Divinópolis deixou de ser apenas um município influente do Centro-Oeste e passou a se tornar, oficialmente, o novo eixo do poder político de Minas Gerais. Com figuras em destaque nos principais partidos e posições estratégicas em Brasília, a cidade se transformou em um verdadeiro laboratório das alianças e rupturas que definirão a eleição de 2026.
O ensaio político da jornalista Ana Mendonça, publicado pelo Estado de Minas, motivador dessa matéria, revelou aquilo que já vinha sendo percebido nos bastidores: Divinópolis se transformou no centro de gravidade da política estadual. O movimento envolve desde o clã Azevedo, com o senador Cleitinho, o prefeito Gleidson e o deputado estadual Eduardo, até lideranças progressistas como a deputada Lohanna França (PV) e a petista Gleide Andrade, secretária nacional de Finanças do PT.
Cada grupo atua em uma direção, mas todos compartilham o mesmo objetivo: garantir que o poder continue orbitando em torno da cidade.
Clã Azevedo: influência e contradição
O prefeito Gleidson Azevedo admitiu que pode disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Enquanto isso, seu irmão, o senador Cleitinho, tenta consolidar a direita bolsonarista em Minas, mesmo enfrentando atritos dentro do próprio campo conservador. O deputado estadual Eduardo Azevedo, por sua vez, trabalha para fortalecer o sobrenome no interior.
A contradição é visível: o grupo que emergiu como representante da direita popular começa a dialogar com figuras de espectros opostos, como o ministro Alexandre Silveira (PSD), a quem Gleidson chamou de “melhor ministro do Brasil”.
Lohanna França e o protagonismo na esquerda
Na outra ponta, o destaque progressista de Divinópolis é a deputada Lohanna França (PV), que vem acumulando capital político e protagonismo no cenário estadual. Foi ela quem, ouvindo os estudantes e a direção da UFSJ, retomou o projeto do Hospital Regional, travado desde 2010, e recentemente apresentou o projeto de doação do terreno.
A deputada é hoje um dos principais nomes do campo progressista no Centro-Oeste, vista como símbolo de renovação política e engajamento popular. Sua trajetória rompeu o domínio histórico dos Azevedo e posicionou a cidade no mapa das disputas ideológicas.
Mas é fato que, no dia 8/10 a parlamentar protocolou uma emenda de retirada do hospital da lista dos imoveis do Propag. E no dia 24/10 o projeto que autoriza a doação do terreno.
Gleide Andrade e a tensão no campo petista
Dentro do próprio PT, as tensões também são evidentes. Gleide Andrade tenta se viabilizar como candidata à Câmara Federal, mas enfrenta resistência de setores dentro do próprio partido, nas multiplas correntes ideologicas que o fragmentam. A reunião que Gleide articulou com vários ministros, Camilo Santana da Educação; Haddad, da Fazenda; Alexandre da Silveira, das Minas e Energia; e o presidente da Ebserh, Arthur Chioro, sem convidar Lohanna, foi interpretada como tentativa de esvaziamento político da deputada – O embate entre ambas simboliza a disputa interna da esquerda por protagonismo dentro de uma cidade que virou vitrine nacional.
Gleide ao Divinews afirmou: “Eu quero ver o hospital funcionando, só isso. Eu não tenho aliança eleitoral com ele, eu só acho que o hospital está acima de todos nós. De todos os nossos interesses políticos”.
Já Lohanna França, questionada por sua ausência no grupo que visitou Brasilia, foi lacônica: “Prefiro não me pronunciar sobre isso”
Domingos Sávio e a reorganização da direita tradicional
Do outro lado do tabuleiro, o deputado federal Domingos Sávio (PL) tenta reassumir o controle da direita tradicional. Depois de um período de discreta atuação, o parlamentar voltou a ganhar força e pode ser o nome do PL ao Senado. A bênção de Bolsonaro fortaleceu sua posição e o recolocou como peça-chave nas negociações para a formação de uma frente ampla de direita.
Em Divinópolis, Domingos mantém influência direta junto aos prefeitos da região, sendo responsável por parte significativa das emendas federais destinadas ao município.
Há ainda que, destacar que foi na gestão do ex-prefeito Wladimir Azevedo, que lançada a pedra fundamental para a construçpão do Hospital Regional. Ocasião essa que o deputado era ainda aliado do ex-governador Aécio Neves. “Naquele momento é que foi feito o parto da criança, que cresceu, está ficando bonita, e agora todos assumem sua paternidade, e se esquecem dos pais biológicos”.
Gleidson, o prefeito que se torna também dilema no campo da direita
O prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo, irmão do senador, tornou-se, a exemplo de Cleitinho, que recentemente potencializou uma posição de peça política ambígua: ao mesmo tempo que busca manter laços com a base bolsonarista, ensaia aproximações públicas com figuras do governo federal, como a secretária nacional de Orçamento e Finanças do PT. No mesmo momento elogiou o ministro Alexandre Silveira (PSD), aliado direto de Lula, chamando-o de “melhor ministro do Brasil”. Para o núcleo duro da direita, o gesto soou como uma traição ideológica, mas em seu nicho de apoiadores é visto como pragmatismo político, em beneficio da cidade e região. Posição do irmão do senador está sendo alvo de críticas do bolsonarismo raix.
Fator Alex Diniz muda o jogo
O ensaio político da jornalista, porém, esqueceu um ator decisivo: Alex Diniz, empresário e suplente de Cleitinho, um dos principais financiadores da campanha do Azevedo, em 2022. É interlocutor estratégico nas negociações políticas, sendo ventilado por Simões, como seu vice. Seu peso financeiro e sua influência tem enorme importância. Resta saber se Alex apostará suas fichas em Simões com a possibilidade de ser vice-governador do Estado, ou em Cleitinho, para sair da posição de suplente e assumir a titularidade da cadeira no Senado.
Veja na íntegra o texto da jornalista Ana Mendonça
Um novo endereço do poder em Minas
Em torno da cidade orbitam o clã Azevedo, a deputada Lohanna França (PV), a petista Gleide Andrade e o presidente do PL em Minas, Dep. federal Domingos Sávio
Divinópolis virou o novo centro de gravidade da política mineira. Às vésperas de 2026, o município do Centro-Oeste mineiro concentra movimentos decisivos em três tabuleiros da eleição: governo, Câmara e Senado. Em torno da cidade orbitam o clã Azevedo, a deputada Lohanna França (PV), a petista Gleide Andrade e o presidente do PL em Minas, o deputado federal Domingos Sávio (PL). De lados opostos, todos com o mesmo objetivo: garantir que o poder continue passando pela cidade.
O primeiro passo veio do prefeito Gleidson Azevedo (Novo), que confirmou à coluna estudar disputar vaga na Câmara. “É um desejo do povo e eu venho estudando sobre isso. A decisão fica para o ano que vem”, disse. Ele garante que não deixará o Novo, mas admite “avaliar o cenário” caso a candidatura do irmão Cleitinho (Republicanos) ao governo colida com o partido.
A fala evidencia a disputa no campo conservador. PSD, Republicanos e o PL travam hoje uma queda de braço pelo comando da direita em Minas. O PSD, do vice-governador Mateus Simões, tenta unir os partidos em uma frente ampla. Mas uma candidatura de Cleitinho inviabilizaria o projeto.
Nos bastidores, é consenso: um dos dois terá que ceder. Por enquanto, o senador segue à frente nas pesquisas internas, visto como o nome mais viável do campo.
Para aliados, Cleitinho “salvaria o governo de Minas pela direita”, evitando o retorno do PT. Mas a sua candidatura desarruma a engenharia do PSD e pressiona Zema, que tenta manter o Novo no centro da articulação. Nesse jogo, Gleidson virou peça-chave e também um problema.
Em vídeo recente, elogiou o ministro Alexandre Silveira (PSD), aliado direto de Lula, a quem chamou de “melhor ministro do Brasil”. O gesto foi lido como sinal de autonomia e indicativo de que o clã Azevedo joga em campo próprio, mesmo dentro da direita.
Enquanto conservadores se testam, a esquerda vive outra disputa. Gleide Andrade, secretária nacional de Finanças do PT, tenta se viabilizar como candidata à Câmara, mas encontra resistência eleitoral. Em Divinópolis, o protagonismo progressista tem nome e já está consolidado: Lohanna França.
Foi a deputada estadual quem retomou o projeto do Hospital Regional, iniciado em 2010 e abandonado por sucessivos governos. Desde o movimento estudantil, acompanha a obra, fiscaliza os repasses e cobra prazos. Em 2022, conseguiu o compromisso direto do presidente Lula (PT) e, em 2023, do ministro Alexandre Padilha, garantindo a federalização e a entrega prevista para 2026.
A força política da deputada potencializou os ânimos no PT. O gesto mais visível foi a reunião que Gleide articulou entre o prefeito Gleidson e o ministro da Educação, Camilo Santana (PT), sobre o hospital sem convidar Lohanna, autora do projeto de doação do terreno. Nos bastidores, o movimento foi interpretado como tentativa de esvaziamento da parlamentar.
A coluna procurou dirigentes locais do PT, que acusam Gleide de “interferir nas candidaturas municipais” e tentar controlar alianças em cidades do Centro-Oeste para fortalecer seu nome em 2026. Também procurada, Lohanna falou sobre a própria candidatura, mas preferiu não comentar o episódio. Disse apenas que pretende disputar vaga na Câmara em um “projeto progressista voltado à educação, meio ambiente, cultura e à unidade nacional em torno do presidente Lula”.
Enquanto o campo progressista se divide, o PL tenta se reorganizar. Domingos Sávio, por décadas o principal nome da direita no Centro-Oeste, voltou a ganhar força nos bastidores e é hoje o nome mais provável do partido para o Senado. Recentemente, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) manifestou desejo de vê-lo candidato, destacando sua “experiência e lealdade”.
O deputado tem sido elogiado internamente por sua capacidade de articulação e pelo papel de ponte com os prefeitos da região, sobretudo na liberação de emendas. Em Divinópolis, interlocutores creditam a ele boa parte dos recursos federais que mantêm o diálogo entre Brasília e o município.
Fato é que, com tantas peças se movendo, Divinópolis virou o microcosmo da sucessão mineira. Se Lohanna, Gleide e Gleidson forem eleitos deputados, a cidade ocupará três cadeiras em Brasília. Se Cleitinho vencer o governo, o Centro-Oeste comandará o Palácio Tiradentes. E se Domingos Sávio chegar ao Senado, Divinópolis estará nas três instâncias do poder.
Todas as cartas
Gleide Andrade (PT) aposta todas as fichas na candidatura do vereador Pedro Rousseff. A secretária de Finanças do PT avalia que o desempenho do sobrinho da ex-presidente Dilma Rousseff nas urnas pode puxar votos suficientes para ampliar o espaço do partido na Câmara dos Deputados em 2026. Como já mostrou a coluna, o jovem vem usando os fins de semana para fazer viagens de agenda no interior de Minas.
Na ponta
A coluna apurou que o deputado Domingos Sávio (PL) é hoje o nome mais certo ao Senado nas articulações da direita mineira. Caso o cabeça de chapa ao governo seja Mateus Simões (PSD), o favorito para a segunda vaga é Marcelo Aro (PP); se for Cleitinho Azevedo (Republicanos), o indicado tende a ser Euclydes Pettersen (Republicanos).
Já com Nikolas Ferreira (PL) liderando a chapa, o partido poderia ocupar as duas vagas majoritárias. Mesmo assim, o PL tem sinalizado interesse em manter a frente ampla com PSD e Republicanos. Na disputa interna com Caporezzo, a tendência é que Sávio, presidente da sigla em Minas, leve vantagem e consolide seu nome nas negociações.






