No interior de Minas Gerais, consolidou-se nas redes sociais como a “capital das plásticas”, um título conquistado pela oferta de cirurgias estéticas a preços considerados imbatíveis no mercado nacional. Diariamente, centenas de mulheres, como Dulcineia Luz, de Rondonópolis (MT), chegam à cidade de 100 mil habitantes, seduzidas por promessas de “x-tudo” a R11 mil. Contudo, por trás da aparente acessibilidade e do “boom” econômico que impulsionou uma rede informal de serviços pós-cirúrgicos, emergem relatos preocupantes de sonhos transformados em pesadelos, com pacientes denunciando erros médicos, infecções graves e falta de assistência, expondo um cenário complexo que levanta alertas sobre a segurança e a ética no crescente mercado da beleza.
A ascensão de Ubá no cenário da cirurgia plástica é um fenômeno impulsionado massivamente pelas redes sociais, especialmente TikTok e Instagram. Vídeos de pacientes em recuperação, exibindo seus resultados e os baixos custos, somam milhões de visualizações e se tornaram o principal canal de marketing, atraindo mulheres de todas as partes do Brasil e até brasileiras residentes no exterior, muitas delas dispostas a pagar em dinheiro vivo para ter acesso aos preços que, em capitais como São Paulo ou Belo Horizonte, sequer cobririam os custos hospitalares. A fama online gerou uma “máfia do bem”, como descreve Lucilene Queiroz, da Pag Crédito Ubá, que oferece financiamentos específicos para cirurgias, operando inclusive com nomes negativados, evidenciando o quão profunda a demanda se tornou.
No entanto, a narrativa de sucesso e preço baixo encontra seu contraponto no crescente número de denúncias e processos judiciais. Pelo menos seis cirurgiões plásticos atuam diariamente em Ubá, sendo que dois deles, Maurino Grossi e Júlio Cesar Ferreira, considerados “pioneiros” na especialidade local, acumulam juntos dezenas de ações na Justiça. Contra Júlio Cesar Ferreira, por exemplo, a reportagem da BBC News Brasil localizou cerca de 40 processos, com 7 condenações em 16 sentenças já proferidas, a maioria por supostos erros em mamoplastias. Maurino Grossi, por sua vez, enfrenta aproximadamente 40 processos, com 5 condenações em 28 sentenças, e 21 casos extintos por acordo ou desistência. Questionado pela reportagem em dezembro de 2024, Grossi negou a alta estatística de erros, argumentando que 20 anos de profissão e cerca de 10 mil cirurgias justificam o número de processos, e que peritos, não pacientes, determinam o erro médico. Júlio Cesar Ferreira, contatado via advogado, não concedeu entrevista, mas enviou nota genérica sobre a importância do repouso e retorno do paciente para acompanhamento.
Os relatos de pacientes insatisfeitas são alarmantes e expõem a face oculta desse “barato que sai caro”. Gelva Consuelo, esteticista de 56 anos de Belo Horizonte, operou com Maurino Grossi em 2016 e 2017, acusando-o de uma lipoaspiração “ultrassuperficial” e de não ter obtido mudanças, mesmo após um segundo procedimento. Embora tenha chegado a um acordo judicial para devolução do dinheiro, ela alerta: “Se eu não tivesse essas fotos e não soubesse do assunto, eu seria só mais um caso perdido.” Grossi refutou a alegação de lipo em 15 minutos e disse ter mudado sua prática, realizando menos cirurgias por dia para reduzir complicações e “viver uma vida mais tranquila”, afastando-se de acordos que, segundo ele, viram “chantagem”.
Mais grave é o caso de Rosimar Cordeiro Messias, 53 anos, que, em 2015, fez abdominoplastia e mamoplastia com Júlio Cesar Ferreira. O “sonho” de ter um corpo bonito para ir à praia se transformou em um pesadelo de sete meses de dor intensa, infecção profunda e depressão severa. A incisão cirúrgica se abriu, transformando-se em uma ferida com secreção, e Rosimar relata falta de assistência e descaso da equipe médica. “Eu achei muito barato, mas só não sabia que esse barato ia ficar muito, muito caro no final”, lamenta Rosi, que precisou gastar grande parte de suas economias com tratamentos pós-cirúrgicos e sessões de laser para fechar a ferida. O advogado de Júlio Cesar alega que pontos abertos ocorrem por desobediência ao repouso e que pacientes de fora da cidade se recusam a retornar para acompanhamento, o que Rosimar refuta.
Apesar dos riscos, muitas pacientes, como Daniela Vieira, de 45 anos, que viajou do Mato Grosso, expressam satisfação com os resultados, destacando que a experiência “foi exatamente o que eu esperava”. Contudo, Rosi e Gelva são unânimes em alertar: a pesquisa e a cautela são cruciais. O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Marcelo Sampaio, enfatiza a importância de buscar indicações confiáveis, verificar a habilitação do profissional no CRM ou na SBCP, exigir explicações detalhadas sobre resultados e riscos, e confirmar se a cirurgia será realizada em um hospital autorizado pela Anvisa.
O Conselho Federal de Medicina (CFM), em nota, reforça que valores atrativos podem mascarar a supressão de condições mínimas de segurança e precariedade da estrutura, colocando em risco a vida dos pacientes. Em Ubá, a “capital das plásticas” de baixo custo, a beleza é um sonho acessível, mas a conta, para alguns, vai muito além do financeiro, cobrando um preço alto em saúde e bem-estar.






