, estratégia bastante diferente daquela adotada por campanhas que concentram dinheiro no ambiente digital.
Pedro Rousseff coloca R$ 675,9 mil no impulsionamento
Se Ione chama atenção pela militância, Pedro Rousseff (PT) se destaca no digital.
A prestação parcial registra R$ 675.900 destinados ao Facebook Serviços Online do Brasil, em um único lançamento para impulsionamento de conteúdo. O valor corresponde a 61% das despesas registradas naquele recorte da campanha.
Para dimensionar: Nikolas Ferreira declarou R$ 123 mil em impulsionamento, além de outros gastos com comunicação.
Pedro, portanto, contratou para essa finalidade um valor mais de cinco vezes superior ao registrado por Nikolas.
O dado não significa que toda essa quantia já tenha virado anúncios efetivamente exibidos. Créditos de impulsionamento podem ser contratados antecipadamente, e eventual saldo não utilizado precisa entrar no ajuste posterior das contas.
Ainda assim, a cifra coloca a estratégia digital entre os pontos que merecem acompanhamento até a prestação final.
Rogério Correia e uma gráfica acima dos R$ 700 mil
No material gráfico, aparece uma das maiores concentrações encontradas pelo Divinews.
A campanha de Rogério Correia (PT) declarou R$ 618.590 em publicidade por materiais impressos e R$ 89.710 em adesivos. A Alicerce Editora Ltda. aparece com R$ 708.300 entre os contratos registrados na base consultada.
Para saber se o preço está ou não dentro do mercado, uma comparação séria precisa sair do valor bruto e chegar ao produto: quantidade de santinhos, tamanho, gramatura, acabamento, tiragem e valor por milheiro.
É justamente esse cruzamento que o Divinews pretende aprofundar.
Padre João: R$ 654 mil para EGL
Padre João (PT) declarou R$ 1.694.004 em despesas.
Material impresso representou R$ 562.194, enquanto pessoal consumiu R$ 485.346 e militância, R$ 316.512. A EGL Editores Gráficos aparece como principal fornecedora, com R$ 654.659 em 67 lançamentos.
A concentração nessa empresa ganha relevância para a investigação comparativa porque a própria EGL também aparece nas contas de outros candidatos.
O cruzamento pode responder uma pergunta concreta: candidatos que compraram materiais semelhantes da mesma gráfica pagaram preços equivalentes?
Eros Biondini concentra R$ 602 mil em uma empresa gráfica
Na campanha de Eros Biondini (PL), a GMP Publicidade e Serviços Gráficos Ltda. concentra R$ 602.432 em 67 lançamentos.
Esse montante corresponde a 78,3% das despesas contratadas com pessoas jurídicas cobertas pela base analisada.
A GMP começou suas atividades em 2025 e rapidamente conquistou espaço nas eleições de 2026. A empresa aparece em 17 candidaturas localizadas pela base e soma aproximadamente R$ 1,795 milhão em contratos eleitorais, incluindo R$ 265.208 com Junynho Martins e R$ 153.380 com Chiara Biondini, candidata a deputada estadual.
O fato de uma empresa nova acumular contratos elevados não demonstra irregularidade. Ele permite, entretanto, comparar produtos, preços, capacidade produtiva e entregas.
Nikolas investe quase R$ 600 mil em material impresso
Apesar de ter construído forte presença nas redes sociais, Nikolas Ferreira (PL) colocou a maior parcela da despesa declarada em uma ferramenta tradicional: papel.
Dos R$ 1.231.692 registrados, R$ 586.595 foram para materiais impressos, equivalentes a 48% da campanha. Serviços prestados por terceiros somaram R$ 331.124, e impulsionamento chegou a R$ 123 mil.
A Viniltec Sinalização Gráfica Ltda. recebeu R$ 457.983 e aparece como principal fornecedora. A Araujo & Pereira Araujo Ltda. surge com R$ 175 mil em serviços de terceiros, enquanto a Gráfica Pampulha aparece com R$ 132.455.
Leonardo Monteiro: quase R$ 1 milhão entre impressos e adesivos
A estrutura de comunicação de Leonardo Monteiro (PT) também chama atenção pela concentração em material físico.
Sua campanha declarou R$ 538.676 em materiais impressos e R$ 421.478 em adesivos. Juntas, as duas categorias chegam a aproximadamente R$ 960 mil.
A Gráfica e Editora Mais Qualidade Ltda. aparece com R$ 458.722,95 em despesas contratadas. A empresa, sediada em Governador Valadares, abriu em 2026.
A idade da empresa, sozinha, nada prova. A documentação pode esclarecer rapidamente a questão: tiragem, maquinário, produção própria ou terceirizada, datas de entrega e preço de cada item.
Greyce Elias: quase R$ 150 mil em táxi aéreo
Outro ponto bastante diferente dos demais aparece na campanha de Greyce Elias (PL).
A candidata declarou R$ 149.850 para a Vowe Air Mobility Ltda., empresa ligada a transporte aéreo. A despesa aparece na categoria de transporte e deslocamento.
Na atualização mais recente localizada pelo Divinews, a campanha também declarou R$ 200 mil para a Pollis Agência Ltda. em serviços prestados por terceiros.
Para investigar o gasto aéreo, não basta comparar R$ 149,8 mil com o valor de outro candidato. O contrato precisa mostrar aeronave, tempo de voo, quantidade de deslocamentos, datas e itinerários.
Com esses elementos, será possível calcular quanto cada campanha pagou por hora ou por trecho.
O maior gasto mostra como as campanhas fazem escolhas diferentes
O levantamento revela campanhas que apostam em estratégias quase opostas.
Delegada Ione concentra dinheiro em militância e mobilização, Paulo Filho em pessoal, Pedro Rousseff em impulsionamento, Rogério Correia e Padre João em gráficas, Nikolas Ferreira em material impresso, enquanto Greyce Elias apresenta um gasto significativo em deslocamento aéreo.
E é justamente essa diversidade que abre espaço para a próxima fase da investigação.
O valor mais alto entre as categorias encontradas permanece com a campanha de Delegada Ione: R$ 2,157 milhões em militância e mobilização de rua.
Já entre fornecedores empresariais destacados neste levantamento, a Alicerce Editora, ligada à campanha de Rogério Correia, aparece com aproximadamente R$ 708,3 mil.
No universo digital analisado, Pedro Rousseff registra R$ 675,9 mil para impulsionamento.
O que o Divinews vai procurar agora
A segunda etapa precisa confrontar preços unitários, e não apenas números globais.
No material gráfico, a investigação deve comparar quanto diferentes candidatos pagaram pelo mesmo tipo de santinho, adesivo ou banner.
Na aviação, deve comparar preço por hora, aeronave e trajeto.
Nas consultorias, precisa verificar escopo, profissionais envolvidos, duração do contrato e produtos entregues.
Na militância, é necessário conferir número de pessoas, função, município, período de trabalho e remuneração.
No impulsionamento, o caminho passa pelo cruzamento das contas eleitorais com a biblioteca pública de anúncios da Meta.
Essa checagem poderá mostrar que diferenças aparentemente enormes possuem explicações comerciais. Também poderá revelar preços incompatíveis entre serviços equivalentes.
Por enquanto, os dados analisados não demonstram superfaturamento, fraude ou qualquer irregularidade por parte dos candidatos ou empresas citados. Eles mostram onde o dinheiro está concentrado e quais despesas oferecem parâmetros objetivos para uma investigação documental mais profunda.
E, em campanha eleitoral, seguir o dinheiro costuma ser uma das formas mais eficientes de entender como as estruturas políticas funcionam.



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