Ninho do Urubu: Justiça inocenta responsáveis e revolta explode entre familiares das vítimas

Decisão da 36ª Vara Criminal do Rio inocenta ex-diretores do Flamengo, empresas e monitor dos atletas, apesar de 10 adolescentes terem morrido em 2019.

Publicado por: Cassia Misael

A tragédia que marcou o futebol brasileiro em 8 de fevereiro de 2019, quando 10 adolescentes da base do Flamengo perderam a vida em um incêndio no Ninho do Urubu, ganhou um novo capítulo de indignação. Nesta terça-feira (21), a 36ª Vara Criminal da Comarca da Capital do Rio de Janeiro decidiu absolver, em primeira instância, todos os sete réus ainda respondendo pelo caso. Outros quatro já haviam sido inocentados anteriormente, encerrando, momentaneamente, o processo judicial em torno de uma das maiores tragédias da formação de atletas no país.

Os jovens, com idades entre 14 e 16 anos, dormiam em um contêiner improvisado, instalado de forma precária nas dependências do Centro de Treinamento. O fogo, possivelmente provocado por um curto-circuito em um ar-condicionado que funcionava ininterruptamente, consumiu rapidamente o espaço, evidenciando falhas estruturais graves. Na época, o alojamento não possuía alvará de funcionamento, e a falta de manutenção, inspeção e planejamento de segurança contribuiu diretamente para a situação que se transformou em tragédia.

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Onze pessoas estavam acusadas de incêndio culposo qualificado, entre elas ex-presidentes e ex-diretores do Flamengo, representantes de empresas terceirizadas e o monitor responsável pelos adolescentes. Sete réus foram absolvidos pelo juiz Thiago Fernandes de Barros, que fundamentou sua decisão na “ausência de demonstração de culpa penalmente relevante”. Segundo o magistrado, não foi possível estabelecer uma relação direta entre as condutas individuais dos acusados e a ocorrência do incêndio.

A Afavinu (Associação dos Familiares de Vítimas do Incêndio do Ninho do Urubu), que congrega mães, pais, irmãos e demais familiares das vítimas, repudiou veementemente a decisão. Em nota oficial, a associação classificou a sentença como uma “grave afronta à memória das vítimas e ao sentimento de toda a sociedade”, reforçando que seguirá lutando por Justiça, responsabilização e pela implementação de medidas de fiscalização mais rigorosas em alojamentos de menores atletas em todo o Brasil.

“A absolvição dos réus, baseada na impossibilidade de individualizar condutas e provar nexo causal, renova o sentimento de impunidade e fragiliza a proteção à vida de menores em entidades esportivas formativas ou assistenciais. Os jovens falecidos dormiam em contêineres improvisados, sem alvará, com falhas elétricas e grades que dificultavam a saída em caso de emergência. Não podemos permitir que tragédias evitáveis se repitam”, declarou a Afavinu.

A empresa responsável pelo contêiner, por sua vez, afirmou que a sentença corrige um erro que vinha sendo alertado pela defesa há anos, mas a medida pouco ameniza a dor das famílias que perderam filhos de forma totalmente evitável. Especialistas em segurança predial e direitos de menores destacam que o caso evidencia a necessidade de fiscalização constante, auditorias regulares e manutenção preventiva em alojamentos de atletas, garantindo que jovens em formação não sejam submetidos a riscos desnecessários.

O episódio do Ninho do Urubu permanece como alerta sombrio sobre negligência, responsabilidade civil e penal, além de ressaltar a urgência de políticas de proteção à vida de menores em ambientes esportivos. Para a Afavinu e para a sociedade, a memória dos 10 adolescentes exige vigilância contínua, mobilização civil e cobrança permanente por justiça, transparência e responsabilidade.

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