Lula chama caso Banco Master de “maior roubo da história do Brasil” e critica vazamentos seletivos

Em primeira manifestação sobre a crise no Supremo, presidente defende código de ética para Judiciário e Ministério Público; declaração integra vídeo que será exibido nesta sexta-feira (4)

Publicado por: Cassia Misael

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) rompeu o silêncio nesta quinta-feira (3) sobre a crise provocada pelos desdobramentos do caso Banco Master e classificou o escândalo como o “maior roubo da história do Brasil”. Em sua primeira manifestação pública desde que novas revelações atingiram integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), Lula criticou os chamados “vazamentos seletivos”, cobrou investigação de todos os envolvidos, “sem blindagem de ninguém”, e defendeu mudanças profundas no sistema político e Judiciário brasileiro.

A declaração ocorre em um dos momentos mais delicados da crise envolvendo o Banco Master. Nos últimos dias, a divulgação de informações de um relatório da Polícia Federal ampliou a tensão dentro do Supremo e colocou no centro das discussões a atuação dos ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.

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Apesar do contexto, Lula evitou mencionar nominalmente os ministros envolvidos na disputa. O presidente adotou um discurso institucional, direcionando sua cobrança às investigações e ao funcionamento das instituições.

Ao abordar diretamente a dimensão do caso Master, Lula fez uma das declarações mais contundentes desde o início das investigações.

“O escândalo do Banco Master é o maior roubo da história do Brasil”, afirmou.

O presidente também sustentou que milhões de pessoas, além de estados e municípios, teriam sido atingidos pelo esquema e ressaltou as relações mantidas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro com pessoas influentes. Lula destacou ainda que Vorcaro foi preso e o Banco Master fechado durante seu governo.

“Sem blindagem de ninguém”

Além de classificar a dimensão do escândalo, Lula defendeu que as investigações avancem independentemente de quem seja atingido.

Para o presidente, qualquer suspeita relacionada a políticos ou agentes públicos precisa ser esclarecida. “É fundamental que se investigue todo mundo sem blindagem de ninguém, doa a quem doer”, declarou.

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A frase amplia o alcance político do pronunciamento. Ao mesmo tempo em que Lula criticou a divulgação seletiva de informações, o presidente deixou explícito que sua posição não é pela interrupção das investigações, mas pela apuração integral dos fatos.

A manifestação ocorre justamente quando o debate dentro e fora do Supremo passou a envolver duas questões distintas: de um lado, o conteúdo das informações encontradas pela Polícia Federal; de outro, a legalidade dos procedimentos adotados para produzir, analisar e divulgar elementos relacionados a autoridades com foro no STF.

Lula critica “vazamentos seletivos”

Outro ponto central da manifestação foi a crítica à divulgação fragmentada de informações produzidas no decorrer das investigações. “Nossa democracia não pode ficar refém de vazamentos seletivos”, afirmou Lula.

A declaração surge depois de dias de forte repercussão política provocada pela divulgação de informações do relatório da Polícia Federal relacionado a Daniel Vorcaro.

Parte desse material colocou Alexandre de Moraes no centro das discussões após a identificação de mensagens encaminhadas pelo ex-banqueiro a um contato associado ao ministro. A existência das mensagens e os procedimentos adotados em torno desse material passaram a alimentar uma forte divergência institucional.

Lula, entretanto, não entrou no mérito específico das condutas atribuídas a Moraes ou das decisões tomadas pelo relator André Mendonça.

Presidente cobra STF e PGR

O pronunciamento também colocou responsabilidade diretamente sobre a cúpula do Supremo Tribunal Federal e da Procuradoria-Geral da República. Lula afirmou esperar que o comando da Suprema Corte e a PGR conduzam um processo capaz de assegurar a integridade e a confiança nas investigações.

A cobrança ocorre no momento em que Edson Fachin, presidente do STF, está diante de uma crise que deixou de envolver apenas o conteúdo da investigação sobre o Banco Master e passou a alcançar a própria relação entre integrantes da Corte.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também passou a ocupar posição central nas discussões jurídicas relacionadas aos procedimentos adotados durante a investigação. Para Lula, a sociedade precisa ter acesso às respostas sobre o que efetivamente ocorreu. “O povo brasileiro tem o direito de saber a verdade”, declarou o presidente.

Código de ética e “reformas profundas”

Lula foi além da discussão específica sobre o Banco Master e defendeu mudanças estruturais nas instituições. Segundo o presidente, o episódio evidencia a necessidade de reformas no sistema político e Judiciário.

“Fica claro que o nosso sistema político e judiciário precisam de reformas profundas”, afirmou. Entre as mudanças defendidas pelo presidente está a adoção de um código de ética para integrantes do Judiciário e do Ministério Público.

A discussão sobre regras de conduta ganhou força diante dos sucessivos episódios envolvendo relações entre autoridades públicas e personagens investigados no caso Master. A proposta, contudo, ainda dependeria de uma discussão institucional e jurídica sobre sua forma, alcance, mecanismos de fiscalização e eventual responsabilização.

Crise aumentou após relatório da Polícia Federal

A manifestação de Lula acontece após uma sequência de acontecimentos que aprofundaram a crise. Na terça-feira (1º), André Mendonça retirou o sigilo de relatório produzido pela Polícia Federal envolvendo informações obtidas nas investigações relacionadas a Daniel Vorcaro.

O material revelou registros de contatos e mensagens envolvendo o ex-banqueiro e pessoas poderosas, aumentando a repercussão política do caso. Entre os pontos que ganharam maior atenção estão mensagens encaminhadas por Vorcaro a um contato associado a Alexandre de Moraes.

A divulgação provocou questionamentos sobre o conteúdo das comunicações, mas também sobre a forma como as informações relacionadas a um ministro do Supremo foram obtidas, tratadas e posteriormente divulgadas. O episódio aprofundou a divergência entre Moraes e Mendonça.

Moraes pede investigação contra Mendonça

A crise chegou a um novo patamar nesta quinta-feira (3). Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente do Supremo, Edson Fachin, um pedido para que seja investigada a atuação de André Mendonça na condução das operações Sem Desconto e Compliance Zero.

Na manifestação, Moraes apontou o que classificou como “fortes indícios” de possíveis irregularidades e questionou procedimentos adotados pelo relator. Entre os pontos levantados estão alegações de interferência na condução de investigações policiais, problemas relacionados à cadeia de custódia de elementos probatórios, irregularidades em tratativas envolvendo eventual colaboração premiada e possível direcionamento de alvos.

As alegações apresentadas por Moraes constituem acusações que ainda dependem de análise e eventual apuração. O pedido de investigação não significa que Mendonça tenha cometido os atos apontados.

Cármen Lúcia manifesta solidariedade a Moraes

 

Outro movimento ocorreu nos bastidores do Supremo. A ministra Cármen Lúcia procurou Alexandre de Moraes e manifestou solidariedade diante da exposição sofrida pelo colega após a divulgação das informações relacionadas ao relatório da Polícia Federal.

O gesto, entretanto, não representa antecipação de eventual voto da ministra caso as questões relacionadas à crise sejam submetidas formalmente ao plenário.

A movimentação demonstra como o caso Banco Master ultrapassou os limites de uma investigação financeira e passou a produzir consequências institucionais dentro do próprio Supremo.

Lula já conversava com ministros sobre a crise

Antes de se manifestar publicamente, Lula já havia tratado da situação em conversas reservadas. Na terça-feira (1º), o presidente conversou com Edson Fachin e também recebeu o ministro Gilmar Mendes. As conversas ocorreram enquanto aumentava a tensão entre o gabinete de André Mendonça e a direção da Polícia Federal.

A manifestação pública desta quinta-feira, portanto, acontece depois de o presidente acompanhar os acontecimentos e discutir a situação com integrantes da Corte. Mesmo assim, Lula optou por não defender publicamente Moraes nem atacar Mendonça.

Ao escolher falar em investigação de todos, ausência de blindagem, combate aos vazamentos seletivos e necessidade de transparência, o presidente buscou posicionar o Palácio do Planalto institucionalmente diante de uma crise que já alcança STF, PGR e Polícia Federal.

Crise agora ultrapassa os limites do Supremo

O caso Banco Master transformou-se em um problema que envolve diferentes instituições do Estado brasileiro. Além dos ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, os desdobramentos alcançam o presidente do STF, Edson Fachin; o procurador-geral da República, Paulo Gonet; e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. A entrada pública do presidente da República no debate acrescenta mais um componente político à crise.

Lula, entretanto, tentou estabelecer uma linha dupla em seu pronunciamento: rejeitou o que chamou de vazamentos seletivos, mas, simultaneamente, cobrou que nenhuma autoridade ou pessoa investigada seja protegida.

O presidente também colocou o debate sobre ética institucional no centro da discussão ao defender reformas e um código de conduta para o Judiciário e o Ministério Público.

Com a escalada dos acontecimentos e o confronto institucional entre integrantes do próprio Supremo, as próximas decisões de Edson Fachin e os posicionamentos da Procuradoria-Geral da República serão determinantes para definir como a crise será conduzida. Por enquanto, o pronunciamento de Lula sinaliza que o Palácio do Planalto não pretende tratar o episódio como uma disputa restrita aos bastidores do STF.

Ao cobrar investigação “sem blindagem de ninguém” e afirmar que o povo brasileiro tem direito de conhecer a verdade, o presidente coloca publicamente sobre as instituições a responsabilidade de esclarecer tanto as suspeitas envolvendo o Banco Master quanto as controvérsias surgidas durante a própria condução das investigações.

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