Exclusiva: Diárias de viagens de São Sebastião do Oeste explodem e população cobra explicações

Registros oficiais apontam R$ 109.540,00 em diárias e passagens, com R$ 39.400,00 no Gabinete do Prefeito e cobranças por transparência.

Publicado por: Geraldo Passos

Os gastos com diárias e passagens da Prefeitura de São Sebastião do Oeste entraram no centro de uma cobrança pública que cresce entre moradores. Em um município com população estimada em 9.527 pessoas em 2025, segundo o IBGE, os valores lançados no Portal da Transparência chamaram atenção pelo volume, pela concentração no alto escalão e pela necessidade de explicações detalhadas à sociedade.

A discussão ganhou força após moradores analisarem registros de despesas com diárias entre 01/01/2025 e 05/09/2025. Nesse período, os documentos apontam total de R$ 109.540,00 pagos pela entidade municipal com diárias e passagens. Desse montante, R$ 39.400,00 aparecem vinculados ao Gabinete do Prefeito, enquanto R$ 18.650,00 constam em nome do prefeito Romulo Roncally Beirigo.

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Além disso, os lançamentos mostram pagamentos de R$ 4.000,00 em 11/04/2025, R$ 5.000,00 em 10/06/2025 e R$ 4.000,00 em 29/07/2025 ao prefeito. Também aparecem quatro pagamentos de R$ 300,00 no mesmo dia, 12/05/2025, o que ampliou a dúvida popular sobre a forma de lançamento, a finalidade de cada diária e a compatibilidade dos valores com o decreto municipal.

A principal cobrança não se limita ao fato de agentes públicos viajarem. Prefeitos, secretários e servidores podem se deslocar em missão oficial, buscar recursos, participar de reuniões, cursos, audiências e agendas administrativas. No entanto, quando os valores atingem patamares altos em uma cidade pequena, a transparência precisa acompanhar cada centavo com clareza, justificativa, destino, relatório e resultado prático para o município.

O próprio decreto municipal que regulamenta as diárias estabelece valores objetivos. Para o prefeito, a diária para o Distrito Federal aparece em R$ 1.500,00. Para outros estados, o valor consta em R$ 1.000,00. Para a capital de Minas Gerais e Região Metropolitana, os valores variam entre R$ 550,00 com pernoite e R$ 350,00 sem pernoite. Para municípios mineiros até 100 km da sede, o decreto fixa R$ 260,00 com pernoite e R$ 150,00 sem pernoite.

Por isso, os pagamentos de R$ 4.000,00 e R$ 5.000,00 exigem explicação pública mais robusta. A população quer saber se esses valores representam várias diárias agrupadas, se correspondem a viagens de vários dias, se houve prestação de contas posterior, se existiram devoluções, se os relatórios constam de forma acessível e se o lançamento respeitou integralmente os critérios previstos na norma municipal.

A situação também provoca questionamentos porque moradores relatam deslocamentos para cidades próximas e cursos em municípios da região. Em registros apresentados pela própria página de transparência, há diárias para deslocamentos a Divinópolis, inclusive valores menores, como R$ 80,00 e R$ 100,00, em nome de servidores ligados à saúde. Outros lançamentos, porém, aparecem com valores mais expressivos para integrantes do alto escalão, o que reforça a cobrança por critérios uniformes e compreensíveis.

A indignação popular cresce porque São Sebastião do Oeste não possui a estrutura orçamentária de grandes cidades. Em municípios menores, qualquer gasto público chama mais atenção, sobretudo quando a população enfrenta demandas em saúde, medicamentos, transporte, infraestrutura rural, estradas, educação e atendimento básico. Portanto, a comparação entre a realidade local e o volume das diárias se tornou inevitável.

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Moradores ouvidos pela reportagem afirmam que não são contra viagens oficiais. Entretanto, cobram explicações sobre a real necessidade, a finalidade e o retorno concreto dessas agendas. Um cidadão resumiu o sentimento que circula nas redes: “O dinheiro público é do povo. E o povo tem o direito de fiscalizar e cobrar explicações.”

Outro ponto que alimenta a polêmica envolve a postura política do prefeito antes de assumir o Executivo. Peças que circulam nas redes relembram que, quando exercia mandato de vereador, Romulo Roncally teria criticado o uso de diárias e defendido maior rigor com o dinheiro público. Agora, como prefeito, os próprios dados oficiais mostram o gabinete no topo dos gastos, o que abre espaço para uma cobrança política direta sobre coerência, transparência e mudança de discurso.

Ainda assim, os documentos analisados não permitem afirmar, por si só, que houve irregularidade. A existência de pagamentos no Portal da Transparência indica despesa registrada. Porém, a dúvida legítima surge quando os valores parecem destoar dos parâmetros do decreto e quando o cidadão não encontra, de maneira simples, a explicação completa sobre destino, agenda, quantidade de dias, justificativa e comprovação do interesse público.

A Prefeitura precisa responder perguntas objetivas. Quais viagens geraram os pagamentos de R$ 4.000,00 e R$ 5.000,00? Quantas diárias cada valor representa? Houve pernoite? Qual destino? Qual agenda oficial ocorreu? Houve relatório de viagem? O município recebeu recursos, convênios, projetos, equipamentos ou benefícios concretos após essas agendas?

Também cabe esclarecer por que alguns lançamentos aparecem no mesmo dia e se a forma de publicação pode induzir o cidadão a interpretar que várias diárias foram pagas simultaneamente. Mesmo quando a contabilidade segue procedimento interno, a transparência pública precisa falar a língua do contribuinte. Afinal, transparência que confunde não cumpre plenamente sua função social.

O caso também chama atenção pelo total geral. R$ 109.540,00 em diárias e passagens, no intervalo analisado, representam valor relevante para uma administração municipal de pequeno porte. A cifra ganha ainda mais peso quando moradores alegam falta de recursos para demandas básicas. Portanto, a Prefeitura precisa demonstrar que cada deslocamento teve finalidade pública, necessidade comprovada e resultado compatível com o gasto.

A cobrança não deve ser tratada como perseguição política. Pelo contrário, fiscalizar diária, verba indenizatória, viagem oficial e gasto de gabinete faz parte do controle social. O gestor que usa dinheiro público precisa aceitar o escrutínio público, principalmente quando os próprios registros oficiais despertam dúvidas.

Agora, São Sebastião do Oeste aguarda explicações claras. A população quer prestação de contas, não apenas números soltos em uma tabela. Quer saber quem viajou, para onde foi, por qual motivo, por quantos dias, quanto recebeu, qual documento autorizou e qual benefício retornou ao município.

Enquanto essas respostas não chegam de forma transparente, a pressão tende a aumentar. Afinal, em uma cidade pequena, onde todos conhecem os problemas de perto, valores altos com diárias não passam despercebidos. E quando o dinheiro sai do caixa público, a explicação precisa chegar ao cidadão com a mesma velocidade.

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