Em 28 de agosto de 1961, o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, encontrou-se em um momento de alta tensão. Refugiado no porão do Palácio Piratini, Brizola fez um pronunciamento improvisado para uma rádio montada às pressas pela sua equipe. “Hoje, nesta minha alocução, tenho os fatos mais graves a revelar. O Palácio Piratini, meus patrícios, está aqui transformado em uma cidadela que há de ser heroica (…)”. Esse ato de resistência marcou a história brasileira e foi fundamental para evitar um golpe militar naquele ano, como afirmam diversos pesquisadores.
Documentário Reviverá Episódio Histórico
Esse e outros momentos cruciais da carreira de Brizola serão destacados em um documentário dirigido por Sílvio Tendler, com lançamento previsto para o segundo semestre deste ano. A renúncia de Jânio Quadros gerou um impasse sobre a posse de João Goulart, então vice-presidente, que estava fora do país em missão diplomática. A cúpula militar tentou impedir a transmissão de posse, resultando na breve presidência de Paschoal Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara.
Estratégia de Comunicação e Resistência
Leonel Brizola Neto, neto do político, cedeu imagens para o filme e trabalha para preservar o legado do avô através de uma associação cultural. Ele destaca a percepção aguçada de Brizola sobre a ameaça à democracia. “Ele tinha uma leitura do que estava acontecendo. Naquela época, não havia a facilidade das informações que nós temos hoje. Ele entendeu e começou a organizar a resistência. Todos os atos do Brizola foram sempre dentro da legalidade democrática”, comenta.
Brizola utilizou a Rádio Guaíba, por meio de um ato governamental, para defender a posse de João Goulart. Segundo o professor Adriano de Freixo, da Universidade Federal Fluminense, Brizola foi central na resistência, organizando uma “rede da legalidade” que mobilizou mais de 100 rádios pelo Brasil. Essa rede não apenas disseminou discursos em prol da democracia, mas também conseguiu apoio militar do Exército no Rio Grande do Sul e da Brigada Militar gaúcha.
Desapontamento e Legado
A frustração de Brizola com a decisão de João Goulart de aceitar um regime parlamentarista provisório é um ponto destacado pelos estudiosos. “Brizola estava disposto a partir para o confronto se necessário. A ideia dele era marchar para o Rio de Janeiro e dissolver o Congresso, que havia sido conivente com a tentativa de golpe, e garantir a posse do Jango”, afirma Freixo. O sociólogo Yago Junho acrescenta que Brizola compreendeu a importância da comunicação na batalha política, o que lhe rendeu amplo apoio popular.
Educação e Reforma Agrária
Os pesquisadores ressaltam a importância da infância humilde de Brizola no Rio Grande do Sul em suas escolhas políticas. Ele foi um fervoroso defensor do trabalhismo e da reforma agrária, além de ter implementado programas educacionais significativos tanto no Rio Grande do Sul quanto no Rio de Janeiro. Adriano de Freixo destaca que Brizola acreditava que a educação integral era essencial para uma sociedade menos desigual.
Visibilidade do Legado
Em defesa do legado do avô, Leonel Brizola Neto busca digitalizar documentos e promover a visibilidade das contribuições de Brizola. Ele lembra do avô não apenas como político, mas como um homem disciplinador e cheio de histórias. “Lembro dele me ensinando a fazer orçamento doméstico e plantando bananeira em casa. Ele era um homem muito forte”, recorda o neto.
O legado de Leonel Brizola, 20 anos após sua morte, continua a inspirar a luta pela democracia e a justiça social no Brasil.
Fonte: Agência Brasil






