Fontes, informantes e denunciantes no jornalismo, valem ouro. E, quando uma pessoa, um trabalhador decide abandonar o conforto e os riscos do anonimato para sentar diante de uma câmera, exibir documentos e sustentar a denúncia com o olho direto nas lentes, o caso deixa de ser “boato de WhatsApp” e vira obrigação de ser pautado editorialmente. Registrar, organizar, confrontar com fatos e cobrar respostas das autoridades, se pertinente for. E foi exatamente esse o cenário que se formou na redação do Divinews na última sexta-feira (06), após a chegada de Lucivaldo Silva Sousa, natural da Bahia, mas morador de Contagem, que decidiu viajar até Divinópolis para relatar, em detalhes, o que afirma ter vivido enquanto trabalhava, mas sem carteira assinada, na atividades de segurança patrimonial no Centro de Distribuição do Supermercados BH, tambem em Contagem.
A ida à redação não foi um passeio. Segundo o próprio relato gravado, Lucivaldo vinha tentando, há semanas, fazer a denúncia “subir de patamar”, enviando áudios, documentos e mensagens, até que resolveu comparecer pessoalmente. O depoimento descreve uma situação de aperto financeiro, com dificuldade até para se alimentar, e a decisão de ir mesmo assim, de ônibus, para “não deixar o assunto morrer”.
No vídeo, o denunciante que é baiano, relata que mora em Minas há anos e afirma ter começado a trabalhar no BH Supermercado em 20/06/2024, descrevendo um contingente grande de trabalhadores “no centro de distribuição e nas lojas”.
O tom é de indignação, mas a narrativa central tenta apontar uma engrenagem: um modelo de trabalho que, segundo ele, misturava cobrança, pressão psicológica e uma “operação de segurança” que não seria transparente para quem estava na ponta.
O primeiro eixo da denúncia é trabalhista: vínculo, formalização e cadeia de responsabilidades. Lucivaldo sustenta que trabalhou e que, na visão dele, não houve clareza documental sobre quem seria a empresa responsável por contratação, registro e obrigações legais. No depoimento, ele afirma que, ao buscar a via judicial, teria ouvido em audiência que não trabalhava para o BH diretamente, mas para uma terceirizada, e diz que a condução teria ocorrido “no verbal”, sem a exigência de contrato, CNPJ, representante legal e demais elementos que, no entendimento dele, deveriam estar nos autos.
O segundo eixo é ainda mais sensível, porque deixa de ser apenas relação de trabalho e encosta em segurança pública e risco de tragédia. Lucivaldo afirma que, após alguns meses, teria surgido uma orientação para compra e uso de arma de brinquedo, com objetivo de “passar” a ideia de que os trabalhadores seriam policiais, de forma a intimidar e conter ocorrências.
Ele diz que a arma ficava escondida sob a camisa e descreveu ainda que a ele era pedido que se o perguntassem, ele seria um “P2” ( é uma terminologia usada na PM que significa, pertencer ao setor de inteligência da instituição) alegando que o medo e a aparência de autoridade funcionavam como ferramenta de controle para os funcionários e clientes.
A denúncia avança e afirma que, dentro desse contexto, haveria ordem para que trabalhadores se apresentassem como guarda municipal, polícia penal, polícia militar ou civil. O entrevistador, no próprio vídeo, faz a observação direta: essa fala, se comprovada, esbarra em crime de falsidade ideológica e não é “brincadeira de serviço”
Lucivaldo insiste que haveria áudios e mensagens para sustentar isso, como anteriormente já havia enviado alguns e depois enviou outros, com ordens e ameaças expressas.
O terceiro eixo é a alegação de coação e violência. No relato, aparece a afirmação de espancamento de ex-funcionário e, principalmente, a existência de ameaças de morte direcionadas a ele.
Há também um trecho que, se confirmado, aponta para tentativa de ocultação de trabalhadores durante fiscalização. Lucivaldo afirma que, em ocasião em que Polícia Federal e Ministério do Trabalho teriam ido ao centro de distribuição, teria havido pedido para “esconder” pessoas para não ser descoberto que estavam sem carteira assinada.
A entrevista ainda menciona um nome de empresa que o denunciante associa à terceirização: “Águia Real”. O relato diz que o acesso a essa informação teria vindo após investigação própria e ajuda de advogado, com a alegação de uma estrutura societária pulverizada em nomes de familiares
Dentro da narrativa, surge ainda a menção a uma mulher citada como “Adriana”, associada a ofensas e orientações agressivas, e a um homem apontado como policial na ativa, sempre no campo da acusação, com pedido de apuração formal
No final, o depoimento tenta justificar por que insiste tanto. Para além do “acerto trabalhista”, ele afirma que o risco maior é alguém reagir a um simulacro como se fosse arma real, dentro de um ambiente com clientes e família
É nesse ponto que o caso ganha contorno de interesse público, se houver elementos mínimos de prova: não se trata apenas de salário, mas de um suposto modelo de intimidação que, em tese, colocaria terceiros em risco.
O que o Divinews registra nesta etapa é objetivo: existe uma denúncia formalizada em entrevista gravada, com alegação de áudios, prints e documentos, e com narrativa que envolve o Supermercados BH, possível terceirização, pressão psicológica e risco de segurança. O que ainda não existe, neste momento, é a validação externa de cada afirmação. E é aí que entra a apuração.
O Divinews, em busca do contraditório, esteve nesta sexta-feira (13) na nova loja da rede BH em Divinópolis para obter o contato da assessoria de comunicação do grupo, já que os números disponíveis na internet não funcionaram. Ao solicitar o canal oficial de Comunicação ao supervisor de área Robson Ferreira, ele afirmou que o sistema de telefonia estaria em transição e orientou que o portal aguardasse até a próxima segunda-feira. Ao ser informado de que o assunto era grave, ele respondeu em tom de desdém, dizendo que o Divinews “publicasse o que quisesse”, porque “existem promotores e juízes”. Diante disso, o portal registra a declaração como a manifestação recebida no local, marcada pela falta de encaminhamento e pelo desprezo ao pedido formal de posicionamento.
Apesar da resposta mal formulada pelo supervisor, o Portal pontua que, o espaço segue aberto para efetiva manifestação da Rede do Supermercados BH, pela gravidade da denuncia que foi narrada em vídeo e presencialmente na redação. Enquanto isso, fica registrado que: quem acusa precisa provar, e quem é citado precisa ter espaço de resposta, mesmo que posteriormente. A reportagem seguirá esse trilho.
Ameaças
Processo trabalhista
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