Delegado aposentado da PF, autor do livro “O estado no Estado”, diz ter certeza de que existem mais joias/presentes com Bolsonaro; “o ex-presidente interferiu, sim, na Instituição”

“Certamente Bolsonaro não recebeu só essas joias existem outros tipos de presentes irregulares. O que a Receita apreendeu é só a ponta do iceberg”, afirma Benício Cabral, que disse ainda que o ex-presidente interferiu sim na Policia Federal”

Publicado por: Redação

Benício Cabral, delegado da Polícia Federal já aposentado, em entrevista ao Divinews falou sobre o livro lançado por ele, com o nome “O Estado no Estado”. Ele comentou sobre vários assuntos e disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro é um tipo de “fratura exposta” no que se refere à interferência na política e no jogo do poder. Benicio afirmou ter certeza de que o ex-presidente interferiu na Polícia Federal e demais órgãos, contando com a submissão e negligência de subordinados nomeados por ele.

O Delegado atuou por muitos anos na Delegacia de Divinópolis. Contou ao Divinews que o livro “O Estado no Estado” apresenta várias histórias que ele acompanhou e vivenciou durante sua carreira, começando na década de 1980, quando entrou para a Receita Federal. Foi então que percebeu a existência de dois tipos de Estado. O de direito que é o que as leis e normas que deve existir e ser seguido. E o “estado enviesado” onde os poderosos conseguem tudo o que querem, seja dentro da lei ou não, dando carteiradas explicitas, ou de forma subliminar.

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Depois de sair da Receita e entrar para a Polícia Federal Benício continuou a perceber a existência de um Estado dentro do outro, e foi assim que surgiu a ideia do livro. Nas páginas, ele traz relatos de casos reais, muitos inclusive com identificação dos envolvidos e provas coletadas nas investigações.

O delegado aposentado diz ter se surpreendido ao ver que os superiores dele, tanto na Receita quanto na PF, atuavam de forma a proteger funcionários negligentes e submissos. Na Receita Federal, Benício disse ter visto colegas corruptos que trabalhavam à serviço do contrabando e que chegaram a ser assassinados pelos bandidos das quadrilhas que integravam. Muitas coisas eram de conhecimento da diretoria, que fazia vista grossa. O Delegado chegou a afirmar que tinha medo de dar as costas para alguns de seus pares e ser assassinado, por que ele sabia que um ou outro estava envolvido em ilicitude.

Um dos pontos principais da entrevista foi quando Benício Cabral falou sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele contou que inclusive resolveu incluir um capítulo no livro para falar especificamente sobre Bolsonaro, que ele disse ser um exemplo prático da existência de um Estado no Estado. Benício diz que Bolsonaro se diferencia dos demais políticos por ser uma “fratura exposta”, analogia usada por ele para explicar que a forma de ação do ex-presidente é explícita, sem disfarce, atuando para interferir e conduzir as coisas da forma que melhor conviesse a ele, sua família e seus amigos mais próximos.

Benício contou um caso que aconteceu em uma delegacia da Receita Federal no Rio de Janeiro que começou a investigar pessoas próximas de Bolsonaro. Na época, Bolsonaro articulou para que o responsável pelo caso fosse afastado, o que gerou uma grande revolta do sindicato dos auditores fiscais da Receita. O delegado comentou ainda sobre o caso das joias avaliadas em R$ 15 milhões, que foram apreendidas com a equipe de Bolsonaro ao entrar no Brasil. Para ele, essas apreensões é só a ponta de um iceberg. “Se esses presentes conseguiram pegar, é porque certamente existem muitas outras joias, além de outros tipos de presentes, que ele [Bolsonaro] conseguiu esconder”, afirmou.

Benício também comentou sobre a suspeita de interferência de Bolsonaro sobre a Polícia Federal. Contou que enquanto atuou como delegado, sempre observou que o órgão tem, de fato, completa autonomia para atuar. Porém, acredita sim na interferência de Bolsonaro, mesmo que de forma indireta. O delegado diz que, para conseguir impedir ou ao menos dificultar algumas investigações, o ex-presidente atuava de forma sistemática nomeando chefes que eram submissos a ele, dispostos a fazer tudo o que o então presidente mandava. Dessa forma, Bolsonaro conseguia, por exemplo, que seus protegidos agissem dentro da lei para impedir que inquéritos fossem instaurados, ou que certas investigações tivessem andamento.

Por fim, Benício citou outro exemplo do Estado dentro do Estado, o caso do ex-diretor geral da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques. Após as eleições, Silvinei foi investigado por suspeita de usar o aparato da PRF para beneficiar Bolsonaro. “Quando percebeu que Bolsonaro perdeu e iria fugir para os Estados Unidos, Silvinei entrou com o pedido de aposentadoria, aos 47 anos de idade”, comentou Benício. Além da idade “atípica” para uma aposentadoria, Benício comentou outras situações no mínimo suspeitas envolvendo a aposentadoria do bolsonarista ex-chefe da PRF. Silvinei protocolou o pedido de aposentadoria no início da tarde e, cerca de duas horas depois, o processo já tinha sido avaliado por dezenas de pessoas, recebendo parecer favorável em tempo recorde. “Isso é impossível de acontecer”, declarou Benício. Ele conta que um processo de aposentadoria como o de Silvinei, se for avaliado de forma considerada rápida, só acontece em cerca de 60 dias, por isso, não haveria forma, dentro da lei, de que o ex-chefe da PF conseguisse se aposentar em duas horas. Vale lembrar que isso aconteceu em dezembro do ano passado, enquanto Bolsonaro ainda estava no poder.

Para o delegado aposentado, esse é mais um caso do Estado dentro do Estado, que existe com a finalidade de apenas servir aos poderosos, fazendo o que for preciso para beneficiar quem está no comando.

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comentários

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  1. Rafael Matos disse:

    E sobre Lula o que ele acha!

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