Veja trajetória da vida de Silvio Santos, que morreu neste sábado (17) aos 93 anos

Silvio Santos, camelô; Silvio Santos candidato a presidente do Brasil

Publicado por: Redação

Na década de 1960, Silvio Santos iniciou sua trajetória televisiva comprando um horário na TV Paulista, que posteriormente foi adquirida pela Globo. Ele ocupou os domingos, um dia pouco valorizado pelas emissoras na época. Quando Walter Clark e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, começaram a implantar o famoso “padrão Globo de qualidade” no início dos anos 1970, encontraram Silvio Santos firmemente estabelecido na grade dominical, com total autonomia, inclusive sobre a comercialização de publicidade. Tentativas de removê-lo foram frustradas quando Roberto Marinho renovou seu contrato.

Silvio Santos só deixou a Globo ao conquistar a primeira de várias concessões para administrar sua própria emissora. Em 1975, recebeu o canal 11, TVS, no Rio de Janeiro, das mãos do general Ernesto Geisel. Seis anos depois, o general João Baptista Figueiredo concedeu a Silvio a licença para explorar o canal 4 em São Paulo, além de outros quatro canais, marcando o nascimento do SBT. Esse período foi notório pelo quadro “A Semana do Presidente”, com claro caráter publicitário.

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Silvio sempre se destacou mais como comerciante do que como comunicador, evidenciado pelo tratamento que deu ao jornalismo do SBT. Ele afirmou repetidas vezes que ordenava a seus jornalistas que nunca criticassem, mas apenas elogiassem o governo. Em 2016, nomeou Dudu Camargo, então com 18 anos, para apresentar um telejornal, exemplificando seu distanciamento das convenções tradicionais do jornalismo.

Ao longo de sua carreira, Silvio Santos cultivou uma relação cordial com todos os presidentes, desde Emílio Garrastazu Médici até Jair Bolsonaro, mantendo sua emissora em um posicionamento politicamente neutro. No entanto, durante o governo Bolsonaro, Silvio demonstrou um entusiasmo sem precedentes, chegando a expressar o desejo de ver Bolsonaro no poder por oito anos, seguido por Sergio Moro. Seu genro, Fabio Faria, foi ministro das Comunicações de Bolsonaro.

Apesar de uma gestão marcada pela intuição e mudanças frequentes na programação, o SBT chegou a ser a segunda maior emissora de TV do Brasil. Silvio apostou em uma programação popular, mas a necessidade de atrair anunciantes levou à redução do conteúdo sensacionalista. Programas de auditório, novelas mexicanas, “Chaves”, filmes da Disney e desenhos animados tornaram-se pilares da grade.

Entretanto, a gestão errática cobrou seu preço. Em 2007, a Record, adquirida por Edir Macedo, superou o SBT em audiência. Silvio também teve problemas em suas incursões na política partidária, como sua tentativa frustrada de concorrer à presidência em 1989, cuja candidatura foi impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral.

O talento de Silvio como empresário foi questionado em 2010, quando o Banco PanAmericano, de sua propriedade, quebrou sob suspeita de gestão fraudulenta. Apesar disso, Silvio conseguiu sair da situação com seu patrimônio intacto.

Pai de seis filhas, Silvio Santos nunca teve um herdeiro direto na televisão. Vários apresentadores foram cotados para sucedê-lo, mas nenhum foi oficialmente escolhido. Apesar de ameaçar se aposentar desde a década de 1970, ele só deixou os palcos no fim de sua vida, embora tenha continuado a influenciar a administração do SBT, agora gerida por suas filhas.

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Silvio Santos enfrentou críticas nos últimos anos por seu comportamento considerado inapropriado, especialmente em relação às mulheres e minorias. Durante a pandemia de Covid-19, ele permaneceu em casa de março de 2020 a julho de 2021. Mesmo após ser vacinado, contraiu a doença ao retornar às gravações. Em 2023, ao se afastar da apresentação de seu programa, a atração foi rebatizada como “Programa Silvio Santos com Patrícia Abravanel”, evidenciando a complexidade de sua substituição.

A história de Silvio Santos e do SBT é inseparável, e o futuro da emissora depende da capacidade de sua família de continuar seu legado sem perder a essência que ele criou.

Silvio Santos, camelô

“Eu ainda sou um camelô”, costuma afirmar Silvio Santos quando lhe pedem para se autodefinir. A frase pode parecer modéstia exagerada, mas na verdade reflete a essência da trajetória do carioca Senor Abravanel, seu verdadeiro nome. Ao longo de seis décadas, Silvio Santos construiu uma carreira que, além de consagrá-lo como um dos maiores animadores de auditório do Brasil, o consolidou como um empresário visionário.

Sua jornada começou cedo, aos 12 anos, no Rio de Janeiro, vendendo suvenires na loja do pai, Alberto Abravanel, um comerciante grego. Aos 14, já atuava como camelô. Hoje, próximo dos 70 anos, Silvio lidera o Grupo Silvio Santos, um conglomerado que movimenta R$ 1,6 bilhão por ano e abrange 33 empresas, incluindo a administradora da Tele Sena, a qual gera os maiores lucros do empresário, mas que também enfrenta processos judiciais que questionam sua legalidade.

Em 1981, Silvio ampliou seu império com a fundação do SBT, após adquirir quatro canais da extinta TV Tupi. A emissora rapidamente se transformou na segunda maior do Brasil. Enquanto a Globo se destacava por estabelecer um padrão de qualidade com programas tecnicamente aprimorados e de apelo menos popular, o SBT seguiu um caminho diferente. Investiu em atrações voltadas para as classes mais populares, como novelas mexicanas, programas de calouros e desenhos animados, e alcançou um faturamento de R$ 479 milhões em 1999. Embora inferior ao da Globo, que faturou R$ 1,8 bilhão no mesmo ano, o SBT influenciou o mercado televisivo brasileiro, obrigando até a líder a incorporar elementos mais populares em sua programação.

A história de Silvio Santos é frequentemente retratada como a de alguém que ascendeu das origens humildes, mas a realidade é um pouco diferente. Seus pais tinham uma pequena loja de artigos para turistas no centro do Rio, o que lhe permitiu estudar até se formar como técnico em contabilidade.

Na década de 1940, ao observar um camelô vendendo carteirinhas para títulos de eleitor, Silvio viu uma oportunidade de negócio e decidiu entrar nesse mercado. Suas mercadorias incluíam canetas, lâminas de barbear, bonecas, remédios para calos, gravatas e suspensórios, que ele vendia enquanto fazia truques de mágica para atrair clientes.

No final dos anos 1940, Silvio destacou-se em concursos de locução, vencendo 12 competições consecutivas. Para continuar competindo, ele adotou o pseudônimo de Silvio Santos. Mesmo com sucesso na rádio, não abandonou seu lado comerciante. Criou um serviço de alto-falantes em barcas Rio-Niterói e Paquetá, tocando músicas e veiculando anúncios, além de promover concursos para atrair clientes.

Em 1954, com as barcas em manutenção, Silvio mudou-se para São Paulo, onde abriu o bar Nosso Cantinho e trabalhou como locutor na rádio Nacional. Em 1957, ajudou o amigo Manoel da Nóbrega a salvar o Baú da Felicidade, uma loja que vendia brinquedos em parcelas mensais. Sob a administração de Silvio, o negócio prosperou, estabelecendo as bases do que viria a ser o Grupo Silvio Santos.

Antes disso, em 1956, Silvio estreou na TV Paulista narrando comerciais e, em 1962, lançou o “Programa Silvio Santos”, cuidando pessoalmente de toda a produção. Suas boas relações com o general João Baptista Figueiredo, então presidente da República, lhe garantiram, nos anos 1980, a concessão de uma rede de TV. Silvio também tentou entrar na política, concorrendo à prefeitura de São Paulo em 1988 e à Presidência da República em 1989, mas sem sucesso. Novamente, em 1992, tentou a prefeitura de São Paulo, mas mais uma vez não obteve êxito.

Silvio Santos, candidato a presidente do Brasil

O empresário e comunicador Silvio Santos tentou disputar a eleição presidencial de 1989 – a primeira pelo voto direto após quase três décadas – pelo Partido Municipalista Brasileiro (PMB), que foi extinto logo após o pleito.

A candidatura do dono do SBT foi oficializada duas semanas antes do primeiro turno, marcado para o dia 15 de novembro, mas foi contestada por partidos adversários e acabou barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 9 de novembro.

Embora não tenha sido aceita pela Justiça, a tentativa de Silvio Santos agitou o processo eleitoral daquele ano. A eleição terminou com a vitória de Fernando Collor de Mello (PRN), que derrotou o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno, realizado em 17 de dezembro.

Dono de um rosto conhecido pelos brasileiros, o apresentador de televisão figurou bem nas pesquisas eleitorais, chegando a alcançar 30% das intenções de voto nas sondagens, de acordo com informações do TSE.

Problemas com o registro do PMB e questionamentos acerca da legalidade da candidatura de um proprietário de uma rede de televisão pesaram na decisão da Justiça Eleitoral que indeferiu a tentativa de Silvio Santos, frustrando os planos do empresário, aliados e fãs.

A eleição de 1989

O momento era de efervescência política. Depois do fim da ditadura militar e na esteira do movimento “Diretas Já” e da promulgação da Constituição Federal de 1988, a “Constituição Cidadã”, os eleitores estavam animados com a possibilidade de votar diretamente para presidente da República.

A última vez que isso havia ocorrido foi em 1960 – eleição vencida por Jânio Quadros, quatro anos antes do golpe militar que inaugurou, no Brasil, um período marcado pela cassação de direitos políticos, censura, repressão e violência do Estado.

O clima quente na política se refletiu na pulverização de candidaturas em 1989, mais de 20 nomes foram lançados como concorrentes ao Palácio do Planalto. O primeiro turno ocorreu em 15 de novembro; o segundo, em 17 de dezembro.

Entre os postulantes, estavam Ulysses Guimarães (PMDB), Aureliano Chaves (PFL), Lula (PT), Collor (PRN), Leonel Brizola (PDT), Mário Covas (PSDB), Paulo Maluf (PDS), Roberto Freire (PCB), Guilherme Afif Domingos (PL) e Ronaldo Caiado (PSD).

Lançado pelo nanico PRN, Fernando Collor de Mello chamou a atenção do eleitorado com uma imagem de político independente, jovem e empreendedor. Na outra ponta, estava o petista Lula – líder sindical, fundador do PT e deputado federal.

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