A crise do Diviprev abriu uma fenda política que vai muito além da relação entre Prefeitura de Divinópolis e servidores municipais. A fala do ex-prefeito Gleidson Azevedo, ao afirmar que deixou a Prefeitura “super saudável”, com recursos em caixa e sem “bomba” para Janete Aparecida, expõe uma tentativa de separação pública entre a gestão anterior e a atual prefeita, que foi sua vice, manteve grande parte do staff herdado e, segundo fontes ouvidas pelo Divinews, vinha respeitando um acordo político para não promover exonerações em massa até o fim de dezembro.
Em vídeo, Gleidson pede compartilhamento em massa, afirma que não aceitará “injustiça” contra ele e apresenta falas anteriores de Janete e de secretários para sustentar que a Prefeitura teria ficado em situação financeira saudável. Em seguida, crava que deixou recursos em caixa, que não deixou “bomba nenhuma” para Janete e que, agora, as decisões pertencem exclusivamente à prefeita, pois não teria mais participação nenhuma na administração.
A fala é politicamente forte. Embora Gleidson não ataque Janete de forma frontal, o movimento produz efeito de fritura pública. Ao dizer que a Prefeitura ficou saudável e que as decisões agora são dela, o ex-prefeito sinaliza que não aceita carregar o desgaste da reforma do Diviprev, justamente no momento em que servidores apontam a gestão anterior como parte da origem do problema.
Gleidson transfere o peso para Janete
O ponto mais sensível da fala está na tentativa de separação de responsabilidades.
Gleidson sustenta que Janete sempre governou com ele, mas que a gestão da cidade era dele. Ao mesmo tempo, afirma que, se quisesse deixar uma “bomba” para ela, estaria prejudicando alguém que fazia parte do próprio projeto político.
Depois, desloca a responsabilidade para o presente. A frase de maior efeito é quando afirma que “agora quem é a prefeita é a Janete” e que as decisões são dela.
Na prática, o ex-prefeito tenta dizer 2 coisas ao mesmo tempo: que Janete participou da gestão anterior, mas que a crise atual pertence a ela. Esse equilíbrio discursivo pode até ser eficiente para defesa pessoal, mas gera desgaste inevitável para a prefeita.
O problema é que Janete não assumiu uma Prefeitura sem história. Assumiu uma máquina com equipe, compromissos, projetos, secretários, decisões fiscais e passivos políticos herdados da gestão anterior.
O acordo político e o staff herdado
Nos bastidores, fontes ouvidas pelo Divinews afirmam que Janete teria mantido grande parte do grupo herdado de Gleidson por lealdade a um acordo político interno.
A leitura é que a prefeita vinha evitando uma ruptura administrativa ampla, sobretudo para não quebrar a unidade do grupo antes do fim de dezembro.
Esse compromisso, porém, começou a ser questionado após a crise envolvendo Fernando Henrique Costa de Oliveira, assessor especial do gabinete. Áudios obtidos pelo Divinews indicaram que servidores relatam falas atribuídas a Fernando, nas quais o assessor teria dito que há dinheiro em caixa e que a ação contra servidores seria “covardia”. A matéria publicada pelo Divinews também registrou que ele foi herdado da estrutura política anterior e seguiu no gabinete de Janete.
Segundo fontes de bastidores, o episódio foi lido como uma suposta traição política. Não necessariamente vinda diretamente dos líderes do grupo anterior, mas praticada por alguém vinculado à mesma estrutura que Janete preservou.
A frase de Brizola e o dilema da traição
A política costuma ser generosa com movimentos de conveniência e severa com quem rompe confiança.
A frase atribuída ao ex-governador Leonel Brizola, de que “a política ama a traição, mas odeia o traidor”, ajuda a explicar o momento.
Janete, até então, parecia operar dentro dessa lógica. Mesmo diante de desgaste, mantinha a maioria do staff e evitava uma ruptura que poderia ser interpretada como quebra de compromisso político.
Mas a suposta traição atribuída a Fernando Henrique muda o ambiente. Se um integrante do núcleo preservado pelo acordo passou a alimentar o discurso de servidores contra a prefeita, a fidelidade de Janete ao pacto pode perder sentido político.
Fontes ouvidas pelo Divinews avaliam que esse episódio teria liberado a prefeita para rever o acordo. A lógica é simples: se o compromisso foi rompido por dentro, Janete não teria mais obrigação de sustentar a mesma arquitetura herdada.
Divinews ouviu nos bastidores que apoio familiar em 2028 é improvável
O Divinews, que acompanha os bastidores da política de Divinópolis, já ouviu de diferentes fontes, em mais de uma ocasião, que seria difícil, quase impossível, a família Azevedo apoiar Janete Aparecida em uma eventual candidatura à reeleição em 2028.
Essa avaliação circula nos bastidores há algum tempo, e ela tem ciência disso.
A crise do Diviprev apenas tornou mais visível uma distância que já vinha sendo percebida por interlocutores políticos.
Se essa leitura se confirmar, Janete pode estar preservando, por lealdade, um grupo que talvez não caminhe com ela no futuro. Esse é o dilema político da prefeita: manter a estabilidade interna hoje ou reorganizar o governo para construir autonomia própria.
Fernando Henrique virou ponto de ruptura
O caso Fernando Henrique tornou-se simbólico porque junta 3 ingredientes explosivos.
Primeiro, ele integra o gabinete e foi herdado da estrutura anterior.
Segundo, os áudios atribuídos ao episódio atingem diretamente a narrativa da prefeita sobre o Diviprev.
Terceiro, a fala teria sido direcionada a servidores, justamente a categoria em conflito com Janete.
Isso significa que, se os relatos se confirmarem, não se trata apenas de divergência reservada. Trata-se de possível ação política com capacidade de enfraquecer a chefe do Executivo diante de uma crise já instalada.
Para aliados de Janete, esse tipo de movimento poderia justificar uma revisão mais ampla dos cargos de confiança.
A questão de gênero entra como hipótese analítica, não como conclusão
Há ainda uma camada mais delicada e que precisa ser tratada com técnica: a possibilidade de a reação contra Janete carregar componentes de violência política de gênero.
É preciso deixar claro que o Divinews não afirma, de forma categórica, que o caso configure crime de violência política contra a mulher. Essa classificação dependeria de fatos concretos, intenção, contexto, prova e eventual análise institucional.
A lei brasileira define violência política de gênero como ação, conduta ou omissão com finalidade de impedir, obstaculizar ou restringir direitos políticos da mulher. Também considera crime ação que menospreze ou discrimine a condição feminina para dificultar campanha eleitoral ou exercício de mandato. O TSE destaca que a prática não exige agressão física e pode envolver violência psicológica ou simbólica.
Nesse contexto, a pergunta jornalística é legítima: Janete está recebendo tratamento político mais duro por ser mulher e por ter assumido o comando efetivo da Prefeitura?
Dois pesos políticos?
A comparação com a gestão Gleidson é inevitável.
Durante quase 7 anos de administração vinculada ao grupo anterior, servidores enfrentaram diferentes desgastes, críticas públicas e medidas administrativas duras. Mesmo assim, a reação não alcançou o mesmo nível de mobilização visto agora, com assembleias lotadas, pedido de greve e pressão pública intensa.
O ponto mais citado é a redução da participação patronal da Prefeitura no Diviprev, de 28% para 14%, ocorrida no período anterior. O próprio Divinews já havia registrado que a mudança deu respiro financeiro para Gleidson no presente, mas poderia representar sufoco para Janete no futuro.
Isso não diminui a gravidade do projeto atual. A proposta enviada por Janete atinge diretamente regras previdenciárias, mobiliza servidores e merece crítica, debate e resistência se a categoria entender que há perda de direitos.
Mas a pergunta permanece: por que a reação institucional e política agora parece muito mais intensa do que em momentos anteriores, quando decisões também impactaram o futuro do Diviprev?
Ser justo não é defender Janete
Analisar essa assimetria não significa defender Janete.
A prefeita precisa responder politicamente pelo projeto que decidiu encaminhar. Ela é a chefe do Executivo. A proposta está sob sua responsabilidade. Se o texto penaliza servidores, cabe a ela retirar, negociar ou explicar tecnicamente cada ponto.
O que o Divinews aponta é outro aspecto: a crise não nasceu em janeiro, não começou apenas com Janete e não pode ser usada como instrumento para apagar responsabilidades anteriores.
Se Gleidson afirma que deixou dinheiro em caixa e não deixou bomba, precisa explicar como essa narrativa convive com a situação que agora exige uma reforma tão dura. Se Janete diz que herdou um problema grave, precisa explicar por que manteve o mesmo núcleo de gestão e por que tenta resolver a crise com um projeto rejeitado pelos servidores.
Os 2 campos precisam prestar contas.
A fala de Gleidson protege Gleidson
O vídeo de Gleidson tem objetivo claro: proteger sua biografia política.
Ele afirma que não aceitará injustiça contra si, apresenta números de recursos e investimentos a executar, diz que deixou cerca de R$ 58 milhões e reforça que a Prefeitura estava saudável.
Também afirma que, se ainda fosse prefeito, chamaria o sindicato para dialogar e construir junto.
Essa fala tem força porque se conecta ao sentimento dos servidores, que cobram justamente diálogo. Ao dizer que faria diferente, Gleidson se coloca como contraponto à postura de Janete.
Mesmo sem atacar diretamente, o resultado político é evidente: Janete fica isolada com o desgaste, enquanto o ex-prefeito tenta se apresentar como gestor que deixou recursos e teria conduzido o conflito de outra forma. O que não é verdade, durante um longo período de seu mandato, os atritos dele com os servidores eram constantes.
Janete pode rever o acordo
Segundo fonte ouvida pelo Divinews, Janete passou a considerar a revisão do acordo político que manteve grande parte da estrutura herdada.
A possível mudança viria após a derrapada envolvendo Fernando Henrique, tratada nos bastidores como suposta traição.
Se a prefeita avançar nessa direção, o governo pode entrar em nova fase. Menos dependente do grupo anterior, mas também mais exposto a disputas internas.
Essa decisão terá custo. Romper com antigos aliados pode gerar reação. Manter todos pode aumentar a sensação de que Janete governa cercada por pessoas que não necessariamente estão comprometidas com seu projeto.
O Diviprev virou divisor de águas
A reforma do Diviprev deixou de ser apenas uma pauta previdenciária.
Virou divisor de águas para o governo Janete, para a herança de Gleidson e para o futuro político do grupo que comandou a cidade nos últimos anos.
Servidores querem retirada do projeto. Sindicatos falam em greve. Vereadores cobram cautela. Gleidson tenta se descolar da crise. Janete tenta sustentar a necessidade da reforma. E bastidores apontam que o acordo interno pode estar perto do fim.
A crise também expôs uma contradição: Janete tenta carregar sozinha o desgaste de uma estrutura que herdou quase inteira.
Se a prefeita errou ao tentar impor o projeto sem diálogo suficiente, também é verdade que parte da conta política parece ter sido deslocada para ela por quem participou do mesmo ciclo de poder.
O teste de Janete agora é político
Janete tem dois desafios imediatos.
O primeiro é institucional: decidir se retira o projeto do Diviprev, reabre negociação com servidores e reconstrói a proposta com base técnica.
O segundo é político: definir se continuará governando com uma estrutura herdada que, segundo fontes, pode não estar disposta a sustentá-la em 2028.
O caso Fernando Henrique apenas acelerou uma pergunta que já existia nos bastidores: Janete governa com equipe própria ou administra uma herança que pode abandoná-la quando o custo político aumentar?
A resposta a essa pergunta pode definir não apenas o rumo da reforma, mas o futuro do governo.
Compartilhe isso:
- Compartilhar no X(abre em nova janela) X
- Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
- Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
- Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
- Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
- Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
tópicos:
DiviprevFernando Henrique Costa de OliveiraGleidson AzevedoJanete Aparecidapolítica de divinópolisServidores MunicipaisCompartilhe isso:
- Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)
- Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)
- Clique para compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela)
- Clique para compartilhar no Telegram(abre em nova janela)
- Clique para enviar um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela)
- Clique para imprimir(abre em nova janela)






