Novas lideranças políticas no Brasil são despreparadas, sem noção do que é política, do que é espaço público, sem noção da história; são youtubers construídos nas redes sociais

Publicado por: Redação

As declarações do deputado paulista Arthur do Val (sem partido) sobre as mulheres da Ucrânia sintetizam a falta de preparo das novas lideranças no Brasil, afirma a cientista política Vera Chaia, ao Jornal Folha Online –  “São pessoas despreparadas, sem noção do que é política, do que é espaço público, sem noção da história”, diz. “São novas lideranças construídas pelo uso das redes sociais. Youtubers que representam a si mesmos e não possuem vínculos partidários ou organizacionais.”

De acordo com ela, a própria viagem de Do Val ao país europeu foi sem propósito, ainda que se considere a justificativa declarada de ajudar vítimas da invasão pela Rússia. Após a repercussão dos áudios de conteúdo sexista, o deputado se desfiliou do Podemos.

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Professora da PUC-SP e coordenadora do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (Neamp), Chaia é uma das organizadoras do recém-lançado “Lideranças Políticas no Brasil: Características e Questões Institucionais”.
No livro, um grupo de 24 pesquisadores traça o perfil de diversas lideranças políticas do país, levando em conta tanto figuras carimbadas do cenário partidário, caso do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), como pessoas que organizam sua ação em coletivos apartados dos canais institucionais.

Por meio de uma série de entrevistas e de análises, os autores mostram como a atuação do líder foi mudando, assim como a compreensão que cada um tem de seu papel e o preparo para exercê-lo.

O resultado da pesquisa está não só no livro mas também num banco de dados (neamp.pucsp.br) que reúne biografias de mais de 200 líderes de momentos diferentes da história do Brasil, de Dom Pedro 1º e Princesa Isabel a Marielle Franco e Fernando Holiday.

O projeto se desenvolveu na esteira nas manifestações de junho de 2013, considerado um marco recente da política brasileira. Assim como ocorreu em outros países, também por aqui ganharam força movimentos impulsionados pela crítica às práticas políticas tradicionais.

“É a partir desse momento que se inicia um processo de reordenamento do campo político nacional e, consequentemente, das lideranças que nele atuam”, diz o livro.

“Se em outros momentos da história os protestos serviam para demandar ações pontuais ou o aprimoramento das instituições políticas, agora passavam a enxergar a política institucional como algo nefasto, como o campo onde se davam todos os desmandos daqueles que ocupavam cargos públicos.”

Daí por que boa parte do livro é dedicada a coletivos ou movimentos sociais de diferentes estados brasileiros que, entre outras características, estruturam a ação de modo descentralizado, em rede, com o auxílio da internet como ferramenta de comunicação.

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Entre os exemplos de organizações criadas com as Jornadas de Junho e projetadas nas redes sociais com um lema antissistêmico está justamente o MBL de Arthur do Val.

De acordo com a análise do livro, as redes sociais se mostram o instrumento perfeito para esse momento de contestação, porque elas permitem que a mobilização ocorra à revelia dos líderes políticos tradicionais, vistos de forma generalizada como integrantes de esquemas de corrupção.

O corolário desse processo foi a disputa de 2018. “A eleição de [Jair] Bolsonaro expressou as metamorfoses conceituais por que passou a liderança política e revelou novos lócus de sua emergência: as redes sociais e os subterrâneos do mundo virtual”, dizem os autores.

A crise de representatividade, porém, afeta os próprios movimentos sociais, que enfrentam dificuldades para estabelecer diálogo com os setores que pretendem atender. “De modo geral, o ‘ninguém me representa’ também acaba os atingindo”, escrevem.

Chega-se a uma situação em que faltam lideranças para conduzir o debate político e social ao mesmo tempo em que as lideranças tradicionais são rejeitadas e as novas não têm o preparo necessário para a função.

Uma possível resposta, segundo Vera Chaia, talvez esteja nos mandatos coletivos, objeto de uma pesquisa ainda em curso.

 

NOVA DIVINEWS – Legenda: políticos de Divinópolis que usam redes sociais para se projetarem. São youtubers que se adequam ao estudo da cientista política, Vera Chaia.

 

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