Tiros, choque, spray e medo: família expõe, em live exclusiva ao Divinews, ação policial e cobra transparência dos órgãos em Bom Despacho

Luiz Fernando e a esposa Kendice Frutuoso relataram abordagem violenta, citaram nominalmente os policiais sargento Gilberto e Caio Costa, denunciaram omissões na apuração e fizeram apelo por justiça

Publicado por: Geraldo Passos

O caso ocorrido na noite de 24 de março, em Bom Despacho, entrou no radar público como mais um episódio grave que reacende o debate sobre violência policial, preparo emocional de agentes e transparência nas investigações. Em entrevista/live concedida ao Divinews, na tarde desta quarta-feira (15), Luiz Fernando, de 37 anos, e a esposa, Kendice Frutuoso, apresentaram um relato duro, detalhado e marcado por acusações sérias contra a atuação de policiais militares durante uma abordagem que terminou com Luiz baleado.

O casal não descreveu apenas uma ocorrência. Descreveu, na prática, uma sequência de escaladas. Primeiro, uma fala ofensiva. Depois, o spray de pimenta. Em seguida, o disparo de Taser. Por fim, tiros de arma de fogo. E, segundo a família, mesmo depois de Luiz já estar caído, ainda houve agressão física. O quadro relatado transforma a abordagem em algo muito maior do que um simples conflito de rua. Coloca em xeque o limite da força, o preparo dos agentes e a capacidade do Estado de investigar a si mesmo com isenção.

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Luiz Fernando se apresentou como técnico de refrigeração, morador de Bom Despacho desde a infância, pai de 3 filhos e trabalhador desde os 11 anos. Na entrevista, fez questão de situar a própria trajetória antes de entrar no episódio. Também respondeu à tentativa de descredibilização que, segundo ele, circulou após o caso. Admitiu uma ocorrência em 2009, ligada a uma briga em boate e acusação de lesão corporal, mas afirmou que não possui outras passagens. A linha da família é clara: qualquer discussão sobre passado não autoriza tiro nas costas, ainda mais vindo de um policial.

Segundo o relato, tudo começou quando a esposa, Kensey, ligou pedindo ajuda porque a caminhonete havia apresentado problema. Luiz saiu de casa com os 2 filhos que estavam com ele, um adolescente de 15 anos e uma menina de 8, para socorrer o veículo. A cena, portanto, já nasce marcada por um dado perturbador: havia crianças no local vendo tudo de perto.

Foi nesse momento que, de acordo com Luiz, a viatura chegou e um primeiro policial iniciou a abordagem. Em seguida, segundo sua fala, o outro agente teria mandado “tirar a bosta do carro do meio da rua”. Luiz reagiu verbalmente, dizendo que seu carro não era “bosta” e exigindo respeito. A partir daí, na narrativa do casal, a situação saiu do eixo. Luiz afirmou que não foi agressivo fisicamente e que, mesmo quando lhe foi dito que seria preso, colocou os punhos à frente e respondeu: “então me prende”.

O nome apontado como o policial mais agressivo foi o do sargento Gilberto. Segundo Luiz e Kendice, foi ele quem teria chamado o carro de “bosta”, lançado spray de pimenta, usado a Taser e mantido postura hostil desde o início. Já o policial apontado como autor dos disparos de arma de fogo foi identificado como Costa, também referido no relato como Caio Costa. A família fez questão de individualizar as condutas.

Depois do spray de pimenta, Luiz afirma ter levado o choque da Taser e sofrido um apagão. Esse é um ponto central da entrevista. Segundo ele, após a descarga, já não consegue lembrar com nitidez o que fez ou falou, apenas se recorda de se levantar e retirar os fios do choque. A esposa reforçou que a adrenalina subiu e que ele ficou muito alterado depois da descarga elétrica. A questão que emerge daí é pesada: se um cidadão atinge um estado de descontrole depois do choque, o que se espera do policial treinado é contenção técnica, não escalada letal.

Kendice afirmou que, ao analisarem imagens depois, perceberam que foram 3 disparos, sendo 2 acertos. Segundo ela, o primeiro tiro não acertou, o segundo atingiu Luiz e o terceiro o acertou quando ele já começava a cair, inclusive pelas costas. A fala é uma das mais duras do depoimento porque reforça a ideia de desproporção e de violência crescente em vez de imobilização técnica.

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Outro ponto de forte impacto foi a descrição da ausência de socorro imediato. Kensey afirmou que pediu ajuda, ligou desesperada, gritou por ambulância e viu o marido sangrando por cerca de 20 minutos. Disse também que a irmã, com formação na área da saúde, tentou se aproximar para prestar os primeiros socorros, mas teria sido impedida. O relato sustenta que não apenas houve uso extremo da força, mas também omissão no cuidado posterior.

No hospital, o quadro clínico foi grave. Segundo Kendice, Luiz teve lesão importante no fígado, quadro de hemorragia, risco de choque hemorrágico, necessidade de CTI, 4 dias entubado e ainda ficou com projétil alojado no corpo. A família relatou também que, em determinado momento, os rins pararam de funcionar e houve risco de hemodiálise. A entrevista evita qualquer romantização. O que se expõe é a dimensão real do impacto físico e emocional deixado pelo episódio.

Mesmo assim, o drama não parou no hospital. Kensey contou que, enquanto o marido ainda estava na CTI, precisou correr atrás de habeas corpus porque teria sido decretada prisão contra ele, o que impedia até a visita da esposa. O trecho é um dos mais estarrecedores da live porque transforma a vítima baleada em alvo de nova pressão institucional. No final da entrevista, Luiz confirmou: “eu fui preso, eu internado na CTI”.

A família também denunciou dificuldades na apuração. Kendice afirmou que filmagens mencionadas por policiais civis não apareceram no inquérito, que alguns vídeos só foram obtidos com dificuldade e que os depoimentos dos PMs Gilberto e Costa não estariam no inquérito até a sexta-feira anterior à entrevista. A preocupação central da família é de que informações fiquem escondidas ou alteradas no meio do caminho. Luiz resumiu o que espera com uma frase simples e forte: “eu só quero justiça”.

O relato também incluiu crítica ao Ministério Público. Segundo Kensey, quando procurou o órgão em Bom Despacho, foi atendida por um assessor do promotor e ouviu que a cidade não teria estrutura para investigar crime policial. Ela afirmou que o depoimento não foi colhido e que não se sentiu acolhida. O episódio, se confirmado, amplia a sensação de abandono narrada pela família.

Na Polícia Civil, outra fala atribuída por Luiz à escrivã também chamou atenção. Ele afirmou que, depois do depoimento, ouviu da servidora que, como pai, ela torcia por ele, mas que a questão da polícia indicaria que os policiais estariam certos. A declaração, se reproduzida fielmente, agrava a percepção de parcialidade que o casal tenta denunciar.

A entrevista avançou ainda sobre as marcas psicológicas deixadas pelo caso. A filha de 8 anos, segundo Kendice, passou a apresentar medo, agressividade, agitação mental e sofrimento escolar. O menino de 15 anos, que também presenciou a cena, mudou a rotina e se afastou mais. A própria esposa afirmou não ter conseguido voltar ao trabalho como professora do Estado por falta de condições psicológicas. O peso da violência, portanto, não ficou restrito a Luiz. Espalhou-se pela casa inteira.

Também houve espaço para uma denúncia que revela como o caso continuou gerando consequências absurdas. Segundo Kendice, chegou uma multa de cerca de R$ 2,9 mil, sob alegação de que Luiz estaria sob efeito de substância ilícita ao volante. Ela negou de forma veemente. Disse que ele não usa droga, não fuma e que a acusação é mais uma camada de violência institucional sobre uma família já devastada.

Kendice chorou no momento em que narrou que em um vídeo que eles tiveram acesso, posteriormente aos demais já divulgados. O sargento Gilberto, já com o Luiz caído, ele pisa em seu braço com a bota, o que valeu ao Luiz uma grande mancha no corpo. Ela não entendeu por que tamanha violência.

Outros relatos que merecem destaques, são:  que o sargento os conheciam de grupo de whatsapp, pois os filhos de ambos estudam no Colegio Tiradentes de Bom Despacho,  ou seja, uma instituição militar; e ainda que, o pai de Kendice é um militar da reserva da PMMG; some-se a isso,  ainda que, já moraram em uma vila militar. Tais relatos fez com que o entrevistador do Divinews ficasse pasmo: “imagine então, se a familia não tivesse toda essa relação com o meio militar?”

No centro de tudo, a pergunta que a matéria precisa fazer é direta: qual é o limite da força policial diante de um cidadão alterado, desarmado, cercado pela família e já submetido a spray e Taser? A fala do casal empurra esse debate para fora do discurso abstrato. Não se trata aqui de teoria. Trata-se de uma abordagem em que, segundo o relato, houve humilhação verbal, escalada de agressão, tiros, negação de socorro, agressão posterior com chute e pisão, e obstáculos na busca por apuração.

Ao final, Kendice Frutuoso fez um apelo por honestidade, imparcialidade e transparência. Pediu que ninguém esconda fatos para proteger “companheiro de farda” e que a justiça seja de fato justa. Também pediu doação de sangue em nome de Luiz, lembrando que ele precisou de 20 bolsas e que outras vidas podem depender da mesma solidariedade. Luiz, por sua vez, insistiu no essencial: quer verdade, quer clareza e quer justiça.

Este caso não pode ser reduzido a uma versão burocrática de ocorrência. Se as denúncias narradas forem confirmadas integralmente, o que houve em Bom Despacho não foi excesso menor nem falha pontual. Foi uma violência de Estado que atravessou o corpo, a família e a confiança pública. E é por isso que o caso exige resposta firme, investigação íntegra e transparência completa.

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