Exatos três anos após o acidente que vitimou a cantora Marília Mendonça, o Aeroporto de Caratinga, localizado na Zona da Mata mineira, passa por um intenso processo de modernização e melhorias em segurança. O acidente, que ocorreu nas proximidades do aeródromo e não em sua área direta, trouxe à tona a necessidade de intervenções na estrutura local e no entorno, visando a prevenção de futuros incidentes.
O avião que transportava Marília Mendonça e sua equipe colidiu com uma linha de transmissão de energia da Cemig, localizada fora da área de proteção do aeroporto. Como essa linha estava fora dos limites de aproximação e decolagem, e por ser inferior a 150 metros de altura, a sinalização não era obrigatória. A investigação conduzida pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) confirmou que, embora a linha apresentasse pouco contraste visual, ela não comprometia diretamente a segurança das operações no aeroporto. No entanto, o Cenipa recomendou que a Cemig adotasse a sinalização da estrutura por uma questão de prevenção, orientação seguida pela empresa em agosto do ano seguinte ao acidente.
A tragédia atraiu os olhos das autoridades e impulsionou uma série de investimentos e melhorias no aeródromo, que vão além das medidas recomendadas. Álvaro Lacerda, responsável pelo Aeroporto de Caratinga, destacou que o espaço está recebendo novos recursos, como cercamento moderno, asfaltamento do entorno e a ampliação da pista, que atualmente conta com 1.080 metros e será ampliada para 1.400 metros até o final de 2025. Além disso, o planejamento inclui a instalação de balizamento noturno, prevista para o primeiro semestre de 2026, o que permitirá operações de pouso e decolagem noturnas, um avanço significativo para um aeródromo de pequeno porte.
Lacerda relembra que, antes do acidente, o aeroporto operava sem uma carta de aproximação visual, documento que orienta os pilotos nos procedimentos de pouso e decolagem em locais sem torre de controle. Após o incidente, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) solicitou e emitiu a carta, aumentando a segurança e a clareza dos procedimentos para os pilotos que utilizam o local. “Com a carta, tornou-se muito mais seguro o processo de pouso e decolagem. É quase impossível errar com as informações que constam ali”, afirmou Lacerda.
Especialistas também apontam que acidentes envolvendo figuras públicas, como o ocorrido com Marília Mendonça, têm o poder de gerar maior atenção das autoridades para investimentos em segurança. Wagner Cláudio Teixeira, piloto e membro da Comissão de Direito Aeronáutico da OAB, observou que tragédias dessa magnitude pressionam o setor a investir em infraestrutura para evitar novos acidentes. “Esses casos de grande repercussão servem como alerta tanto para a comunidade aeronáutica quanto para as autoridades públicas”, disse.
A situação dos aeroportos no Brasil revela que a realidade enfrentada pelo aeródromo de Caratinga não é isolada. Dados da Anac mostram que, dos 504 aeroportos públicos no país, 384 operam apenas por visualização, sem suporte para operações por instrumentos, o que limita o uso desses locais durante a noite. A maioria dos aeroportos privados enfrenta limitações semelhantes: dos 3.275 registrados, cerca de 2.800 não possuem qualquer tipo de operação noturna, o que reforça a relevância das melhorias feitas no aeroporto mineiro.
A fatalidade que envolveu a cantora serviu, de certa forma, como catalisadora para que a segurança da aviação regional recebesse mais atenção. Para Lacerda, a repercussão do acidente trouxe à tona a necessidade de investimentos em segurança que, por muito tempo, foram negligenciados em aeródromos menores. “O dever de casa foi feito, com melhorias que ajudam a prevenir acidentes e aumentam a confiança dos pilotos que utilizam o espaço”, completou.






