Intolerância religiosa: Aluna de Enfermagem da UFSJ em Divinópolis denuncia ter sido discriminada pela professora, por frequentar terreiro de umbanda

Estudante relata ter sido alvo de ofensas em sala de aula nos dias 07 e 30 de abril; Universidade repudia preconceito e investiga o caso, juntamente com a Polícia; Veja estatísticas em Minas, no Brasil e confira o que diz a Lei e especialistas no tema.

Publicado por: Redação

A Universidade Federal São João del-Rei (UFSJ) Campus Dona Lindu, em Divinópolis, se tornou cenário de uma investigação criminal na última semana, após uma estudante de 24 anos do curso de Enfermagem denunciar a professora, alegando ter sido vítima de intolerância religiosa. Segundo a aluna relatou, nos dias 7 e 30 de abril, ela participava de uma disciplina prática da sua grade curricular, chamada “Integração Ensino, Serviço e Comunidade”, quando teria sido ofendida por frases ditas pela docente. A estudante da UFSJ registrou um boletim de ocorrência na Polícia Militar e o caso foi encaminhado à Polícia Civil, onde foi aberto um inquérito.

De acordo com o relato da estudante, no dia 7 de abril, durante debate sobre grupo de combate ao tabagismo em unidade de saúde, a docente teria comentado em tom depreciativo sobre o terreiro o qual a aluna frequenta, dizendo: “Graças a Deus, eu não sei nada sobre isso!”.

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Ainda conforme ralatou, já na aula do dia 30 de abril, ao ouvir que a aluna havia ido a um centro de umbanda, a professora alertou em seguida “Muito cuidado com isso!”, completando: “Depois eu conto uma história pra vocês!”. A estudante afirmou que tais expressões fizeram-na sentir “constrangida e desrespeitada”, pois, em sua interpretação, desvalorizavam sua crença de matriz africana.

Ela procurou a docente após as aulas para explicar o sofrimento causado, citando o Código de Ética da Enfermagem, mas não obteve retratação.

Na semana passada, 16 de maio, a estudante então registrou um b.o na Polícia Militar. O relato à corporação inclui os dois episódios relatados em abril: “expressões que a fizeram se sentir desrespeitada em razão de sua fé, a umbanda”.

Nota da UFSJ

Em nota oficial, a UFSJ confirmou ter tomado conhecimento da denúncia. A universidade afirmou que, mesmo sem registro formal de queixa em sua ouvidoria, vai apurar o episódio “com base nas informações do boletim de ocorrência” e tomar “as providências cabíveis”.

A instituição garante apoio à estudante e reforça o “profundo repúdio a todas as formas de preconceito e discriminação”. O caso ganhou repercussão em entidades de defesa dos direitos humanos, que lembram ser dever do Estado e das instituições combater atos de intolerância em qualquer ambiente, incluindo escolas e universidades.

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O que diz a Lei e especialistas?

Para especialistas em direitos humanos, episódios como este mostram a necessidade de conscientização e cumprimento da legislação. No Brasil, a intolerância religiosa é crime, prevista na Lei nº 7.716/1989. Essa norma tipifica como delito “praticar, induzir ou incitar discriminação ou preconceito de religião”, com pena de 1 a 3 anos de reclusão e multa.

A Constituição Federal também garante que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurado o livre exercício dos cultos religiosos” (art. 5º, VI) e veda ao Estado qualquer preferência ou discriminação em razão de crença (art. 19, I). No entanto, como observa o historiador Ivanir dos Santos (UFRJ), a intolerância religiosa “está, desde o período colonial, atrelada à história da formação da sociedade brasileira”, integrando-se ao racismo estrutural que afeta sobretudo povos de matriz africana.

Para o sociólogo Alexandre Brasil Fonseca (UFRJ), “episódios de intolerância têm ocorrido em diversos contextos, sendo o religioso um deles”, e guardam relação com outras formas de preconceito, como o racial e o LGBTfóbico. Ele ressalta que as religiões representam “uma significativa expressão cultural da vida humana” e que sua diversidade deve ser respeitada pelo Estado e pela sociedade.

A intolerância religiosa em Minas e no Brasil

Dados recentes do governo federal confirmam uma escalada de denúncias. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos (MDH) e o Disque Direitos Humanos (Disque 100), foram registradas 2.124 violações de direitos humanos motivadas por intolerância religiosa em 2023, um aumento de cerca de 80% em relação a 2022 (1.184 casos). Em 2024, o total subiu ainda mais: 2.472 denúncias (alta de 66,8% ante 2023). As maiores vítimas continuam sendo seguidores de religiões afro-brasileiras.

No levantamento de 2024, lideram os casos:

Umbanda: 151 ocorrências (mais que o triplo das denúncias contra essa religião em 2021).

Candomblé: 117 casos.

Outras religiões afro-brasileiras: 21 casos.

Em contrapartida, registraram-se 88 denúncias contra evangélicos, 53 contra católicos, 36 contra espíritas e poucos casos de islã e judaísmo. Em muitos boletins (1.842 de 2.472), a religião da vítima não foi especificada. Outro dado relevante é que 60% das vítimas de intolerância em 2024 eram mulheres (1.423 casos, contra 826 de homens).

Essas estatísticas nacionais espelham o quadro encontrado em Minas Gerais e na região Centro-Oeste: segundo o MDH, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia concentram a maioria dos registros, mas há sinalização de aumento em vários estados. Parlamentares mineiros também têm denunciado casos recentes de racismo e intolerância religiosa em diferentes contextos de Minas Gerais (por exemplo, obstáculos a mulheres negras usando turbantes em repartições públicas).

Historicamente, episódios de violência contra religiões de matriz africana são célebres no Brasil. Em 2000, a ialorixá Gildásia dos Santos (Mãe Gilda) morreu após sofrer ataque racista em Salvador (BA) – episódio que resultou na criação do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (Lei 11.635/2007). Ainda hoje, seguidores de umbanda e candomblé lidam com chacotas, sermões contra a “macumba” e até agressões físicas.

A educação profissional em saúde é um dos espaços em que especialistas apontam ser crucial o respeito à diversidade religiosa: enfermeiros e demais profissionais devem receber formação para atender pacientes de todas as crenças sem preconceito.

O caso da aluna da UFSJ Campus Dona Lindu se insere em um contexto mais amplo de avanço das denúncias de intolerância religiosa no país. Organizações de direitos humanos destacam que a visibilidade crescente dessas denúncias se deve em parte à existência de canais como o Disque 100 e campanhas de conscientização.

Entretanto, alertam que o registro de ocorrência não garante por si só justiça à vítima: são necessários empenho das autoridades policiais, dos tribunais e das próprias instituições (escolas, igrejas, empresas) para punir o ato e evitar sua repetição.

Como afirma Fonseca, políticas afirmativas e espaços de diálogo inter-religioso são urgentes para que “todas as pessoas possam assumir sua religião sem medo e ser respeitadas por isso”.

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  1. Juca disse:

    Não vai virar nada, docente de federal faz o que quer, quando quer , do jeito que quer, máximo PAD, que não vira absolutamente nada….

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