Presidente do SINVESD, Juninho Chumbreca, aposta em nova sede para recuperar força da confecção em Divinópolis

Evento de lançamento da "Pedra Fundamental" marca nova etapa para a confecção em Divinópolis e mira feiras presenciais do setor de maquinas, equipamentos, tecidos e produtos manufaturados

Publicado por: Geraldo Passos

Divinópolis acostumou a medir fases da própria economia local pelo termômetro de comercialização do setor confeccionista. Houve um tempo em que ônibus lotados de compradores rotineiramente chegavam a cidade, com lojas se preparando para atender em massa tais compradores, muitas empresas abriam suas portas ainda de madrugada e a cidade se anunciava como polo confeccionista, que além de preços baixos possuia identidade própria. Nos últimos anos, porém, o cenário mudou, a venda migrou para a internet, o fluxo caiu e o setor passou a conviver com uma sensação incômoda de perda de visibilidade, justamente quando mais precisava e precisa de organização e força coletiva.

Foi nesse contexto que a cerimônia simbólica da pedra fundamental, acompanhada de um novo passo da Prefeitura ao doar novamente o terreno para a construção da sede, ganhou peso além do protocolo. O presidente do SINVESD, Mauro Célio de Melo Junior, conhecido como Juninho Chumbreca, tratou o momento como uma virada de página para o setor e para a cidade, tanto pela estrutura física quanto pelo efeito moral sobre quem produz.  Em entrevista ao jornalista Geraldo Passos, e profundo conhecedor dos problemas do setor, Juninho descreveu o projeto como resposta direta a uma crise nacional da confecção, que atingiu faturamento, competitividade e presença no mercado.

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A proposta não se limita a erguer uma sede administrativa. A ideia, segundo Juninho, é criar um equipamento com utilidade pública e vocação econômica. No desenho apresentado, o espaço abre caminho para retomar em Divinópolis uma feira de máquinas, um evento que já foi discutido com lideranças locais e que, na visão dele, devolve protagonismo ao polo, aproxima fornecedores, atualiza tecnologia e reaquece o ambiente de negócio.

Além disso, a sede nasce com um plano de uso compartilhado. Juninho citou a intenção de abrigar feiras diversas, do artesanato a alimentos e até feira de carros, abrindo o local para a população e criando um calendário que faça o endereço pulsar, e não apenas funcionar em horário comercial. Ele também destacou a previsão de um auditório para 400 pessoas, com a promessa de servir a quem precisar de um espaço para eventos, debates e atividades comunitárias, somando ainda a instalação de uma biblioteca pública em sede própria, vinculada à Prefeitura.

Mas, na leitura do presidente do SINVESD, o ponto mais estratégico está na logística e no turismo de compras. Juninho apontou o estacionamento como peça central para recolocar Divinópolis no mapa do comprador que viaja para abastecer loja, porque a experiência de compra começa antes da vitrine. O projeto prevê um local para o visitante deixar o carro com segurança e ser recebido com informações turísticas, café e espaço de descanso, algo que ele descreveu como mudança na forma de tratar quem vem de fora e como instrumento para elevar a autoestima do confeccionista e reposicionar a cidade com ambição nacional.

A pergunta do jornalista, no entanto, mirou um problema que o setor sente na pele e que nenhum prédio resolve sozinho. Por que os ônibus pararam de vir, se o polo já foi sólido e reconhecido? A questão veio com a memória de quem já teve passagem pelo setor e observou a virada do consumo, com a internet substituindo parte da compra presencial. O jornalista colocou na mesa uma provocação que é, ao mesmo tempo, simples e decisiva, nada substitui o toque, a conferência do acabamento, da modelagem e da qualidade do tecido. E lembrou que a compra “às cegas” eleva devoluções e frustra o consumidor.

Juninho concordou com o diagnóstico e transformou a pergunta em agenda de trabalho. Ele afirmou que preocupa ver os ônibus sumirem de Divinópolis e ressaltou um contraste que incomoda o polo, São Paulo segue recebendo centenas de ônibus diariamente, inclusive com compradores de Divinópolis indo para lá, o que indica que a cultura do atacado presencial não morreu, apenas mudou de rota. Para ele, o setor precisa reagir com estratégia nacional de atração de lojistas, ao mesmo tempo em que acelera um ponto em que ainda patina, vender melhor na internet.

A resposta dele expôs uma ambição coletiva que, se sair do papel, pode virar marco do setor. Juninho falou sobre a possibilidade de construir um site em grupo, uma plataforma conjunta de e-commerce, uma vitrine maior para a confecção local, com escala e identidade, em vez de esforços isolados e dispersos. Ele tratou isso como objetivo e sonho, algo para amadurecer e lançar no futuro, mas sem perder de vista a convicção de que a compra física continuará existindo, justamente porque roupa é experiência. Ele exemplificou com devoluções em sites famosos, quando a peça chega áspera ou sem qualidade, e concluiu que o caminho passa por novos eventos e novas formas de pensar para trazer o cliente de volta à cidade.

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O diálogo avançou para uma crítica mais ampla ao modelo de consumo que pressiona a indústria nacional. O jornalista mencionou a “moda chinesa” e a lógica acelerada do fast fashion, aquela roupa que parece barata no preço, mas custa caro no tempo, porque perde forma e qualidade rapidamente. Juninho confirmou esse raciocínio e puxou o tema para um terreno que incomoda o mercado, mas não pode ser varrido para baixo do tapete. Ele apontou que a moda rápida amplia descarte de peças e entra em choque com a pauta ambiental, além de criar concorrência desleal com quem produz com qualidade, paga impostos, mantém funcionários e cumpre obrigações. Ao comparar com práticas de outros países, ele criticou relações de trabalho sem direitos e disse que o setor local não tem como concorrer nem concordar com esse tipo de modelo.

Quando o assunto mudou para legislação, o tom também mudou, porque não se tratava mais apenas de mercado, mas de responsabilidade empresarial e saúde pública. Geraldo trouxe uma pauta que já circula nos bastidores, uma nova norma trabalhista federal ligada à saúde mental, discutida em jantar recente com o superintendente Carlos Calazans, e sua apresentação na FIEMG. A pergunta veio contextualizada no impacto real para indústrias e empresas, custos, adequações e, principalmente, como isso chega no chão de fábrica e na rotina do empresário.

Juninho respondeu com cuidado e sinceridade. Ele disse que a norma, prevista para começar a valer a partir de maio, assusta por ser novidade, mas é importante porque trata de saúde mental em uma população pressionada e adoecida. Para ele, o trabalhador precisa ser olhado com carinho, não só por humanismo, mas também por produtividade, quem está bem rende mais, e isso interessa ao próprio empresário. Ao mesmo tempo, ele reconheceu dúvidas práticas sobre o formato da exigência, como a necessidade ou não de psicólogo dentro da empresa e a possibilidade de arranjos com entidades, além do custo adicional com capacitação. E adiantou que o sindicato pretende se debruçar sobre o tema para orientar os empresários da confecção, reduzindo insegurança e evitando erros por desconhecimento.

O fechamento da conversa manteve um tom que ajuda a entender por que uma pedra fundamental pode significar mais do que uma obra. Juninho agradeceu ao jornalista, ressaltou a troca de experiências e reforçou a importância do setor para a cidade, especialmente por empregar muitas mulheres e sustentar famílias, inclusive com modelos de trabalho que permitem conciliar renda e cuidado com filhos. É nesse ponto que o projeto da sede deixa de ser apenas uma promessa de concreto. Ele vira um sinal de que o polo quer voltar a se enxergar como polo, e quer reconquistar o comprador com estrutura, eventos, qualidade e presença digital, sem abrir mão da identidade produtiva que fez Divinópolis crescer.

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