Na década de 1960, Silvio Santos iniciou sua trajetória televisiva comprando um horário na TV Paulista, que posteriormente foi adquirida pela Globo. Ele ocupou os domingos, um dia pouco valorizado pelas emissoras na época. Quando Walter Clark e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, começaram a implantar o famoso “padrão Globo de qualidade” no início dos anos 1970, encontraram Silvio Santos firmemente estabelecido na grade dominical, com total autonomia, inclusive sobre a comercialização de publicidade. Tentativas de removê-lo foram frustradas quando Roberto Marinho renovou seu contrato.
Silvio Santos só deixou a Globo ao conquistar a primeira de várias concessões para administrar sua própria emissora. Em 1975, recebeu o canal 11, TVS, no Rio de Janeiro, das mãos do general Ernesto Geisel. Seis anos depois, o general João Baptista Figueiredo concedeu a Silvio a licença para explorar o canal 4 em São Paulo, além de outros quatro canais, marcando o nascimento do SBT. Esse período foi notório pelo quadro “A Semana do Presidente”, com claro caráter publicitário.
Silvio sempre se destacou mais como comerciante do que como comunicador, evidenciado pelo tratamento que deu ao jornalismo do SBT. Ele afirmou repetidas vezes que ordenava a seus jornalistas que nunca criticassem, mas apenas elogiassem o governo. Em 2016, nomeou Dudu Camargo, então com 18 anos, para apresentar um telejornal, exemplificando seu distanciamento das convenções tradicionais do jornalismo.
Ao longo de sua carreira, Silvio Santos cultivou uma relação cordial com todos os presidentes, desde Emílio Garrastazu Médici até Jair Bolsonaro, mantendo sua emissora em um posicionamento politicamente neutro. No entanto, durante o governo Bolsonaro, Silvio demonstrou um entusiasmo sem precedentes, chegando a expressar o desejo de ver Bolsonaro no poder por oito anos, seguido por Sergio Moro. Seu genro, Fabio Faria, foi ministro das Comunicações de Bolsonaro.
Apesar de uma gestão marcada pela intuição e mudanças frequentes na programação, o SBT chegou a ser a segunda maior emissora de TV do Brasil. Silvio apostou em uma programação popular, mas a necessidade de atrair anunciantes levou à redução do conteúdo sensacionalista. Programas de auditório, novelas mexicanas, “Chaves”, filmes da Disney e desenhos animados tornaram-se pilares da grade.
Entretanto, a gestão errática cobrou seu preço. Em 2007, a Record, adquirida por Edir Macedo, superou o SBT em audiência. Silvio também teve problemas em suas incursões na política partidária, como sua tentativa frustrada de concorrer à presidência em 1989, cuja candidatura foi impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral.
O talento de Silvio como empresário foi questionado em 2010, quando o Banco PanAmericano, de sua propriedade, quebrou sob suspeita de gestão fraudulenta. Apesar disso, Silvio conseguiu sair da situação com seu patrimônio intacto.
Pai de seis filhas, Silvio Santos nunca teve um herdeiro direto na televisão. Vários apresentadores foram cotados para sucedê-lo, mas nenhum foi oficialmente escolhido. Apesar de ameaçar se aposentar desde a década de 1970, ele só deixou os palcos no fim de sua vida, embora tenha continuado a influenciar a administração do SBT, agora gerida por suas filhas.
Silvio Santos enfrentou críticas nos últimos anos por seu comportamento considerado inapropriado, especialmente em relação às mulheres e minorias. Durante a pandemia de Covid-19, ele permaneceu em casa de março de 2020 a julho de 2021. Mesmo após ser vacinado, contraiu a doença ao retornar às gravações. Em 2023, ao se afastar da apresentação de seu programa, a atração foi rebatizada como “Programa Silvio Santos com Patrícia Abravanel”, evidenciando a complexidade de sua substituição.
A história de Silvio Santos e do SBT é inseparável, e o futuro da emissora depende da capacidade de sua família de continuar seu legado sem perder a essência que ele criou.
Silvio Santos, camelô
“Eu ainda sou um camelô”, costuma afirmar Silvio Santos quando lhe pedem para se autodefinir. A frase pode parecer modéstia exagerada, mas na verdade reflete a essência da trajetória do carioca Senor Abravanel, seu verdadeiro nome. Ao longo de seis décadas, Silvio Santos construiu uma carreira que, além de consagrá-lo como um dos maiores animadores de auditório do Brasil, o consolidou como um empresário visionário.
Sua jornada começou cedo, aos 12 anos, no Rio de Janeiro, vendendo suvenires na loja do pai, Alberto Abravanel, um comerciante grego. Aos 14, já atuava como camelô. Hoje, próximo dos 70 anos, Silvio lidera o Grupo Silvio Santos, um conglomerado que movimenta R$ 1,6 bilhão por ano e abrange 33 empresas, incluindo a administradora da Tele Sena, a qual gera os maiores lucros do empresário, mas que também enfrenta processos judiciais que questionam sua legalidade.
Em 1981, Silvio ampliou seu império com a fundação do SBT, após adquirir quatro canais da extinta TV Tupi. A emissora rapidamente se transformou na segunda maior do Brasil. Enquanto a Globo se destacava por estabelecer um padrão de qualidade com programas tecnicamente aprimorados e de apelo menos popular, o SBT seguiu um caminho diferente. Investiu em atrações voltadas para as classes mais populares, como novelas mexicanas, programas de calouros e desenhos animados, e alcançou um faturamento de R$ 479 milhões em 1999. Embora inferior ao da Globo, que faturou R$ 1,8 bilhão no mesmo ano, o SBT influenciou o mercado televisivo brasileiro, obrigando até a líder a incorporar elementos mais populares em sua programação.
A história de Silvio Santos é frequentemente retratada como a de alguém que ascendeu das origens humildes, mas a realidade é um pouco diferente. Seus pais tinham uma pequena loja de artigos para turistas no centro do Rio, o que lhe permitiu estudar até se formar como técnico em contabilidade.
Na década de 1940, ao observar um camelô vendendo carteirinhas para títulos de eleitor, Silvio viu uma oportunidade de negócio e decidiu entrar nesse mercado. Suas mercadorias incluíam canetas, lâminas de barbear, bonecas, remédios para calos, gravatas e suspensórios, que ele vendia enquanto fazia truques de mágica para atrair clientes.
No final dos anos 1940, Silvio destacou-se em concursos de locução, vencendo 12 competições consecutivas. Para continuar competindo, ele adotou o pseudônimo de Silvio Santos. Mesmo com sucesso na rádio, não abandonou seu lado comerciante. Criou um serviço de alto-falantes em barcas Rio-Niterói e Paquetá, tocando músicas e veiculando anúncios, além de promover concursos para atrair clientes.
Em 1954, com as barcas em manutenção, Silvio mudou-se para São Paulo, onde abriu o bar Nosso Cantinho e trabalhou como locutor na rádio Nacional. Em 1957, ajudou o amigo Manoel da Nóbrega a salvar o Baú da Felicidade, uma loja que vendia brinquedos em parcelas mensais. Sob a administração de Silvio, o negócio prosperou, estabelecendo as bases do que viria a ser o Grupo Silvio Santos.
Antes disso, em 1956, Silvio estreou na TV Paulista narrando comerciais e, em 1962, lançou o “Programa Silvio Santos”, cuidando pessoalmente de toda a produção. Suas boas relações com o general João Baptista Figueiredo, então presidente da República, lhe garantiram, nos anos 1980, a concessão de uma rede de TV. Silvio também tentou entrar na política, concorrendo à prefeitura de São Paulo em 1988 e à Presidência da República em 1989, mas sem sucesso. Novamente, em 1992, tentou a prefeitura de São Paulo, mas mais uma vez não obteve êxito.
Silvio Santos, candidato a presidente do Brasil
O empresário e comunicador Silvio Santos tentou disputar a eleição presidencial de 1989 – a primeira pelo voto direto após quase três décadas – pelo Partido Municipalista Brasileiro (PMB), que foi extinto logo após o pleito.
A candidatura do dono do SBT foi oficializada duas semanas antes do primeiro turno, marcado para o dia 15 de novembro, mas foi contestada por partidos adversários e acabou barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 9 de novembro.
Dono de um rosto conhecido pelos brasileiros, o apresentador de televisão figurou bem nas pesquisas eleitorais, chegando a alcançar 30% das intenções de voto nas sondagens, de acordo com informações do TSE.
Problemas com o registro do PMB e questionamentos acerca da legalidade da candidatura de um proprietário de uma rede de televisão pesaram na decisão da Justiça Eleitoral que indeferiu a tentativa de Silvio Santos, frustrando os planos do empresário, aliados e fãs.
A eleição de 1989
O momento era de efervescência política. Depois do fim da ditadura militar e na esteira do movimento “Diretas Já” e da promulgação da Constituição Federal de 1988, a “Constituição Cidadã”, os eleitores estavam animados com a possibilidade de votar diretamente para presidente da República.
A última vez que isso havia ocorrido foi em 1960 – eleição vencida por Jânio Quadros, quatro anos antes do golpe militar que inaugurou, no Brasil, um período marcado pela cassação de direitos políticos, censura, repressão e violência do Estado.
O clima quente na política se refletiu na pulverização de candidaturas em 1989, mais de 20 nomes foram lançados como concorrentes ao Palácio do Planalto. O primeiro turno ocorreu em 15 de novembro; o segundo, em 17 de dezembro.
Entre os postulantes, estavam Ulysses Guimarães (PMDB), Aureliano Chaves (PFL), Lula (PT), Collor (PRN), Leonel Brizola (PDT), Mário Covas (PSDB), Paulo Maluf (PDS), Roberto Freire (PCB), Guilherme Afif Domingos (PL) e Ronaldo Caiado (PSD).
Lançado pelo nanico PRN, Fernando Collor de Mello chamou a atenção do eleitorado com uma imagem de político independente, jovem e empreendedor. Na outra ponta, estava o petista Lula – líder sindical, fundador do PT e deputado federal.
A entrada de Silvio Santos
Em 31 de outubro de 1989, duas semanas antes do primeiro turno do pleito, o PMN oficializou a candidatura de Silvio Santos. A oficialização tardia foi possível graças a uma brecha na legislação eleitoral aberta com o veto do então presidente José Sarney à data-limite de 15 de maio para a filiação partidária de postulantes.
Antes do acordo pelo lançamento da candidatura do comunicador pelo PMB, Silvio Santos realizou tratativas com o PFL, que tinha o ex-vice-presidente Aureliano Chaves como candidato, mas com poucas chances de vitória.
No PFL, o empresário teria uma estrutura partidária maior do que a do PMB para concorrer na eleição presidencial. Embora contasse com o apoio de uma ala do PFL, Silvio Santos não conseguiu avançar nas negociações com o partido, que manteve a candidatura de Chaves.
Restou ao dono do SBT, portanto, tentar vencer a disputa em um partido de pouca expressão. O arranjo passou pela desistência do pastor Armando Corrêa, que, até então, era o cabeça da chapa do PMB.
Com a movimentação, Silvio Santos passou a ser o candidato da sigla à Presidência, tendo Marcondes Gadelha, então senador pela Paraíba, como candidato a vice.
Com a entrada tardia na disputa eleitoral, o proprietário do SBT teve pouco tempo para fazer campanha. Foram somente 10 dias de propagandas até a Justiça Eleitoral indeferir sua candidatura.
Nas poucas inserções partidárias na televisão, Silvio Santos apresentou seu programa de governo, que tinha, como “prioridades básicas”, ações nas áreas de alimentação, saúde, habitação e educação.
Ele também dizia que, se fosse eleito, atacaria “imediatamente” a inflação alta e a falta de correção no salário mínimo. Em outra propaganda, o empresário apresentava o jingle da sua campanha, cujo refrão era “É o 26! É o 26! Com o Silvio Santos, chegou a nossa vez”. A melodia era a mesma da canção que marcou os seus programas de auditório.
Em uma terceira aparição no horário eleitoral, o comunicador reclamava do fato de o seu nome não aparecer na cédula de votação – uma consequência da mudança feita às pressas na chapa do PMB.
“A maior dificuldade minha é que meu nome não aparece na cédula. Vocês que desejam votar em mim não vão encontrar o nome de Silvio Santos na cédula”, afirmava na propaganda. Na sequência, o candidato explicava aos telespectadores que, para o voto ser computado para ele, o eleitor devia, na cédula, marcar o X no número 26, que era seguido do sobrenome Corrêa, de Armando Corrêa, que renunciou à candidatura para dar lugar ao apresentador do SBT.
Adversários contestaram
Segundo o portal do TSE, pesquisas realizadas na época apontavam que a candidatura de Silvio Santos era a preferida de cerca de 30% do eleitorado. A popularidade do apresentador de TV incomodou adversários, o que gerou a apresentação de 18 contestações – juridicamente chamadas de impugnações.
Uma dessas impugnações foi apresentada pelo PRN, partido a que Collor era filiado naquele ano. A peça foi articulada por Eduardo Cunha, que depois viria a ser deputado e presidente da Câmara.
O PRN apontava que o PMB, de Silvio Santos, estava com o registro irregular por não ter realizado convenções regionais em pelo menos 9 estados e convenções municipais em um número mínimo de cidades – exigências previstas na legislação partidária que vigorava à época.
Outras agremiações políticas apontaram que Silvio Santos não havia, de fato, se desvinculado do comando do SBT, uma empresa concessionária de um serviço público, seis meses antes das eleições – regra estabelecida na legislação eleitoral.
TSE barra candidatura
Foi com base nesta última regra que a Procuradoria-Geral Eleitoral elaborou parecer pela inviabilidade da chapa de Silvio Santos e Marcondes Gadelha. Para o Ministério Público, os critérios de inelegibilidade atingiam o fundador do SBT, devendo a sua candidatura ser indeferida pela Justiça.
No julgamento do dia 9 de novembro de 1989, o TSE declarou extintos os efeitos do registro provisório do PMB, o que impedia que a sigla indicasse candidatos. A Corte Eleitoral também considerou, na decisão, o parecer do Ministério Público Eleitoral, reconhecendo a inelegibilidade de Silvio Santos, uma vez que, embora ele não constasse formalmente como diretor do SBT, exercia poder sobre a empresa de comunicação.
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